O dito e o não dito - Editorial - Folha de São Paulo

08/11/2015 14:39

Pelo menos uma obra-prima literária, impregnada de sarcasmo, resultou das controvérsias religiosas que agitaram a França no século 17.

Trata-se de "As Provinciais", do filósofo Blaise Pascal (1623-1662), cuja leitura, em alguns trechos, ganha notável atualidade quando se pensa no tipo de argumento a que recorre este ou aquele político flagrado em irregularidades.

 

A defesa do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) alega ter sido verdadeiro o seu depoimento à CPI da Petrobras, quando o presidente da Câmara negou ter contas em seu nome no exterior.

 

Como se sabe, informações em sentido inverso foram divulgadas por autoridades da Suíça; dada a discrepância, abre-se contra o peemedebista, no Conselho de Ética da Câmara, um processo por quebra de decoro parlamentar.

 

Cunha diz que não faltou com a verdade quando negou ser proprietário de tais contas. É que, a rigor, não estavam em seu nome, mas no de empresas sob seu controle.

 

Polemizando com o que considerava a duplicidade dos teólogos jesuítas, Pascal dá exemplo dos estratagemas pelos quais se pode enganar o interlocutor sem incorrer, teoricamente, no pecado da mentira.

 

Um cristão, afirma, pode dizer "juro que não roubei" mesmo sabendo que roubou. O truque estaria em acrescentar, com voz inaudível: "aos dois meses de idade". Nosso personagem não mentiu, mesmo que ninguém tenha escutado seu aditivo de conveniência.

 

Pascal enumera outras "restrições mentais", este o termo, pelas quais o dito e o não dito se confundem. Segundo o "jesuitismo" caricaturado pelo filósofo, se eu disser "farei isto", estou na verdade afirmando que "farei isto se não mudar depois de opinião". Pois não seria correto que me privasse definitivamente de minha liberdade.

 

O relator do caso Cunha no Conselho de Ética, deputado Fausto Pinato (PRB-SP), obteve seu mandato na carona do 1,5 milhão de votos de Celso Russomanno, do mesmo partido. A sigla tem sido fiel sustentáculo do presidente da Câmara.

 

"Eduardo Cunha vai ser julgado como um deputado comum", promete Pinato, enquanto Russomanno declara que não haverá arquivamento sumário do processo.

 

É de esperar que tais promessas não estejam cercadas das restrições inaudíveis ironizadas por Pascal. As explicações de Cunha sobre recursos no exterior –que incluem a devolução inadvertida de um empréstimo milionário feito a um colega hoje morto– desafiam a imaginação até do mais crédulo leitor de patranhas de província.

 

Truques de quatro séculos se renovam na política brasileira; a dúvida é se o Conselho de Ética está disposto a lhes dar aceitação.

 

 


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