Míriam Leitão: Promessa adiada

24/12/2015 13:36

- O Globo

Inflação na meta é o objetivo que o governo não consegue cumprir há cinco anos. O Banco Central previa há um ano que a inflação chegaria ao fim de 2015 em 6,1% e que em 2016 estaria no centro da meta. Ele errou, como tem ocorrido sistematicamente desde o começo do governo Dilma. Ontem, o BC avisou que o ano termina com a taxa em 10,8%. A promessa de chegar ao centro da meta foi renovada, mas o prazo foi adiado. Agora, só em 2017.

 

Eu sei, leitor, que hoje é dia de Natal e este espaço deveria trazer alguma boa notícia que aliviasse o peso de um ano difícil. Mas, ossos do ofício, o Banco Central divulgou ontem suas projeções e resultados. Foi impossível ignorar o quanto a autoridade monetária está longe, em suas previsões, dos números que vão se confirmando.

 

O que faz o BC errar 4,7 pontos percentuais quando projeta a inflação 12 meses à frente? É que a instituição não viu todos os riscos que já estavam evidentes na economia brasileira. Estava claro que o governo havia manipulado os indicadores fiscais, e que o país estava num aumento acelerado do gasto público. E não precisa ser dirigente do Banco Central para saber que descontrole fiscal leva a inflação. Foi preciso também que o BC não soubesse que as tarifas de energia haviam sido reprimidas a ponto de colocar em risco as empresas do setor. Tampouco é preciso ser dirigente do Banco Central para saber que isso era insustentável.

 

No relatório de inflação, o BC prevê que no ano que vem a taxa vai terminar em 6,2%. Mas o mercado já vê o IPCA terminando 2016 acima de 6,5%. Seria o segundo ano seguido de rompimento do teto da meta. Mesmo com a recessão, a alta nos preços se alastra pela economia. No relatório Focus, a mediana das projeções para a inflação de 2016 está em 6,87%.


No levantamento mais recente do IBGE, o IPCA-15, um dado assusta. Em um mês até meados de dezembro, 78,6% dos produtos analisados registraram alta. É o maior índice de difusão desde o começo de 2003, destaca o professor Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio.

A alta dos preços se alastrou pela economia e está gerando preocupações. O país ainda carrega muitos mecanismos de indexação, herança do período de hiperinflação. Contratos de aluguel, por exemplo, tradicionalmente são corrigidos pelo IGP-M.

 

A indexação na economia ainda é muito grande. A principal é a do salário mínimo, a mais forte, flagrante. Por causa da indexação a gente pode passar por essa situação, de retração forte demais por dois anos com inflação alta —, disse.

 

Em 2016, a energia elétrica vai subir bem menos. Isso vai dar um alívio ao IPCA. Mas o professor Luiz Roberto Cunha projeta uma inflação ainda alta no ano que vem, entre 7,5% e 8%.

 

A alta dos preços este ano perturbou os brasileiros. O índice voltou aos dois dígitos, o que não acontecia desde o começo do governo Lula. Aliás, a partir do Plano Real só houve taxa de dois dígitos quando aconteceu algo extraordinário, com um salto do dólar provocado pela insegurança da sucessão presidencial, em 2002 e 2003. Agora, o que torna o índice ainda mais pesado é que ele acontece no meio da pior recessão em 25 anos.

 

O mistério que intriga muita gente é como se conseguiu juntar essa dupla: inflação de dois dígitos e recessão de quase 4%. Só errando muito é possível esse resultado, porque normalmente a recessão acaba trazendo a taxa para baixo. Desta vez, os preços administrados que tiveram que ser corrigidos — de energia elétrica e combustível — provocaram o salto no índice. Mas, como mostra o professor Luiz Roberto Cunha, o problema se espalhou pela economia.

 

A recessão e o reajuste menor dos preços administrados ajudarão o ano que vem a ter uma taxa menor do que a deste ano, mas ainda longe da meta e distante do número projetado pelo BC. Quando a autoridade monetária erra de forma tão evidente a projeção, é porque não agiu a tempo, nem na intensidade necessária.

 

Agora, o BC reprisa a promessa de que em dois anos chegará ao centro da meta. Essa foi a mesma projeção feita no primeiro relatório de inflação de 2011. E no ano seguinte o objetivo foi sendo adiado. Chegou a um ponto em que esses relatórios deixam de ter relevância, já que nunca se cumprem. Será bom o dia em que eu puder escrever neste espaço que, sim, a inflação está no centro da meta. Esperarei por este Natal.


 


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