Filho de Lula será chamado a depor

28/10/2015 15:06

A PF quer explicações de Luís Claudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula, sobre os repasses de lobistas acusados de “comprar” leis.

 

Filho de Lula terá de explicar à PF dinheiro que recebeu de lobista

 

Policiais investigam pagamento de propina a parlamentares para aprovar MP

 

Jailton de Carvalho e Eduardo Bresciani - O Globo

 

BRASÍLIA - A PF quer explicações de Luís Claudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula, sobre os repasses de lobistas acusados de “comprar” leis. -BRASÍLIA- A Polícia Federal vai intimar o empresário Luis Claudio Lula da Silva, um dos filhos do ex-presidente Lula, para prestar depoimento no inquérito sobre a compra de medidas provisórias favoráveis a montadoras de veículos, entre elas a Mitsubishi Motors e a Caoa, que representa a Hyundai no Brasil. Luis Claudio será chamado para se explicar sobre um pagamento de R$ 1,5 milhão que uma de suas empresas, a LFT Marketing Esportivo, recebeu da empresa de lobby Marcondes & Mautoni, no ano passado. A PF também vai tentar descobrir quais políticos teriam contribuído com o esquema, uma vez que foram descobertos e-mails entre lobistas relatando a necessidade de fazer “acertos” com parlamentares.

 

A PF ainda não definiu a data do depoimento de Luis Claudio, que deve acontecer após a análise do material apreendido na mais recente etapa da Operação Zelotes, investigação que teve início com a apuração de fraudes no Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), do Ministério da Fazenda, e agora avança sobre a suposta compra de medidas provisórias relacionadas à renúncia fiscal para montadoras.

 

Procurador acha negócio “muito suspeito”

Segundo a investigação, a Marcondes & Mautoni é uma empresa de fachada, suspeita de intermediar negócios ilegais entre empresas privadas e o setor público. Em pedido que deu origens às buscas na LFT, o procurador José Alfredo de Paula Silva considerou estranho uma empresa de marketing esportivo ter recebido dinheiro de lobistas. Também foram apreendidos documentos da Touchdown Promoção de Eventos Esportivos e da Silva e Cassaro Corretora de Seguros, que também pertencem ao filho de Lula.

É muito suspeito que uma empresa de marketing esportivo receba valor tão expressivo de uma empresa especializada em manter contatos com a administração pública (a Marcondes & Mautoni)”, afirmou o procurador.

 

Pelas investigações, a MMC (Mitsubishi Motors Company) e a Caoa pagaram à Marcondes & Mautoni R$ 16,8 milhões em troca de alterações na Medida Provisória 627, de 2013. Uma emenda aprovada no Congresso prorrogou benefícios fiscais para as montadoras. Em 2014, a Marcondes & Mautoni repassou R$ 1,5 milhão à LFT Marketing. Os sócios da empresa de lobby, Mauro Marcondes Machado e Cristina Mautoni, foram presos anteontem.

 

Em nota divulgada anteontem, o advogado de Luis Claudio, Cristiano Martins, afirmou que a LFT fez contrato de prestação de serviços com a Marcondes & Mautoni entre 2014 e 2015. O contrato resultou em quatro projetos e relatórios relacionados ao marketing esportivo. O advogado disse ainda que os valores foram devidamente declarados à Receita Federal. Ele não explicou, no entanto, o conteúdo dos projetos.

 

Os investigadores também vão apurar o envolvimento de políticos. E-mail enviado pelo ex-conselheiro do Carf José Ricardo dos Santos, em 29 de dezembro de 2009, a Eduardo Valadão, sócio de empresa de lobby envolvida no esquema, tem como título “Atenção parlamentares” e relata a necessidade de “acerto” de contas com políticos. O e-mail é encaminhado também ao lobista Alexandre Paes dos Santos, o APS. José Ricardo ressalta que está partindo para uma viagem e não conseguiu falar com os parlamentares. Sugere que Valadão faça o contato, se achar preciso, para a prestação de contas.

 

José Ricardo prossegue pedindo que Valadão explique não ser conveniente fazer os repasses “de imediato” e que faça a conversa “de maneira tranquila” e “sem criar tensões nos sentimentos deles”. Afirma ainda que, para “segurança dos procedimentos”, era melhor deixar os pagamentos para 2010. No e-mail a APS, o ex-conselheiro afirma que “os nossos colaboradores estão com um conceito muito imediatista”, mas que “é só esclarecer bem a situação e tudo vai dar certo”.

 

A PF diz não ter identificado os políticos, mas vê no e-mail sinal de que havia “sanha de cobrança” dos parlamentares aos lobistas envolvidos.