Míriam Leitão: Eventos fortes

31/12/2015 10:33

- O Globo

Apesar de tudo, não foi um ano perdido. O que foi o ano de 2015 você já sabe mas custa dizer. As piores previsões foram superadas, os erros, sobre os quais tantos alertaram, cobraram a conta, o governo Dilma continuou atrapalhado. Contudo, a Polícia Federal, o Ministério Público, o TCU, o juiz Sérgio Moro nos deram provas de que a democracia se fortalece. Em Paris, o mundo reunido teve um minuto de sensatez e fechou o acordo do Clima.

 

Foi um ano pesado. Houve fatos que nos deram a sensação de que o destino exagerava. O país falava em lama metafórica, quando a lama real foi despejada pela mineradora Samarco sobre o Rio Doce. Morreram pessoas, o meio ambiente foi violentado, e ainda tivemos que saber das falhas da segurança da empresa, da falta de fiscalização do governo, das tentativas da Vale de provar que o problema não era dela, e das autoridades regulatórias que diziam que a lama era inofensiva. Agora, a Agência Nacional de Águas (ANA) nos diz, em laudo, o que sabíamos: que as perdas são incalculáveis, que as sequelas ficarão por anos e que o “Rio Doce, em seus 650 quilômetros atingidos pela lama, foi ferido de morte”.

 

A dor das famílias que tiveram filhos com microcefalia por causa do vírus transmitido pelo mosquito da dengue é o pior de um ano difícil. Também não é fruto da má sorte, é resultado do descuido em relação ao mosquito que o país viu proliferar, numa saúde cada vez mais em colapso.

 

Na economia, os mais pessimistas não previam um ano assim, com inflação perto de 11%, recessão em 3,6% e um déficit de R$ 120 bilhões. As perspectivas foram piorando com o passar dos meses. O que tornou este ano difícil poderia ter sido evitado se o rumo tivesse sido corrigido. Até o ministro chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, admitiu que o rombo de 2015 havia sido feito nos dois anos anteriores. A conta, no final, paga ontem pelo Tesouro, último dia útil do ano, foi gigante. Somando-se o que foi pago, as pedaladas e as correções, o resultado é de R$ 72,4 bilhões.

 

Outros erros do governo caíram diretamente no nosso bolso. O preço da energia deu um salto para compensar o período em que foi reduzido por demagogia. Para esconder o problema em 2014, ano eleitoral, o governo determinou que as empresas pegassem empréstimos bancários para cobrir seu déficit, e a Aneel aceitou que a dívida e os juros fossem cobrados na conta de luz.

 

Foi mais um ano de ouvir as mentiras oficiais. A recessão econômica é culpa da crise internacional; a inflação foi provocada por fatores climáticos; as pedaladas foram feitas para pagar programas sociais. Foram muitas, fiquemos por aqui.

 

Mas este também foi o ano em que o Tribunal de Contas da União (TCU) fez um relatório comprovando que o governo fizera truques para esconder a real situação fiscal e manobras para contornar os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal. Foi popularizada na palavra “pedalada” a informação de que o governo não pode postergar pagamentos, nem pegar empréstimos em bancos públicos. O TCU prestou um inestimável serviço ao recomendar a rejeição das contas de 2014 da presidente Dilma.

 

De Curitiba vieram as melhores notícias da saúde da nossa democracia. Os investigadores e os procuradores trabalharam intensamente; o juiz Sérgio Moro não se intimidou com a dimensão da tarefa. Foram para a prisão alguns dos mais importantes empresários brasileiros. A economia brasileira não será mais a mesma depois de 2015, por mais que o governo tente esquentar o forno de pizza, com a MP dos acordos de leniência. Em Brasília, a Procuradoria da República e o Supremo trabalharam na mesma linha, o que levou à prisão até do líder do governo no Senado.


Em Paris foi conseguido o que pareceu impossível tantas vezes. Há duas décadas o mundo tentava, sem sucesso, um acordo para deter o aquecimento global. Em 2015, numa Paris ferida pelo terrorismo, os representantes de quase 200 países fecharam o acordo que vai guiar o mundo nos próximos anos.

 

Os eventos de 2015 foram fortes, para o bem ou para o mal. Há danos irreparáveis e há o que será possível superar. Há fatos perturbadores e há esperança. Apesar das dores, este não é um ano perdido. Para o Brasil, a Lava-Jato pode ser, se aproveitarmos a oportunidade, a semente do recomeço. Feliz ano-novo.