Míriam Leitão: Velha inimiga

06/02/2016 11:26

- O Globo

A inflação surpreendeu por subir forte apesar de a recessão estar castigando. As projeções foram superadas, após terem sido revistas para cima nos últimos dias. O número mostra que a inflação está resistente, que os mecanismos de indexação estão produzindo seus efeitos, e que os governos, para combater as dificuldades de caixa, estão reajustando os preços que controlam.

 

Os economistas achavam inicialmente que o IPCA ficaria abaixo de 1% e que, em janeiro, começaria a reduzir a inflação acumulada em 12 meses, já que no ano passado o primeiro trimestre foi fortemente impactado pelo tarifaço de energia. Como em 2016 isso não se repetiria, a tendência era que no começo do ano começasse a redução da taxa acumulada. Nos últimos dias, as previsões ficaram entre 1% e 1,1%. Deu 1,27%, maior do que em janeiro de 2015, o pior janeiro desde 2003. E o acumulado subiu para 10,71%.

 

As explicações pontuais mostram alta maior do que o esperado para alimentos, grupo que sempre pressiona no começo do ano, e alta de transportes. Alguns analistas achavam que, como sempre acontece em ano eleitoral nos municípios, não haveria aumento forte de tarifa de transporte. Mas está havendo, sim, e o item transportes foi o segundo que mais subiu.

 

Quando a inflação está elevada, os aumentos pontuais podem explicar a taxa do mês, mas não o processo como um todo. Este ano, os cofres do governo federal, estados e municípios estão vazios, e a tendência será a de aumentar impostos, taxas e tarifas que fiquem sob o controle do setor público. Eles vão querer aumentar a arrecadação, que está caindo pela recessão. Isso vai alimentar mais a inflação.

 

O Ministério da Fazenda e o Banco Central não têm dado sinais convincentes de que é prioritário combater a inflação, o que pressiona as expectativas. Mais do que não elevar os juros na última reunião do Copom, o que provocou esse efeito foi a maneira com que o Banco Central conduziu o processo de recuo dos sinais de que elevaria a Selic. O argumento de que outros países também estão reduzindo os juros ou postergando elevações por causa do cenário internacional não se aplica ao Brasil. O mundo está num contexto de queda de inflação e medo da deflação, o que é o oposto do cenário brasileiro.

 

O erro maior contudo foi a aceitação de que a inflação ficasse muito alta nos últimos anos. A taxa ficou perto do teto e isso fez com que ela desse um salto quando houve o choque tarifário. Nessa elevação, ela ficou mais forte e agora está mantendo o patamar diante de novos choques, apesar da forte retração que a economia está vivendo desde o ano passado.

 

O governo não sabe como combater a inflação de dois dígitos e acredita que ela vai cair naturalmente este ano. A recessão pode sim ter esse efeito nos próximos meses, mas não é garantido. Por isso, é preciso mais do que ficar esperando a inflação cair.

 

A volta aos dois dígitos e essa resistência foram consequência dos erros do passado e da leniência com que o governo lidou com o problema. O IGP-DI também deu um salto. O índice da FGV registrou 1,53%, maior do que o teto das expectativas do mercado.

Parte da inflação deste ano está dada pela indexação dos preços e salários que ainda existe na economia. O salário mínimo subiu mais de 11% pela fórmula de dupla indexação criada pelo governo. Ele sobe de acordo com a inflação do ano anterior e o crescimento de dois anos antes. A avaliação no governo é que é melhor não mudar esse modelo agora, porque, como o país não está crescendo, essa dupla correção não seria o problema. Mas é o oposto: a hora de mudar é agora, quando a soma da inflação e do crescimento não produz aumento real.

 

Falta ao governo uma estratégia contra a inflação. Ele toma decisões pontuais que acabam elevando mais ainda a taxa. Em março, haverá um pequeno alívio, que os especialistas calculam em 0,15 ponto percentual, por causa do fim da bandeira vermelha. O que parece não estar claro para os governantes atuais é que a inflação é um inimigo desorganizador da economia e que ficou tempo demais no país. O Brasil passou 50 anos para ter de novo a taxa anual em um dígito. E é essa conquista que está sob ameaça.