O ajuste em nossas vidas - EDITORIAL CORREIO

29/06/2016 09:48
CORREIO BRAZILIENSE - 29/06
A divulgação ontem pelo Tesouro Nacional de um rombo nas contas do governo federal de R$ 15,5 bilhões em maio é mais do que ato de rotina. É mais uma oportunidade para que os brasileiros que ainda não se deram conta da importância da questão fiscal para suas vidas perceberem a gravidade da situação em que o país está metido. Simplificando, essa é a diferença entre o que o governo gastou e o que ele arrecadou em apenas um mês. Ou seja, o caixa não conseguiu cobrir a fatura. É o maior rombo registrado depois do Plano Real em um mês de maio. Quando isso acontece, o governo é obrigado - como ocorre com qualquer cidadão malcomportado - a tomar dinheiro emprestado.
 
E se o governo estava devendo, o rombo engorda o endividamento público, razão da perda de credibilidade do Brasil no mercado financeiro internacional. Isso aumenta o preço a pagar pelo dinheiro que o país capta nos mercados para cobrir as despesas. Certos estavam os especialistas que não se iludiram com um vistoso superavit de R$ 9,7 bilhões obtido em abril pelo governo central. Foi o que nossos avós chamavam de fruta temporã, os economistas classificam de ponto fora da curva e o comum dos mortais pode muito bem reconhecer como um acidente (embora positivo), provocado por um caroço no calendário dos impostos.
 
No mais, é preciso entender que a profundidade do abismo a que a economia brasileira foi lançada exigirá muito de cada um dos cidadãos. Nessa situação, ninguém escapa, nem mesmo os que dispõem de capital e que costumam ganhar até nas crises. O rombo de maio em todo o setor público (a ser calculado pelo Banco Central) será conhecido hoje. Mas o dado de ontem do governo central é suficiente para não perdoar o governante que não levou a sério a tarefa de administrar com eficiência e responsabilidade as contas públicas nos últimos anos. No acumulado dos cinco primeiros meses do ano, o deficit primário já soma R$ 23,7 bilhões e reforça a previsão da atual equipe econômica de fechar o ano com rombo inédito de R$ 170,5 bilhões.
 
Com isso, 2016 será o terceiro ano seguido de pesados desequilíbrios fiscais, considerando apenas o deficit primário, ou seja, sem os juros da dívida, conta três vezes maior a ser paga. Em 2014, o rombo assumido foi de R$ 17,2 bilhões (entulho bem maior tinha sido empurrado para o ano seguinte). Em 2015, depois de várias correções e do pagamento de antigas pedaladas, o rombo somou R$ 114,9 bilhões.
 
Boas escolas de política econômica ensinam que o equilíbrio fiscal assegura a estabilidade dos principais preços da economia, permite o planejamento do investimento privado e irriga a confiança dos agentes econômicos de que não há surpresas ruins escondidas nos armários do governo. Se assim é, o desconforto da disparada dos preços, a recessão e a chaga social do desemprego estão muito bem explicados e seus autores, identificados. Justificam-se, então, medidas de austeridade e contenção de gastos públicos que alguns brasileiros em posição de influência ainda não entenderam. A crise exige esforço, e a democracia demanda paciência.
 
 

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