Míriam Leitão: Diferenças latinas

28/01/2016 11:50

- O Globo

Vários países da América Latina enfrentam o fim do ciclo das commodities, mas reagem diferentemente. Brasil e Argentina estão em recessão. A Venezuela nem se diga. Peru, Chile e Colômbia reduziram o crescimento, mas continuaram com o PIB positivo. O que diferencia é a política econômica, segundo José Roberto Mendonça de Barros. “Estão em crise os que adotaram o populismo.”

 

O economista da MB Associados fala principalmente do caso do Peru, que manteve a mesma política econômica, apesar de passar por três presidentes com perfis diferentes:

 

O Peru manteve a economia aberta, integrada ao mundo, bom ambiente de negócios, política fiscal mais ajustada, apesar de ter passado pelos presidentes Alejandro Toledo, um técnico, Alan Garcia, um ex- populista, e Ollanta Humala, que entrou também com discurso também populista.

 

Os outros países que tiveram políticas mais responsáveis enfrentam uma desaceleração, reduzem o ritmo, mas o Brasil despencou em uma recessão com inflação alta. É o mesmo caso da Argentina. A Venezuela errou muito mais e está em situação muito mais dramática.

 

Em Davos, houve um painel com ministros da Fazenda e presidentes do Banco Central de países latinoamericanos. E o mediador, o economista venezuelano Ricardo Haussman, professor na Harvard's Kennedy School e amigo de vários dos economistas da mesa, fez um relatório sobre a sua visão dessas diferenças. No painel, estava o ministro Nelson Barbosa, o presidente do BC Argentino, Federico Sturzenegger. Chile, Colômbia e Peru estavam com ministros da Fazenda: Rodrigo Valdés, Mauricio Cárdenas e Alonso Segura.

 

O Chile foi duramente atingido pela queda de 55% no preço do cobre, seu principal produto de exportação. Mas havia criado um fundo de contingência onde depositou, nos anos de boom, parte da receita extra auferida com o cobre. Mesmo assim, teve que fazer ajuste fiscal, mas manteve o crescimento. O Peru também é grande exportador de cobre. O Brasil foi atingido pela queda do minério de ferro, que está a um quinto do preço do pico em 2011. Colômbia e Venezuela foram afetados pelo petróleo. “O interessante é que Chile, Colômbia e Peru estão mantendo o crescimento entre 2% a3%, não tanto quanto cresciam antes, mas é uma notável performance dado a magnitude do choque”, diz ele, em texto publicado em sua página na internet.

 

Hausmann diz que eles conseguiram isso porque todos foram “prudentes” em manejar o boom, se preocupando em reduzir a dívida/ PIB, melhorando as avaliações de risco. “O Peru foi muito mais resiliente do que eu esperava. Isso foi possível porque o país usou estímulos fiscais para reduzir o impacto, enquanto mantinha os déficits fiscal e externo em níveis modestos”. A Colômbia fez um ajuste fiscal mais forte, mas enfrenta problemas, entre outra razões, porque seus dois vizinhos estão “implodindo”, segundo o economista, se referindo à Venezuela e ao Equador. O país está mantendo o crescimento com forte estímulo a obras de infraestrutura, o que pode fazer pelo ajuste anterior ao choque, porque este ano não terá receita vinda do petróleo.

 

Haussman definiu o Brasil como “muito vulnerável” porque desperdiçou o período de boom. Mendonça de Barros tem o mesmo diagnóstico:

 

Em 2008, tinha mesmo que dar estímulos à economia, mas depois a política descambou para o populismo eleitoral em 2010 e lá ficou.

 

Exportadores de commodities têm que estar preparados para os períodos das quedas. Eles sempre chegam. O erro, cometido antes, cobra agora a sua conta.