Medo de rejeição de eleitor provocou guinada tucana

14/11/2015 10:22

Daniela Lima – Folha de S. Paulo

 

BRASÍLIA - A guinada promovida pela cúpula do PSDB em seu discurso diante da crise econômica nesta semana é reflexo de pesquisas internas e projeções do mercado financeiro, que apontaram um desgaste acentuado na imagem do partido e a insatisfação de eleitores fieis com a forma como combateu o governo Dilma Rousseff nos últimos meses.

 

Integrantes da legenda ouvidos nos últimos dias, quando os tucanosacenaram ao Palácio do Planalto com o apoio a medidas de ajuste fiscal em discussão no Congresso, avaliam que os eleitores se cansaram do debate sobre o impeachment de Dilma e esperam do partido soluções para os problemas do país.

 

As projeções mostram um desgaste generalizado da classe política e evidenciam que os tucanos não tiveram benefício com a perda de popularidade do governo. "A crise é pior para Dilma e o PT, mas é ruim para todos nós", disse um deputado da sigla.

 

Os tucanos também têm ouvido críticas de representantes do setor produtivo, que se dizem incomodados com atitudes que julgam sectárias e incoerentes em alas do PSDB.

 

O grupo mais moderado do partido, até então minoritário, comemorou a mudança de tom. Nomes como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o senador José Serra (SP), defendiam publicamente há meses uma postura mais equilibrada do partido.

 

"Acho bom que o PSDB deixe claro que a política do quanto pior melhor não corresponde à nossa formação e à nossa tradição, a despeito de votações anteriores, como na questão do fator previdenciário", afirmou Serra.

 

A mudança criou desconforto entre os tucanos e outros partidos que fazem oposição a Dilma, como o PPS e o DEM.

 

Líderes das duas siglas dizem que foram pegos de surpresa e informados pela imprensa de que o PSDB havia decidido fazer um acordo para aprovar a DRU(Desvinculação de Receitas da União), mecanismo que dá ao governo mais flexibilidade para manejar o Orçamento, que foi instituída na gestão de FHC.

 

"O DEM vai ser mais duro nesse debate", disse o líder do partido na Câmara, Mendonça Filho (PE). " O PT vai ter que pedir desculpas ao Brasil. Eles entraram com uma ação contra a DRU no Supremo, quando ela foi criada."

 

Coerência

Para o PSDB, ser a favor da renovação do mecanismo é uma questão de "coerência". "Num ano em que o rombo nas contas do governo chega a 10% do PIB (Produto Interno Bruto), estrangular o Orçamento é suicídio", disse o deputado Marcus Pestana (MG).

 

Em maio, a bancada do PSDB votou contra o fator previdenciário, mecanismo criado durante o governo FHC para conter a expansão dos gastos com aposentadorias, uma atitude criticada pelo próprio Fernando Henrique na época.

 

O senador Aécio Neves (MG), que disputou com Dilma a eleição presidencial do ano passado, assumiu o papel de principal porta-voz da mudança de tom do partido.

 

Ele diz que os tucanos farão um diagnóstico da crise e apresentarão propostas para a superação das dificuldades, mas que continua vendo Dilma como incapaz de dar fim à deterioração da situação. 

 

"Vamos deixar claro que há uma diferenciação entre o que é questão do governo e o que é questão do país", afirmou.

 

O PSDB quer evitar que o PMDB ganhe espaço defendendo bandeiras historicamente associadas aos tucanos, como a redução de cargos, a revisão de normas para a aposentadoria e a privatização de ativos do governo.

 

Essas teses foram estampadas num documento apresentada pelo centro de estudos do PMDB, comandado por aliados do vice-presidente Michel Temer. O manifesto foi lido pelos tucanos como um aceno ao empresariado, ainda que avaliem que parlamentares daquele partido dificilmente abraçariam uma agenda com viés liberal.

 

Para se contrapor, Aécio quer investir em propostas com foco na questão social.