O Clima é um bem comum - Papa na ONU em Nairobi

27/11/2015 18:03

O Clima é um bem comum - Papa na ONU em Nairobi

O última actividade do Papa na tarde desta quinta-feira no Quénia, foi a visita à sede das Nações Unidas em Nairobi. O Papa foi acolhido pela Directora Geral, a senhora Saleh Work Zewede, e pelos responsáveis pelas questões do Ambiente e do Habitat, os dois aspectos de que se ocupa essencialmente essa sede da ONU.

Depois da assinatura do livro de ouro, o Papa foi levado num pequeno carro eléctrico para o parque, onde foi convidado a plantar uma árvore, gesto, cujo significado simbólico, serviu-lhe depois de ponta pé de saída no seu discurso, em espanhol, aos cerca de três mil delegados, diplomatas e pessoal da ONU, que o escutavam. Um discurso dirigido à África, ao mundo, em que o Papa abarcou, sempre na esperança duma melhoria, diversos temas: desde o ambiente, às injustiças sociais que provocam tanta violência no mundo, à urbanização descontrolada com todas as suas consequências, à Organização Mundial do Comércio.  

Plantar uma árvore – disse – é um convite a perseverar na luta contra a desflorestação e a desertificação, a proteger a biodiversidade de pulmões do planeta como a bacia fluvial do Congo; é uma incitação a continuar unidos e confiantes na capacidade humana de “inverter  todas as situações de injustiça e deterioração de que sofremos hoje”.

O tom estava, portanto, dado para abordar a questão ambiental, um dilema perante o qual se encontra a humanidade – disse o Papa: “melhorar ou destruir o meio ambiente”.

O clima é um bem comum, um bem de todos” e por isso as mudanças climáticas são um problema global que requerem o empenho responsável de todos para o seu melhoramento – insistiu Francisco, exprimindo apreço pelas iniciativas neste sentido. E considerou importante o encontro internacional que vai ter lugar nos próximos dias em Paris, o chamado COP21, sobre a questão das energias renováveis e não poluidoras. O Papa convidou a evitar a “tentação de cair num nominalismo declamatório com efeito tranquilizador sobre as consciências “ e a dar um sinal claro do “grande compromisso político e económico de reconsiderar e corrigir as falhas e distorções no modelo actual de desenvolvimento”

Por isso espero que a COP21 leve à conclusão dum acordo global e “transformador” baseado nos princípios de solidariedade, justiça, equidade e participação, e vise a consecução de três objectivos complexos e, ao mesmo tempo, interdependentes: a redução do impacto das alterações climáticas, a luta contra a pobreza e o respeito pela dignidade humana”.

Retomando várias vezes conceitos expressos na sua encíclica sobre o ambiente, Laudato Si, como a ideia de planeta como casa comum, pátria de toda a humanidade, o Papa disse que devemos aceitar humildemente a nossa interdependência, mas não como “sinónimo de imposição ou submissão de uns em função dos interesses de outros, do mais fraco em função do mais forte”

É necessário um diálogo sincero e franco, com a colaboração de todos”: políticos, cientistas, empresas, sociedade civil.

Confiante de que, não obstante os males do passado, o ser humano é capaz de ultrapassar-se a si mesmo e “voltar a escolher o bem, a regenerar-se”, e a “assumir com generosidade as suas graves responsabilidades”, o Papa disse que isto requer, que se coloque “a economia e a política ao serviço dos povos” e em harmonia com a natureza.

O caminho indicado pelo Papa para essa mudança de rumo, tão necessária é, ao lado das soluções políticas e económicas, a educação e a formação, por forma a promover novos estilos de vida e fazer com que crianças, jovens e adultos adoptem a cultura do cuidado (de si próprio, do outro, do meio ambiente). Nada da cultura do descarte que tem levado a sacrificar pessoas no altar no lucro e do consumo. É um desafio cultural, espiritual e educativo, o que o Papa propõe à humanidade e acredita “que estamos a tempo de o impulsionar”. Caso contrário será a “globalização da indiferença” ou, pior ainda, a resignação a diversas formas de tráfico, escravaturas, trabalho forçado, prostituição, tráfico de órgãos, fluxos migratórios… insistiu Francisco, mencionando os chamados migrantes económicos, que, “não sendo reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa”

São muitas vidas, muitas histórias, muitos sonhos que naufragam nos nossos dias. Não podemos ficar indiferentes perante isto. Não temos o direito”.

O Papa passou depois a falar do rápido processo de urbanização que leva ao crescimento desmedido e descontrolado das cidades e que se tornam pouco saudáveis, com preocupantes sintomas duma trágica ruptura dos vínculos de integração e comunhão social que leva à violência, ao narcotráfico, ao desenraizamento, ao anonimato social.

Bergoglio encorajou “quantos trabalham a nível local e internacional por garantir que o processo de urbanização se torne num instrumento eficaz para o desenvolvimento e a integração”. A este respeito referiu-se à próxima Conferência Mundial Habitat-III a ter lugar em Quito, no Equador em Outubro de 2016, esperando que seja um momento para identificar formas de responder a estas problemáticas.

Por fim referiu-se à X Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio que vai ter lugar daqui a poucos dias, precisamente em Nairobi. A este respeito Francisco disse que muito se tem trabalhado neste sector no sentido de fazer com que as relações comerciais entre os Estados contribuam para o desenvolvimento dos povos, mas que “ainda não se chegou a um sistema de comercio internacional equitativo e totalmente ao serviço da luta contra a pobreza e a exclusão.”

Espero que as decisões da próxima Conferência de Nairobi não sejam um mero equilíbrio de interesses contrapostos, mas um verdadeiro serviço ao cuidado da casa comum e ao desenvolvimento integral das pessoas, sobretudo das mais abandonadas”.

O Papa sugeriu uma adequação ordenada e não traumática das normas comerciais de modo que a interdependência e a integração das economias não se faça em prejuízo de sectores sociais importantes como a saúde, recordando que a eliminação de doenças como a malária e a tuberculoses, a cura das chamas doenças “órfãos” e sectores desfavorecidos da medicina tropical reclamam uma atenção política primária, acima de qualquer outro interesse comercial ou político.

O Papa concluiu chamando atenção para a beleza e a riqueza natural da África, que levam a louvar o Criador; um património da humanidade, que enfrenta, todavia, o constante risco de destruição devido ao egoísmo humano. E reiterando um desejo já expresso na ONU em Nova Iorque, também desta fez, o Papa manifestou a vontade de que as obras das Organização das Nações Unidas e as relações multilaterais sejam “penhor dum futuro seguro e feliz para gerações futuras”, pondo de lado interesses sectoriais e ideologias e procurando o interesse comum. E concluiu com estas palavras:

Asseguro uma vez mais o apoio da Comunidade Católica e o meu de continuar a rezar e colaborar para que os frutos da cooperação regional, que se expressam hoje na União Africana e nos múltiplos acordos africanos de comércio, cooperação e desenvolvimento, sejam vividos com vigor e tendo sempre em conta o bem comum dos filhos desta terra. A bênção do Altíssimo esteja com todos e cada um de vós e dos vossos povos. Obrigado”.