Maria Clara R. M. do Prado: O PIB, a inflação e os juros

19/01/2016 09:37

Brasil vive uma "ressaca induzida" provocada pela displicência com que o governo encarou o fim de festa a partir de 2011

- Valor Econômico

 

Qualquer outro país que apresentasse dois anos consecutivos de queda do PIB, com níveis de retração estimada nada triviais, seguidos de um período de estagnação (em 2014, o produto brasileiro arrematou mísero 0,1% positivo), tenderia a contabilizar inflação em queda e, eventualmente, até deflação. No Brasil deste início de 2016, no entanto, prevalece uma conjugação atípica onde os preços sobem em situação de significativo decréscimo da atividade econômica.

 

Vale notar que desde o início do século XX, apenas em uma outra ocasião o PIB brasileiro teve recuo em dois anos seguidos: em 1930, com menos 2,1%, e em 1931, com menos 3,3%, de acordo com um antigo trabalho de Claudio Haddad - "Crescimento do PIB real no Brasil - 1900 a 1947" - que buscou calcular a evolução do produto na primeira metade do século passado, a partir do levantamento e análise de outros indicadores econômicos disponíveis. Até hoje, os dados de Haddad são usados como referência para a evolução do PIB antes de 1947, a partir de quando começa a série oficial do IBGE.

 

As explicações para a atipicidade de alta inflação com PIB retraído são várias e conhecidas. A recomposição das tarifas represadas em anos anteriores, como o preço da energia elétrica; a forte estrutura de indexação que teima em subsistir no setor de serviços, o efeito da desvalorização do real e o aumento ocorrido nos preços dos alimentos por motivos variados são as mais citadas, além do clima de incerteza política que contribui para afetar negativamente as expectativas e a impactar os preços.

 

"Não há dúvida de que a fatia dos serviços com preços indexados (chamados também de preços administrados) tem peso substancial na inflação e funciona como uma verdadeira jabuticaba na formação dos índices brasileiros", avalia o economista especializado em preços, Decano do Centro de Ciências Sociais da PUC-Rio, Luiz Roberto Cunha, lembrando que no IPCA, por exemplo, a participação dos produtos com preços livres é relativamente pequena quando se compara com os serviços indexados.

 

O fato é que a taxa do IPCA evoluiu de 6,41% em 2014 para 10,67% em 2015, e ninguém espera que se aproxime da meta de 4,5% este ano. Ao contrário, as estimativas apontam para uma evolução acima de 6,5%. Para Cunha, o IPCA de 2016 tende a ficar entre 7% e 8%.

 

Pode-se dizer que o Brasil vive hoje uma espécie de "ressaca induzida" provocada pela displicência com que o governo encarou o período de fim de festa a partir de 2011, quando os preços das commodities começaram a desabar no mercado internacional e os termos de troca deixaram de ser favoráveis ao país. Ao invés de se prevenir para os tempos mais sombrios que se vislumbravam à frente, o governo adotou políticas expansionistas - políticas de indução ao aumento do crédito, drástica redução das taxas de juros e crescimento dos gasto público - todas elas financiadas com os largos superávits das contas externas que além dos preços das commodities também sentiam os efeitos benéficos do humor externo altamente favorável ao Brasil.

 

Como a dinheirama que ingressou nos tempos das vacas gordas não foi usada para sedimentar uma estrutura que revertesse em frutos definitivos para o país no médio e longo prazos, resulta daí que não sobrou pedra sobre pedra. Não há mais dólares baratos para financiar as despesas públicas e os gastos que se acumularam (sem falar na corrupção) estão à espera de decisões políticas vigorosas, para que possam encolher e ajustarem-se à nova realidade. Uma espera que tende a ser prolongada.

 

Ao governo resta administrar o dia a dia, no que é emergencial. Tentar evitar a expansão do zika vírus, amenizar o impacto da falta de leitos nos hospitais, gerenciar a dívida pública e convencer o Congresso de que a CPMF é a salvação da lavoura.

 

Entre as providências de curto prazo, a mais aguardada é o resultado da reunião do Copom que começa hoje e se estende até amanhã. Também aqui, pode-se perceber o impacto negativo das políticas erradas adotadas pelo governo nos últimos três anos. Do ponto de vista da política monetária, o Banco Central não tem mais bala na agulha, pois pouco pode fazer para induzir a queda de uma inflação que teima em se manter elevada a despeito da grave retração da economia, já com significativos efeitos no aumento do desemprego. Um taxa Selic mais elevada só contribuiria agora para ampliar o custo da dívida pública.

 

No entanto, como este é um país complexo e atípico, passando por uma conjuntura de muita insegurança política, outros fatores, de ordem não monetária, devem ser considerados na reunião de hoje do Copom. Por exemplo, a questão da credibilidade do BC vis a vis as recentes manifestações do PT com relação aos juros. Por exemplo, a solvência do setor financeiro, em especial dos bancos de porte médio.

 

Se prevalecer a primeira consideração, é possível que o Copom aprove um aumento na taxa Selic para dar um sinal de autonomia ao mercado. Se prevalecer a segunda consideração, o temor de aumento no custo da rolagem das empresas endividadas junto aos bancos poderá levar o Copom a manter a taxa inalterada em 14,25% ao ano. Pesaria aqui, o risco de insolvências no setor financeiro.

 

Sem dúvida, esta será uma das reuniões mais difíceis do Copom, justo quando a falta de confiança começa a bater na porta do BC.


 


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