Ministro teria mão de ferro na Fazenda

11/11/2015 11:12

Por Angela Bittencourt - Valor Econômico

 

SÃO PAULO - A nomeação de Henrique Meirelles para a Fazenda renovaria esperanças em um primeiro momento. Mas é necessário considerar que no governo Lula ele nunca foi unanimidade na condução do Banco Central. Meirelles teria mão de ferro na Fazenda e o BC de Alexandre Tombini provavelmente perderia o status de ministério.

 

Na articulação de Lula, troca está entre a aposta e a fiança

O Brasil pode estar no limiar de mudanças mais profundas do que mercado financeiro supõe -e os políticos também - caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não desista do seu intento e continue trabalhando para, na virada do ano, substituir Joaquim Levy no Ministério da Fazenda e colocar a economia na trilha do crescimento, reservando o posto para Henrique Meirelles, conforme apuração das jornalistas Rosângela Bittar e Andrea Jubé, do Valor, em Brasília. Está convencido o ex-presidente que com a política girando em torno do ajuste, o Brasil não sai da crise, e se não sair, Dilma e o PT estarão banidos da política em 2018.


Um "aceito" do ex-presidente do Banco Central para Lula, se convidado a comandar a Fazenda -algo que hoje parece improvável, tamanha a barafunda jurídica que envolve o governo ou personagens de destaque no governo - não deve ser descartado. A considerar a disposição de Lula de lutar pelo projeto do PT e pelo terceiro mandato e o desgaste da presidente Dilma, agora ampliado pelo movimento dos caminhoneiros que já obstruem estradas e ocupam mais de uma dezena de estradas brasileiras e pela greve dos petroleiros que atinge a produção.

 

Ontem, a informação distribuída pelo Valor PRO sobre a possibilidade de o ex-presidente insistir na substituição de Levy despertou no mercado financeiro a curiosidade a respeito de quem poderia ser o seu sucessor. Imperou discretamente a cifrada pergunta: "Nelson Barbosa ou Henrique Meirelles?" E as reações ao ministro do Planejamento não foram positivas. Barbosa na Fazenda seria a não mudança, comentou um interlocutor do Casa das Caldeiras, blog do Valor PRO.

 

O "aceito" de Meirelles renovaria esperanças ao menos em um primeiro momento. Mas é necessário considerar que o ex-presidente do BC não conduziu a instituição sob consenso com outras áreas do governo durante o primeiro e o segundo mandato do ex-presidente Lula.

 

Meirelles teria mão de ferro na Fazenda se assumisse o seu comando em janeiro próximo ou em janeiro de 2019, caso Lula concorra e vença a próxima eleição presidencial e ainda tenha Meirelles como favorito. Com mão de ferro, o ex-presidente do BC orientaria as importantes secretarias de Estado que estão sob os cuidados do Ministério -Receita Federal e Tesouro Nacional são duas delas.

 

Com Meirelles na Fazenda, o BC de Alexandre Tombini muito possivelmente perderia, sim, o status de Ministério, o que não aconteceu por um triz quando a presidente Dilma promoveu a sua reforma ministerial para melhor acomodar os partidos aliados.

 

Henrique Meirelles, conhecedor profundo de questões bancárias e diligente gestor na crise financeira de 2008/2009, dificilmente guardaria distância do Banco Central. Some-se a isso, o fato de ter trabalhado durante anos com todos os integrantes da diretoria comandada por Tombini desde janeiro de 2011 (por sua indicação) à exceção do diretor de Assuntos Internacionais, Tony Volpon, que é um membro egresso da iniciativa privada e não de carreira pública.

 

Tombini, que durante os dois mandatos de Meirelles à frente do BC ocupou mais de uma diretoria, aceitaria condições de trabalho menos autônomas que as obtidas nos últimos quatro anos - período em que ele preside o banco? A ver.

 

Meirelles, quando aceitou o convite de Lula para assumir o BC em 2003 onde ficou por oito anos, não hesitou em aumentar a taxa básica de juro na chegada; em levar ao pé da letra o Decreto 3.088, de junho de 1999, que formalizou o regime de metas para a inflação como diretriz de política monetária, implantado por um ícone do mercado, o economista Arminio Fraga; e não deixou de promover um calculado rodízio de ao menos 24 diretores no BC, de forma que as substituições não levassem o mercado a um ataque contra ele.

 

Meirelles usou de tanta habilidade nas substituições de profissionais tão competentes que abortou ruídos e, por consequência, qualquer suspeita de que a autoridade da instituição respirava fora do seu gabinete. O ex-titular do BC sempre tentou ter a última palavra, quase sempre teve e sempre, para qualquer decisão, teve carta branca do presidente da República.

 

Lula acerta quando aposta que se existe alguém que pode ajudá-lo, na economia, a conquistar o terceiro mandato, esse alguém é Meirelles. Mas Meirelles não joga para perder.

 

Embora tenha sido uma derrota o saldo, em 2010, de oito anos dedicados ao combate da inflação na gestão do BC, que assegurou ao Partido dos Trabalhadores (PT) o terceiro mandato na presidência da República, representado por Dilma Rousseff. Meirelles não seguiu a carreira política e deixou o setor público.

 

Se sentimento de derrota houve, embora não demonstrado, ele está cinco anos distante de Meirelles e de Lula. E também de Dilma, que nunca foi a melhor amiga de Meirelles e vice-versa, mas publicamente sempre dispensaram tratamento cordial um ao outro.

 

O saldo desses últimos cinco anos, coalhados de momentos em que Dilma não pareceu próxima sequer de Lula e vice-versa, explicava a reação de experientes profissionais que, ontem mesmo, duvidavam da possibilidade de Lula convidar Meirelles para substituir Levy. "De um lado, seria um atestado de encerramento da gestão Dilma Rousseff. Lula seria o presidente de fato", comentou uma fonte da área bancária que confessa ter dúvida de que Lula terá condições de se candidatar em 2018. De outro, quais as garantias que Lula poderá, hoje, dar a Meirelles?"

 

O momento é outro. Por mais credibilidade e liberdade de ação que tenha o ex-presidente do BC, a gravidade do quadro fiscal torna o Executivo refém do Congresso Nacional. Teria Meirelles toda a experiência necessária para render a um voto por reformas -a um voto patriótico - o parlamento, segmentado hoje entre novos políticos que ele mesmo desconhece e outros que tentam se apartar das denúncias de corrupção?

 

Meirelles é craque em questões bancárias. Um exemplar gestor de pessoas. Despertou admiração em fóruns internacionais por saber adaptar distorções brasileiras à crise internacional,caso dos compulsórios bancários, que serviram como amortecedores únicos para os efeitos inesperados de tão arrasador acontecimento.

 

O ex-presidente do BC não é de modismos. Deve estar ouvindo falar que tudo (ou quase) no mundo econômico talvez tenha explicação, neste exato momento, pela 'dominância fiscal', mas talvez Meirelles não esteja ligado. Experiente e nada míope em ondas de mercado, ele parece saber, ou desconfiar no mínimo, que o mal que debilita o Brasil neste final de 1º ano do 2º mandato de Dilma Rousseff é uma endêmica 'dominância política'. O remédio para isso chama-se 'vontade popular'. O brasileiro esqueceu que tem disponível em qualquer esquina.


 


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