Jornalismo no Brasil perde encanto

15/11/2015 18:26

Sandra Moreyra: jornalismo no Brasil perde encanto

Por Vitor Hugo Soares - Jornalista

Vitor Hugo Soares

Quando li a confirmação da morte de Sandra Moreyra, na terça-feira, 10 de novembro, bateu amarga sensação de desalento. Veio acompanhada de recordações dos anos 70 e começo dos 80 (quando Sandra morava e trabalhava em Salvador) e de um célebre pensamento chinês: “Há pessoas cuja morte pesa menos que uma pena de passarinho. Há outras, porém, cuja partida pesa toneladas”.

Bota pesar neste caso. Na quadra desastrosa atual do País (no governo, na política, na economia, na ética, no campo social e também da atividade jornalística), baques representados por perdas assim, são inestimáveis. Isso ficará cada vez mais evidente com o passar do tempo, "senhor da razão" segundo também, a sabedoria milenar dos chineses. Podem anotar.

Na beira do túmulo, na hora do enterro, Chico Pinheiro – âncora dos noticiários da Rede Globo e apresentador do programa Sarau, no canal privado Globo News, falou palavras sentidas, justas e que considero proféticas em relação a Sandra Moreyra:

"Ela vai ser um grande exemplo. Ainda era de uma época mais romântica do jornalismo. Antigamente, as profissões sérias eram médico, engenheiro, advogado. Jornalismo era coisa dos mais românticos, boêmios. Ela me passa ainda essa memória, de alguém que se apaixona e vai atrás do que quer. Que esse exemplo fique para as novas gerações, que saibam o que é esse mistério que é o jornalismo, o que é levar a mensagem para ter um mundo melhor”, disse o colega de Sandra.

Ficará. Afirmo ao assinar embaixo das palavras de Chico Pinheiro. Não só pelo tempo da Globo, que ele acompanhou na linha de fogo, paixão, vinho, samba e boa mesa. E seguiu mais de perto em décadas de trabalho ao lado de Sandra. Escrevo isso pelo que vi e testemunhei pessoalmente na sua passagem pela Bahia. Bem antes dela ingressar na Rede Globo, onde explodiria em todas as potencialidades de seu talento e capacidade.

Sandra Moreyra começou no Jornal do Brasil, ainda muito jovem. Entramos no JB na mesma época. Ela na sede do Rio (na editoria do Caderno B). O autor destas linhas, na sucursal do JB na Bahia, então uma vitrine do jornalismo local e do Nordeste. O primeiro contato pessoal, no entanto, só aconteceu quando ela se transferiu para morar em Salvador

Na capital baiana ela deu a guinada decisiva para a TV. Na redação da Bandeirantes, integrante de uma equipe de seis profissionais brilhantes e pau para toda obra, onde cada um "precisava fazer de tudo”. Aí ela deu os primeiros e seguros passos que a elevariam à condição de uma das mais completas profissionais da televisão brasileira.

É deste período a experiência marcante que tive com Sandra Moreyra. Definidora do seu jeito apaixonado de exercer a profissão, e do seu exemplar sentimento ético, de justiça e de verdade. Era fim de novembro de 1982. O Rio e o Brasil prendiam a atenção da imprensa internacional por dois motivos: A I Conferência Mundial do Meio Ambiente e as eleições diretas para governos estaduais, que assinalavam a volta de Brizola aos palanques (depois de largo exílio) na disputa pelo governo fluminense, que empolgava o País. Nas apurações explodiu o escândalo da Proconsult, famoso por vários motivos reprováveis. Um deles, por se constituir na grave denúncia de ser a primeira tentativa de fraudar resultados de eleições em urnas eletrônicas no Brasil.

Pulo os detalhes, de amplo conhecimento público, que podem ser recuperados em consultas aos arquivos do JB ou pesquisa no Google. O que quero lembrar aqui, por inédito, é do telefonema que recebi em casa, num agitado fim de noite de novembro, depois do Jornal Nacional anunciar que a vitória do candidato Wellington Moreira Franco, sobre Brizola, estava prestes a se consumar, apesar de todas as pesquisas de boca de urna apontarem o contrário.

Na outra ponta da linha estava um querido amigo e colega (cujo nome omito porque ele segue em plena atividade). Ao seu lado, a voz apaixonada e inconfundível de Sandra Moreyra. "Estamos saindo agora da redação da Band. Soubemos, de fonte segura, que a vitória de Brizola nas urnas está prestes a ser golpeada pela  fraude na apuração da Proconsult. Se ele não botar a boca no trombone já, a vitória lhe escorrerá pelos dedos. Pensamos em você e nos contatos que tem com amigos próximos no exílio de Brizola, para alertá-lo sobre os riscos. "Com urgência", ouvi Sandra gritar ao lado.

Uma luz explodiu no cérebro. Pedi tempo. Em seguida, disquei para o jornalista Paulo Cavalcante Valente, "o exilado e amigo em quem meu pai mais confia”, segundo ouvira de Neuzinha (filha de Brizola), no Uruguai. Ele morava próximo ao apartamento de Brizola, em Copacabana. Contei a conversa e as informações que acabara de receber. "Meu Deus, o que posso fazer?”, perguntou.

Era a deixa que eu esperava. Pedi a Paulo Valente para ir depressa ao apartamento de Brizola levar a ele as informações. "Todos os correspondentes e melhores jornalistas do mundo estão no Rio, na cobertura da conferência mundial do clima e acompanhando às eleições. Fale para Brizola pedir, a seus assessores políticos e de imprensa, a convocação de uma entrevista coletiva com os jornalistas estrangeiros, para amanhã, o mais cedo possível. E bote a boca no trombone do mundo” , concluí.

Dito e feito. O resto é o que todo mundo já sabe, incluindo a confirmação da vitória de Brizola nas urnas. Nunca havia falado de público ou escrito sobre este fato. Faço-o agora, em nome da verdade dos fatos e da memória de Sandra Moreyra.         

E repito, para encerrar, o que escrevi no Facebook e no blog que edito na Bahia: Ninguém que tenha convivido apenas um dia com Sandra Moreyra, a esquecerá. Quem teve a honra do convívio profissional tão próximo, além do privilégio da sua amizade, fica feliz com isso, ao tempo em que chora a sua partida. Morre Sandra Moreyra! Viva Sandra Moreyra!!!

A jornalista Sandra Moreyra foi vítima de um câncer (Foto: Marcio de Souza / TV Globo / Divulgação)