Lava Jato obriga Lula a depor; ex-presidente ataca

05/03/2016 08:55

*Ordem foi expedida pelo juiz Sérgio Moro, que viu ‘fundada suspeita’ de recebimento de benefício material* Grupos pró e contra o petista se enfrentaram nas ruasl*Em pronunciamento no Diretório Nacional do PT, Lula diz que se sentiu ‘prisioneiro’

O ex-presidente Lula foi obrigado a prestar depoimento à Polícia Federal no inquérito da Lava Jato que investiga desvios e corrupção na Petrobrás. Policiais chegaram ao apartamento de São Bernardo por volta de 6 horas da manhã. Lula foi ouvido por autoridades da força-tarefa durante quase três horas, em uma sala do Aeroporto de Congonhas. As ações da Operação Aletheia–que em grego significa “em busca da verdade” – provocaram reações nas ruas – houve confrontos entre apoiadores e manifestantes contrários ao ex-presidente –, no mercado financeiro e no ambiente político. De acordo como despacho do juiz Sérgio Moro, há “fundada suspeita ”de que o principal líder petista “teria recebido benefícios materiais, de forma sub-reptícia, de empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato, especificamente em reformas e benfeitorias de imóveis de sua propriedade”. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em diversos locais, entre eles o apartamento de Lula e o Instituto Lula. Em pronunciamento no Diretório Nacional do PT, Lula convocou a militância a defender o partido, atacou Sérgio Moro, a imprensa e as “elites”. “Me senti um prisioneiro. Fiquei magoado, ofendido”, disse. À noite, em discurso a militantes, Lula comparou a condução coercitiva a um “sequestro”

 

- O Estado de S. Paulo 

 

Policiais federais levaram Luiz Inácio Lula da Silva de São Bernardo do Campo até o Aeroporto de Congonhas, onde ele foi ouvido pela força-tarefa da operação, sob suspeita de ter se beneficiado do esquema de desvios de verbas e de corrupção na Petrobrás; ele negou

 

Moro obriga Lula a depor na Lava Jato; ex-presidente ataca Justiça e ‘elites’

 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi obrigado pela Polícia Federal, ontem de manhã, em São Paulo, a prestar depoimento no inquérito da Operação Lava Jato que investiga desvios e corrupção na Petrobrás. A medida, autorizada pelo juiz Sérgio Moro, da 13.ª Vara Federal de Curitiba, provocou reações imediatas nas ruas, no mercado e no conturbado ambiente da política brasileira. De acordo com o despacho do magistrado, há “fundada suspeita” de que o principal líder petista “teria recebido benefícios materiais, de forma sub-reptícia, de empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato, especificamente em reformas e benfeitorias de imóveis de sua propriedade”

 

A Lava Jato investiga a relação de Lula com o sítio Santa Bárbara, em Atibaia (SP), utilizado pelo ex-presidente e sua família e reformado por uma espécie de consórcio de empreiteiras. Outro alvo é um tríplex no Guarujá (SP), cuja opção de compra foi oferecida ao ex-presidente pela OAS, uma das envolvidas no esquema na Petrobrás. Essa mais recente fase da operação foi denominada Aletheia (que significa “em busca da verdade”, em grego).Foram realizadas buscas e apreensões na casa do ex-presidente, de quatro de seus filhos (Luis Cláudio, Marcos Cláudio, Fábio Luis e Sandro Luis).

 

Os policiais chegaram ao apartamento de Lula, em São Bernardo do Campo, por volta das 6h. Após ter sido ouvido por autoridades da força-tarefa da operação por quase três horas em uma sala reservada da Polícia Federal no Aeroporto de Congonhas, Lula afirmou, em pronunciamento no Diretório Nacional do PT, ter se sentido um “prisioneiro”, convocou a militância a defender o partido, atacou o juiz, a imprensa e as “elites”.

 

Moro não precisava ter mandado uma coerção na minha casa de manhã, na casa do Delcídio (Amaral, senador do PT), do Paulo Okamotto (presidente do Instituto Lula), não precisava. Era só ter convidado. Eu iria em Curitiba, iria a Brasília, era só ter chamado.” Lula negou as acusações e disse não ser proprietário dos imóveis.

 

A condução coercitiva (na qual o investigado é obrigado a depor) foi justificada por Moro como uma medida de segurança imposta por ele para evitar conflitos entre grupos pró e contra Lula. Segundo ele, a tentativa frustrada do Ministério Público de São Paulo de ouvir Lula no mês passado, em São Paulo, serviu de base para a decisão. Na ocasião, houve briga de manifestantes e a polícia teve de intervir. “Colhendo o depoimento mediante condução coercitiva, são menores as probabilidades de que algo semelhante ocorra.”

 

Militantes do PT e simpatizantes de Lula foram até o aeroporto e até as imediações da cobertura onde o petista mora em São Bernardo para prestar solidariedade a ele. Houve confronto com outros grupos que protestavam contra Lula e o PT nesses mesmos locais. O Ministério Público Federal havia pedido ainda a condução coercitiva da ex-primeira-dama Marisa Letícia. Moro negou. O juiz também deu recomendação expressa para que Lula não fosse algemado. “Consigne-se no mandado que não deve ser utilizada algema e não deve, em hipótese alguma, ser filmado.”

 

O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, criticou a medida. “Me preocupa um ex-presidente da República ser conduzido debaixo de vara”, disse. “Ninguém está imune à investigação”, afirmou o procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima. No fim da tarde, o STF negou pedido da defesa de Lula para suspender a mais recente fase da operação.