Merval Pereira: No mundo da(o) Lu(l)a

20/11/2015 18:45

- O Globo

O ex-presidente Lula vive em um mundo particular, só dele, mas creio que hoje são poucas as pessoas que acreditam em tudo o que diz. Na entrevista a Roberto D’Avila na quarta-feira, em resumo disse que, no tempo em que a economia crescia no Brasil, o mérito era de seu governo, não da conjuntura internacional, que nunca, em tempo algum, foi tão favorável. Quando a crise econômica chega agora, aí, sim, a conjuntura internacional desfavorável é a culpada.

 

Lula deu versões sobre fatos políticos que contrariam todas as informações que pessoas que estiveram com ele nos últimos dias divulgaram. Ou há uma conspiração entre os seus para desmoralizá-lo, ou Lula faz uma coisa nos bastidores e conta outra na frente das câmeras, o que é mais provável.

 

Roberto D’Avila passou no teste ao enfrentar Lula sem ser grosseiro ou agressivo, e mesmo assim colocou o ex-presidente em situações embaraçosas diante dos fatos. A resposta do ex-presidente sobre as investigações da atuação de um filho no esquema de compra de medidas provisórias foi exemplar: “Meu filho vai ter que provar que agiu direito. Senão, está sujeito à mesma Constituição que todos nós”.

 

Resta saber se corresponde à sua atuação nos bastidores. Segundo íntimos de Lula, ele está furioso com o ministro Cardozo por não controlar a PF, e com Levy por não controlar a Receita. Tanto é verdade que recentemente Cardozo teve encontro com Lula para acertar os ponteiros e anunciou que estava tudo resolvido.

 

A mesma dissonância entre o que diz e o que faz fica ressaltada quando nega que tenha pressionado para a troca de Joaquim Levy por Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda. Se nunca pressionou, por que Dilma se deu ao trabalho de responder publicamente a ele, dizendo que, embora respeite seu mentor, discorda dele e manterá Levy na Fazenda? Bastaria que viesse a público dizer que Lula nunca lhe pediu para tirar Levy.

 

O dinheiro do Tesouro deve ser usado urgentemente para aquecer as atividades econômicas, disse Lula. O truque já foi feito, e deu no que deu. E as reservas cambiais, que somam 380 bilhões de dólares, sugerem alguns “aloprados”. Mesmo que quisesse, não poderia, porque elas não pertencem ao governo e foram geradas pelo setor privado. Não é como nos países árabes, donos do petróleo exportado.

 

Assim como no mensalão, Lula diz que levou um susto com o petrolão. Foi lembrado pelo entrevistador de que tesoureiros do PT estão presos, dirigentes do PT estão denunciados. Para Lula, a roubalheira na Petrobras existe há mais de 30 anos, com todos os diretores de carreira envolvidos, sem lembrar que foi seu governo que nomeou os diretores envolvidos, a pedido de partidos da base.

 

Cada diretor cuidava dos interesses de uma sigla, o que nunca antes na História da Petrobras ocorrera. A roubalheira, sim, pode ter mais de 30 anos, mas o assalto organizado à Petrobras para financiar um projeto de poder, só o PT fez.

 

Para confundir as coisas, Lula argumentou que outros partidos receberam dinheiro das empreiteiras, e tentou defender a tese de que o dinheiro saía do mesmo cofre, não havendo “cofre limpinho” para o PSDB e “cofre sujo” para o PT. O problema para Lula e o PT são as delações que denunciam que o PT recebeu dinheiro legal, como os demais partidos, mas levou também dinheiro desviado da Petrobras e “lavado” como doação de campanha. Além de propina por meio de offshores, consultorias falsas e pagamentos em espécie.

 

Lula sabe exatamente o que um ex-presidente deveria fazer, e diz que é o que está fazendo. Só que os fatos o desmentem. Diz que não se mete no governo de Dilma, assim como o ex-marido não pode se meter no novo casamento da ex-mulher. A metáfora é popular, mas não tem nada a ver com o caso atual, pois Lula, além de frequentar o Alvorada com assiduidade, reúne-se com ministro de Dilma para dar as orientações.

 

E o PT tem soltado notas e comunicados contra a política econômica, e todos sabemos, especialmente Dilma, que isso não ocorreria sem o aval de Lula.

 

Por fim, Lula garantiu que, desde que era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, na passagem pela Presidência e até hoje, nunca ninguém lhe ofereceu “nem uma pera”. Mas é fato sabido, e nunca desmentido, que Lula morou por anos numa casa de seu amigo Roberto Teixeira. E hoje um filho de Lula mora num apartamento de empresa ligada ao mesmo Teixeira.