José Antonio Segatto*: Despertando demônios

19/12/2015 20:57

- O Estado de S. Paulo

Os recentes atentados terroristas promovidos pelo Estado Islâmico (EI) e grupos ou seitas similares (Al-Qaeda, Taleban, Frente al-Nusra, Al Shabaab, Ansar al Sharia, Boko Haram) na França, Turquia, Líbano, Mali, Líbia, Tunísia, Egito, Iêmen que chocaram o mundo - divulgados como atos espetaculares e/ou fantásticos, por parte de certos órgãos da mídia global - não devem ser compreendidos como uma simples reação de seitas político-religiosas fundamentalistas contra o Ocidente cristão e democrático, como muitos ideólogos ou governantes querem fazer parecer. Ou ainda como um epifenômeno do "choque de civilizações", como quis Samuel Huntington.

 

Quais seriam os elementos explicativos para tais atos? Seu entendimento, cremos, envolve um conjunto complexo de fatores histórico-políticos, tanto no passado longínquo e/ou secular, quanto hodierno.

 

Para não recuar muito na História, pode ser mencionada o modo como foram organizados os Estados nacionais no Oriente Médio no pós-guerra, em 1918, com a dissolução do Império Otomano. Inglaterra e França redesenharam as fronteiras da região, criando países artificiais, no mais das vezes sem nenhuma tradição, coesão ou fundamento histórico. Há casos em que o poder foi instituído a partir de tribos e clãs nômades do deserto, por meio de monarquias teocráticas, com a invenção de dinastias ou casas reais. Seu poder e seu domínio foram impostos, em geral, por força e coerção e garantidos pela submissão aos interesses das potências (EUA e Europa) e aos monopólios da indústria petrolífera e armamentista. Na África Setentrional e do Nordeste e na Ásia Central o processo foi similar, com governos de reduzida legitimidade, regimes opressores e iníquos, tirânicos ou autocráticos. Isso criou situações de permanente instabilidade e conflitos contínuos (étnicos, religiosos, políticos, etc.).

 

Outro fator, este mais contemporâneo, foram as crescentes intervenções norte-americanas na região. Desde fins dos anos 1970 o governo dos EUA, via órgãos diplomáticos ou militares e agências secretas de segurança, intensificaram ações, comuns desde a 2.ª Guerra, para garantir seus interesses econômicos e geopolíticos. Um insuspeito economista, Jeffrey D. Sachs, analisando essas operações afirmou há pouco que “a CIA recrutou em grande escala membros de populações muçulmanas (inclusive na Europa) para formar Mujahidin, uma força de combate sunita multinacional mobilizada para expulsar infiéis soviéticos do Afeganistão”. E observou também que, ao fomentar a concepção fundada na eclosão da jihad “para defender as terras do Islã (...) contra forasteiros, a CIA produziu uma força de combate inicial – e a ideologia que a motivou – que hoje ainda forma a base das insurgências jihadistas sunitas, incluindo o EI. O alvo original dos jihadistas era a União Soviética, hoje são EUA, França, Reino Unido e Rússia”.

 

Essas condições e esses desígnios foram agravados e potencializados com as ações e intervenções militares americanas e europeias a partir dos anos 1990 e no início do século 21. Ao desestabilizar ou depor governos e governantes (Afeganistão, Iraque, Líbia, Iêmen, Síria, etc.), tais operações provocaram um vácuo de poder ou destruíram, em alguns casos ou áreas, o que havia de Estado organizado. Isso facultou a liberação de espectros ideológicos extemporâneos e a ressurreição de concepções e atitudes fundamentalistas e/ou messiânicas há séculos adormecidas, que irromperam com uma brutalidade e um ódio inauditos – despertando demônios. Ainda que com elementos antediluvianos, essas concepções ganharam organicidade, manifestando-se na forma e por métodos terroristas. Seus alvos: as relações mercantis, os símbolos do capitalismo, as normas da modernidade laica, os valores da civilização ocidental e as tentativas de impô-los, seja pelo convencimento, seja pela força.

 

Suas ações, estruturação e difusão não ficaram circunscritas à região de origem. Encontraram condições de desenvolvimento excepcionalmente propícias no âmbito europeu, sobretudo na França, na Bélgica, na Inglaterra, países com significativa população de muçulmanos, advinda das ex-colônias. Migrantes, refugiados, descendentes, cidadãos de segunda e terceira categorias, tratados como estrangeiros, discriminados pela origem e vítimas da islamofobia, jovens sem perspectivas ou oportunidades, marginalizados e abandonados à própria sorte, tornaram-se alvo do aliciamento e da sedução dessas seitas sectárias e fundamentalistas. Os subúrbios de Paris, Bruxelas, Londres são hoje incubadores do extremismo jihadista.

 

A reação de EUA, Inglaterra, França e aliados não foi menos atroz e desarrazoada. A resposta ao terror foi dada no mesmo tom, informada e guiada pelo princípio do “olho por olho, dente por dente”. Especialmente durante o governo Bush, retomaram-se os velhos paradigmas baseados na força militar, na supremacia político-econômica dos EUA e nas noções de “guerra justa”, “missão civilizatória”, “exceção permanente”, etc. – o que serviu para alimentar a ira, acirrar os conflitos e disseminar o terror de parte a parte.

 

Na nova fase histórica aberta com o processo de globalização, foram criadas inúmeras possibilidades de renovação democrática na ordem mundial, como, por exemplo, a delimitação e/ou o refreamento de poderes dominantes, o fortalecimento de organismos mediadores das relações internacionais, o estabelecimento de premissas garantidoras da paz e reguladoras de conflitos pelo direito internacional, a implantação de uma plataforma de valores universais. Essas poderiam ser, de fato algumas das proposições básicas a partir das quais se poderia eliminar a violência e o terror e confinar os demônios de todos os tipos e classes, posições e partidos, nacionalidades e etnias, religiões e doutrinas, concepções e ideologias – caso contrário, a humanidade continuará convivendo com o pânico, sobressaltada e assombrada pelos espectros demoníacos.


 

--------------------

* José Antonio Segatto é professor titular de sociologia da Unesp