Mais um Ministro cai por agir contra a Lava-Jato

31/05/2016 10:17
• Responsável por combate à corrupção, Fabiano Silveira foi flagrado em grampo
Situação de titular da Transparência ficou insustentável após TV Globo divulgar áudio que o mostrou orientando a defesa de Renan Calheiros nas investigações e de servidores protestaram contra sua permanência e lavarem seu gabinete
 
O governo Michel Temer perdeu seu segundo ministro em uma semana por suspeita de tentar interferir na Lava-Jato. Depois de Romero Jucá, o ministro da Transparência, Fabiano Silveira, responsável pelo combate à corrupção, foi levado a pedir demissão depois de ser flagrado em gravações feitas pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. Na conversa, Silveira critica a operação e orienta o presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre inquéritos no STF. Após a divulgação dos áudios pela TV Globo no domingo à noite, servidores ontem protestaram contra Silveira no Planalto e fizeram lavagem simbólica de seu gabinete. Temer disse que manteria o ministro, mas não resistiu às pressões, feitas também por aliados e pela Transparência Internacional.
 
Cai o 2º ministro de Temer
 
• Fabiano Silveira deixa a Transparência após orientar Renan a como agir na Lava-Jato
 
Simone Iglesias, Júnia Gama, Evandro Éboli e Eduardo Barretto - O Globo
 
-BRASÍLIA- O governo do presidente interino, Michel Temer, viveu ontem a segunda queda de um ministro no período de uma semana e com apenas 19 dias de gestão. Apesar de intensas pressões externas, a saída de Fabiano Silveira do Ministério da Transparência, anunciada na noite de ontem, dividiu o governo Temer e só foi possível após o presidente do Senado, Renan Calheiros, a quem Silveira é ligado, “lavar as mãos” sobre sua permanência no cargo.
 
Em uma demonstração de que preferia o desgaste junto à opinião pública a comprar uma briga com o Senado, o discurso do Palácio do Planalto durante todo o dia de ontem foi que não havia nada grave em relação à Lava-Jato na fala de Silveira gravada pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado e divulgada pelo “Fantástico” no domingo.
 
 
Nela, Renan demonstra preocupação com um processo específico da Lava-Jato, e Silveira o orienta a não prestar todos os esclarecimentos ao Ministério Público para que estes não se virassem contra o senador. O discurso de auxiliares de Temer ao longo do dia era que Silveira só havia dado sua opinião como advogado quando ainda não tinha relação alguma com o governo.
 
— Não pode ser uma decisão unilateral. Tem que conversar com Renan — disse um auxiliar de Temer, antes da conclusão do processo que terminou com o pedido de demissão de Silveira.
 
Há uma semana, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) deixou o Planejamento após gravações, também feitas por Sérgio Machado, revelarem uma operação política para “estancar a sangria” provocada pela Lava-Jato.
 
Com a intensificação dos protestos contra a permanência de Silveira no cargo, foi crescendo no governo, e para Renan, a sensação de que a situação era insustentável. Servidores da pasta comandada por Silveira protestaram no prédio do ministério e foram até a frente do Planalto. De forma organizada, também aceleraram a entrega dos cargos comissionados e de chefia. Segundo os organizadores do protesto, mais de 250 funcionários já haviam se desvinculado das funções de confiança, na tarde de ontem, como forma de pressão para a saída imediata de Silveira.
 
A Transparência Internacional divulgou nota “exortando” o governo a investigar “exaustivamente” as alegações sobre Silveira e anunciando que iria “suspender o diálogo com o ministério até que uma apuração plena seja realizada e um novo ministro com experiência adequada na luta contra a corrupção seja nomeado.”
 
Com o recrudescimento das pressões pela demissão de Silveira, Renan conversou com Temer e, pouco depois, divulgou nota afirmando que não iria “indicar, sugerir, endossar, recomendar e nem mesmo opinar sobre a escolha de autoridades” no governo. Sem o aval do presidente do Senado para permanecer na pasta, Silveira entregou o cargo no início da noite. Seu substituto será Carlos Higino, secretário-executivo do ministério.
 
Em carta, Silveira ressaltou que as gravações que o levaram a pedir demissão mostram “simples opinião” e são “comentários genéricos”, negando que tenha interferido em favor de terceiros acerca de investigações. Silveira disse também que foi “involuntariamente envolvido” no caso, e, por isso, achou melhor deixar a pasta.
 
Aliados de Temer admitiram, reservadamente, que a manutenção de Silveira no cargo provocava um desgaste, mas justificavam que existia um receio de retaliação por parte de Renan, pelo histórico do presidente do Senado. No ano passado, quando a então presidente Dilma Rousseff decidiu demitir Vinícius Lages, apadrinhado de Renan, do Ministério do Turismo, o senador respondeu à petista devolvendo uma medida provisória que acabava com desonerações a empresas, algo raro no Congresso.
 
Havia entre integrantes do governo a expectativa de que Silveira optaria pela demissão por não suportar a pressão pública. A inação do governo fez com que Silveira permanecesse durante todo o dia sem se definir. Segundo relatos, o ministro se mostrou abalado na conversa com Temer, na noite de domingo, quando assistiram juntos às gravações divulgadas pelo “Fantástico”. Na ocasião, Temer afirmou a Silveira, de acordo com seus auxiliares, que sua permanência dependeria apenas dele mesmo.
 
— Não vejo nada de grave no que você disse, mas você tem que avaliar se sentir que está com desgaste pessoal e familiar muito grande — teria dito o presidente interino a Silveira.
 
Fontes ligadas a Temer avaliaram que era ruim a simbologia de manter Silveira numa pasta de combate à corrupção, mas disseram que o presidente interino não pode sair demitindo ministros para não criar precedentes.
 
— Se o governo for demitir todo mundo que falou algo mal recebido, não vai sobrar ninguém — afirmou um auxiliar.
 
Após denúncias alvejarem o segundo ministro de Temer, a preocupação no Planalto é que novas revelações atinjam outros integrantes do primeiro escalão. Com isso, o temor passou a ser, inclusive, a possibilidade de reversão do julgamento do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff.
 
 

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