O declínio do gigante brasileiro

09/10/2015 20:32
O declínio do gigante brasileiro
 
 
A crise política junta-se à crise moral e econômica alimentando a desconfiança
 
 
Por *JULIO MARÍA SANGUINETTI
 
O que está acontecendo no Brasil, com um governo que mal consegue chegar aos 7% de aprovação e uma moeda que desvalorizou 35% neste ano e 55% nos últimos 12 meses? Onde e quando vai terminar essa investigação judicial [Operação Lava Jato] que já levou à prisão o ministro estrela de Lula, José Dirceu, o tesoureiro do partido no governo, os dirigentes das maiores empresas de construção (verdadeiras multinacionais), enquanto aparecemacusações contra os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado?
 
Esta revelação da corrupção é o epicentro do terremoto. Afetou aPetrobras, a principal empresa do país, em números surreais, que ainda não terminaram de serem avaliados. Basta pensar que –obrigada pela justiça– a Camargo Correa, uma das empresas, já devolveu 200 milhões de dólares; que o ex-gerente geral da petroleira estatal restituiu 97 milhões e o de abastecimentos devolveu 25 milhões (dois funcionários, simplesmente). Todas essas quantias respondem à intenção dos acusados de aliviar sua sentença, enquanto são feitos acordos de “delação premiada” em que alguns dos envolvidos, por sua vez, arrastam outros. É um “salve-se quem puder”, que tornou o juiz Sérgio Moro, que encabeça o expediente, a personalidade mais popular do país.
 
A essa crise moral soma-se uma situação econômica já por si difícil. A queda dos preços das matérias-primas, encabeçadas por minério de ferro, petróleo e soja, atingiu seriamente uma economia que na última década desfrutou de uma formidável bonança, alegremente esbanjada em consumo doméstico. Isso desnuda outra realidade histórica: o Brasil sonhou ser uma grande potência industrial e Getúlio Vargas, um caudilho gaúcho, em 1930, abriu as primeiras siderúrgicas; por sua vez, Juscelino Kubitschek deu continuidade ao sonho e, como testemunho desse otimismo, levantou — nos anos cinquenta — esse Versalhes moderno que é a Brasília de Niemeyer e Lúcio Costa. Esse sonho acabou. O Brasil hoje é muito mais potência agrícola que industrial. Com a queda desses preços, a economia começou a estagnar e há três anos apresenta baixíssimo crescimento, sendo esperada inclusive uma recessão em 2015. O último ano de expansão foi 2010, mas com uma ilusão de ótica, porque tinham sido estabelecidos incentivos ao consumo da indústria automobilística e eletrodoméstica, aumentando o endividamento popular. A consequência dessa economia estagnada e com forte déficit público levou à perda do investment grade, que incentivou, por sua vez, a desvalorização que hoje domina psicologicamente o país. Assim, quem vai investir, seja estrangeiro ou brasileiro?
 
À crise moral e econômica sobrepõe-se uma crise política, que retroalimenta a desconfiança. O Partido dos Trabalhadores (PT), partido no governo, sofre deterioração e até o ex-presidente Lula, que parecia imune, começa a perder imagem. As denúncias de corrupção atingem-no e põem em questão a própria presidenta, Dilma Rousseff. Paira sobre ela o fantasma de um julgamento político que teria de apoiar-se na evidência de um delito pessoal dela. Não apareceu uma prova direta que a envolva, mas a ameaça está presente, como também indica uma denúncia perante o Supremo Tribunal Eleitoralpelo uso em campanha de recursos espúrios oriundos de fraudes públicas. Como se fosse pouco, permeia uma sensação de fraude intelectual, porque Dilma fez uma campanha prometendo estimular a economia e acusou o social-democrata Aécio Neves de ser o candidato dos bancos. Assim que chegou à presidência, nomeou um banqueiro como ministro da Economia e lançou um ortodoxo programa de ajuste fiscal. Isso constituiu outro combustível para a fogueira que já fumegava.
 
Ninguém duvida que seria ruim para a democracia se Dilma não terminasse seu mandato. Mas, como disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, se não houver um gesto de grandeza da presidenta “assistiremos à desarticulação crescente do Governo e do Congresso”. Esse é o dilema de hoje. Encurralada, a presidenta encarou uma reforma de seu desmesurado gabinete de 39 ministros, reduzindo seu número, mas tendo que contemplar uma nuvem de pequenos partidos e o poderoso PMDB, seu principal aliado, hoje com um frágil apoio. Assim, não parece que vá acontecer esse choque de confiança que se espera. Com emplastros e remendos, tudo continuará se esgarçando e a sétima potência econômica do mundo, o gigante latino-americano, continuará a se arrastar em um agônico declive.
 
Julio María Sanguinetti é ex-presidente do Uruguai.
 
 
FONTE: Jornal El país
 
 

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