Lobo mau - Por Mary Zaidan - Jornalista

20/12/2015 11:13

Lobo mau

Por Mary Zaidan - Jornalista

Mary Zaidan

Quando cumpria seu primeiro mandato na Assembleia de Alagoas, o jovem Renan Calheiros surrava sem compaixão o prefeito de Maceió, Fernando Collor de Mello, a quem se referia como “príncipe herdeiro da corrupção”. Poucos anos depois, já deputado federal, lideraria a campanha do “caçador de marajás” à Presidência da República e, mais tarde, o processo de impeachment do ex-amigo. De lá para cá, o todo poderoso presidente do Senado aperfeiçoou-se na prática de sugar o outro ao máximo e descartá-lo seco e sem sumo quando não tem mais serventia. Nada indica que com a presidente Dilma Rousseff será diferente.

Desde o início do segundo mandato de Dilma, Renan tem oscilado entre o apoio e puxões de tapete. Longe de qualquer inspiração republicana, o humor varia de acordo com o que ele pode obter do governo. Um padrão que repete desde sempre.

Igualmente hábil no cultivo de amigos e de inimigos por conveniência, é afável e ferino em proporções quase idênticas. Aprontou com José Sarney, que virou seu amigo e mentor, e com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem foi ministro da Justiça. Ajudou Collor a destruir o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, aliou-se a Lula para acabar com Collor e juntou os dois – Lula e Collor – quando vislumbrou frutos para si na união.

Quanto a Dilma, nunca a levou a sério. Entre quatro paredes, fala horrores dela.

Mas, sob pressão de meia dúzia de processos no âmbito da Lava-Jato, não perderia jamais a oportunidade de ofertar o ombro a uma presidente sem crédito e desamparada.

Especialmente depois de Renan ter o seu sigilo bancário e fiscal quebrado, informação que só se tornou pública neste fim semana, em reportagem da revista Época. Ocorrida há mais de uma semana, a autorização do STF para vasculhar suas contas podem explicar o ímpeto governista que se apossou de sua alma nos últimos dias.

Presidente do Senado que já renunciou ao cargo uma vez para manter o mandato, Renan sabe que, caso tenha de repetir a dose, não basta verbo para convencer seus pares. É mais experiente, safo. Tem olhos para ver o que ocorre na Casa ao lado, onde o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, conta cada vez com menos aliados.

Curiosamente, Cunha – que há muito deveria estar fora do posto e do Parlamento – passou a ter a torcida do Planalto e até alguma ajuda, em surdina, para permanecer no cargo. Tê-lo lá permite ao governo manter a estratégia de acusá-lo de ter aberto o processo de impeachment por simples vingança.

Na outra ponta, a fidelidade de última hora de Renan começou a ser construída como arrimo para uma eventual catástrofe. Seu primeiro foco foi o PMDB, seara na qual tinha perdido terreno para o vice-presidente Michel Temer. Para tentar abatê-lo, pediu que o TCU auditasse decretos assinados pelo vice da mesma natureza dos que constam na solicitação de impedimento de Dilma.

Renan fez isso de forma calculada, antes de ser aquinhoado pelo Supremo com o poder absoluto de decidir sobre o impeachment e, portanto, de escravizar Dilma.

Aprisionada e sem saída, a presidente fará o que Renan mandar até a última gota de tinta de sua caneta. E, assim como fez com outros, Renan só vai suportá-la enquanto auferir vantagens.

Ao contrário do que diz a fábula, Renan não se esconde em pele de cordeiro. É lobo e se mostra como tal.

E estão alimentando a fera.

Renan Calheiros, presidente do Senado  (Foto: Arquivo Google)

 

 


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