Igreja Católica mais politizada e próxima do povo

18/10/2015 12:06

Romaria da Terra e da Água: uma Igreja Católica mais próxima do povo e mais politizada

Evento reuniu quase 20.000 pessoas no Sertão do Piauí. Entre rezas e cantos: reivindicações para todo o estado, principalmente para os locais mais pobres

Repórter: Redação O Olho18/10/2015 09h42 - Atualizado em 18/10/2015 10h32

 

Textos, fotos e vídeo: Orlando Berti, enviado a Oeiras*

Oeiras, Sertão do Piauí, quase 20.000 romeiros. Orações e reivindicações

 

Terminou no meio da manhã deste domingo (18) a 13ª Romaria da Terra e da Água. O evento de cunho político-religioso reuniu quase 20.000 pessoas na cidade de Oeiras, Sertão do Piauí, a 313 quilômetros de Teresina. Contou com peregrinos de quase todo o estado, demonstrando a volta da interface política massiva da Igreja Católica. Dezenas de reivindicações, muitas delas contrárias aos governos estadual e federal, foram debatidas e cobradas. O Ministério Público e outros órgãos da Justiça também tiveram seus papéis debatidos no evento.

Romeiros de todo o Piauí tomaram as ruas de Oeiras

 

Outra novidade foi a quase não participação de religiosos à frente das manifestações. O comando dos atos ficou a cargo de pessoas comuns. Lembra os últimos ensinamentos do papa Francisco no sentido das populações serem mais ouvidas. Procurou-se vivenciar o tema do evento: “Direito dos povos, garantia de vida e paz”.

A 13ª Romaria da Terra e da Água ocorreu entre este sábado (17) e este domingo (18). O evento foi dividido em oficinas debatendo quatro temáticas: água, terra, trabalho escravo e obras como a Transnordestina, parques eólicos e mineração. Também houveram momentos públicos de reivindicações e a romaria propriamente dita.

Durante o debate das temáticas, na tarde de sábado, foram destacados os paradoxos entre as ideias governamentais estaduais e federais com as questões consideradas verdadeiramente sociais. A presidente Dilma Rousseff e o governador Wellington Dias (que esteve no sábado em Oeiras) não foram poupados das críticas. A maioria delas feitas sob forte salva de aplausos.

Os debates ocorreram em quatro grandes espaços (um deles com quase mil presentes).

Na noite deste sábado ocorreu a socialização dos debates e apresentações de reivindicações. Antes disso ocorreu um show de músicas católicas, a maioria populares das décadas de 1970 e 1980. Foi feita uma roda de ciranda e os cinco bispos que estavam no momento, além de dezenas de padres e religiosos caíram na dança. Ouvia-se um “viva o Papa Francisco”. Outros clamavam “viva a organização popular”. O evento tornava-se mais político, mas longe de política partidária.

As atenções do segundo momento do evento ficaram voltadas para o padre Geraldo Gereon que denunciou vários casos sobre a ferrovia Transnordestina (o maior carro-chefe de obras do Governo Federal e que promoveu a visita da presidente Dilma Rousseff ao Piauí este semestre) e também sobre a contaminação de rios no Sertão do Piauí. O padre, mostrando provas e documentos, lembrou sobre a importância das organizações sociais e das lutas coletivas.

Momento da socialização de reivindicações. Muitos pedidos duros a Dilma Rousseff e a Wellington Dias

 

Depois do sacerdote outros membros de movimentos sociais e populares tiveram a vez de falar e o que gerou surpresa na população foi o fato de várias cidades da região de São Raimundo Nonato (no Sertão Sul) estarem a mercê de carros-pipa para abastecimento urbano. “Será que morrerei e não encontrarei água encanada em todas as casas de São Raimundo Nonato”, questionou o agricultor Raimundo Silva, 73 anos.

 

O TERCEIRO MOMENTO: CAMINHANDO, CANTANDO, SEGUINDO A CANÇÃO E EXIGINDO PROVIDÊNCIAS

 

Entre 4h e 9h deste domingo ocorreu a romaria propriamente dita.

Saída da romaria às 4h da madrugada

 

Os quase 20.000 romeiros saíram do Morro do Leme e circularam os bairros Oeiras Nova, Centro e Rodagem de Picos. Durante o trajeto fizeram três paradas.

 

A primeira delas foi na frente do prédio da Justiça Eleitoral. Os romeiros pediram mais justiça, maior rapidez no julgamento de casos, principalmente os de corrupção. Deixaram um cartaz na porta, lembrando que a romaria passou por ali.

Parada em frente ao hospital de Oeiras: exigências ao fim da ambulancioterapia

A segunda parada foi em frente ao Hospital Regional Deolindo Couto. Cobrou-se mais empenho dos governantes sobre a saúde. Pediu-se o fim da ambulancioterapia (que é a tática usada na maioria das cidades do Piauí de empurrar o doente, em uma ambulância para uma cidade maior, geralmente Teresina). Também foram cobradas maior rapidez sobre os tratamentos para quem tem doenças crônicas. Três cruzes, representando o calvário, foram deixadas no lado do hospital.

A terceira foi na ponte sobre o riacho da Mocha (local que gerou a fundação do Piauí. Os romeiros lamentaram sobre a morte do riacho, bem como a poluição de rios e nascentes. Atores fizeram performances e três potes de água (cada um dos grandes rios do Piauí) foram jogados no Mocha. Também pediu-se celeridade sobre casos ambientais no estado. A romaria seguiu por uma estrada vicinal, aberta para dar lugar a um loteamento de luxo, ao lado do riacho morto.

Ponte do riacho da Mocha. Protesto bem humorado e exigência de maior atenção ao meio ambiente

 

Depois da caminhada ocorreu uma missa. Dos sete bispos do Piauí atualmente em atividade somente o de Parnaíba, Dom Alfredo Schäffler não esteve presente à Romaria. A Diocese de São Raimundo Nonato está no momento sem bispo. Estiveram os bispos de: Bom Jesus do Gurguéia, Dom Marcos Antônio Tavoni; Campo Maior, Dom Eduardo Zielski; Floriano, Dom Valdemir Ferreira dos Santos; Oeiras, Dom Juarez Sousa da Silva; e Picos, Dom Plínio José Luz Silva; e ainda o arcebispo de Teresina, Dom Jacinto de Brito Furtado Sobrinho.

A missa de encerramento da romaria também foi celebrada por quase 80 outros sacerdotes católicos oriundos também de todas as dioceses piauienses.

NOS PASSOS DO PAPA FRANCISCO

Caminhada com objetivos específicos: novos rumos, principalmente para os lugares mais pobres do estado

 

Uma das figuras que mais apareceram durante a Romaria da Terra e da Água em Oeiras foi a do papa Francisco. Muitos romeiros vestiam camisas em alusão ao líder máximo católico. Mas foram os atos, principalmente dos que estavam à frente do evento que mais coincidiram com os passos do papa que tem revolucionado a igreja com o maior número de fiéis no Brasil.

 

Os bispos e os padres presentes pouco foram protagonistas. A maior parte dos ritos foram comandados por “leigos”, como são chamados no mundo católico os membros que participam das lideranças dos diversos grupos religiosos e sociais.

Era premente, e aplaudida, tons ligados à Teologia da Libertação, famosa no século passado entre uma parcela de católicos e demonizada no final do mesmo século e início deste.

Missa de encerramento da romaria: quase cem sacerdotes e quase 20.000 romeiros de todo o Piauí

 

Músicas que falavam sobre “tempo novo”, importância de “viver em comunidade”. “Um canto novo de alegria, ao raiar aquele dia” era entoada ao coincidir com os primeiros raios do sol do domingo. Parece que acordar às 3h, via foguetório quase ensurdecedor não cansou os romeiros. Até os mais idosos não arredaram o pé, nem mesmo no final da romaria quando o Sol provava o quanto é um elemento do Sertão, dando sua presença acima dos 40ºC.

Caminhada em terreno desmatado: romeiros bradando por valorização das matas ciliares

 

Oeiras foi um lugar emblemático que, há 27 anos, sediou a então 1ª Romaria da Terra do Piauí. De lá para cá a água entrou nas discussões e agora a politização se fortaleceu. Entre freiras vestidas a caráter e jovens com roupas modernas e até uma adolescente com boné aludindo a legalização da maconha, mostra o quanto a Igreja Católica no Piauí está múltipla, quer se renovar e, principalmente, continuar botando a boca no trombone, nem que seja partindo da base.

 

A 14ª Romaria da Terra e da Água dirá.

* Orlando Berti é jornalista e professor universitário. Desenvolve pesquisa de etnografia das redações (projeto da UESPI) tentando entender o jornalismo piauiense na prática e os fenômenos sociais contemporâneos.

 

Fonte: www.oolho.com.br
 

 


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