O FMI e o Brasil da propina - EDITORIAL O ESTADÃO

21/01/2016 07:03

ESTADÃO

A corrupção brasileira é destaque, mais uma vez, no cenário da economia global – uma realização indiscutível da administração petista. A Petrobrás é a única empresa citada nominalmente nas novas projeções econômicas do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgadas ontem. Pelos novos cálculos, a economia brasileira encolherá 3,5% neste ano e terá crescimento nulo em 2017. Para a atividade global, as estimativas indicam expansão de 3,4% em 2016 e de 3,6% no próximo ano. As previsões do FMI são agora piores que as do mercado nacional: contração de 2,99% em 2016 e crescimento de 1% em 2017, segundo a última pesquisa Focus do Banco Central (BC).


Os economistas do FMI rebaixaram quase todas as projeções publicadas em outubro, mas as perspectivas do Brasil continuam entre as piores. Houve recuo de 0,2 ponto nas estimativas para o desempenho global neste ano e no próximo. No caso do Brasil, os cortes das previsões chegaram a 2,5 e 2,3 pontos. A mudança da percepção – para pior – também foi acentuada entre os analistas nacionais do setor privado e do governo. A mudança é explicável, em boa parte, pelo aumento das incertezas políticas e pelos tropeços da política econômica.

A piora das projeções globais foi em parte ocasionada pela observação de menor dinamismo entre os emergentes. “Em termos de composição por país, as revisões são amplamente explicadas pelo Brasil, onde a recessão causada pela incerteza política, no meio dos continuados efeitos da investigação sobre a Petrobrás, tem-se mostrado mais funda e mais prolongada do que antes se esperava”, escreveram os autores do relatório do FMI. O escândalo da Petrobrás já havia sido citado em documentos do FMI e do Banco Mundial. O assunto está virando lugar-comum nas avaliações da economia brasileira.

A situação brasileira é citada também de forma negativa quando se explica a piora das projeções para a América Latina e o Caribe. Pelos novos cálculos, o produto bruto da região diminuirá 0,3% em 2016 e crescerá 1,6% em 2017. Ou seja, agora se projeta contração econômica para os latino-americanos e caribenhos, “apesar do crescimento positivo na maior parte dos países”. Explicação: “Isso reflete a recessão no Brasil e em outros países em dificuldades econômicas”.

Os outros países são o Equador e a Venezuela. O primeiro sofre as consequências da desvalorização do petróleo e da alta do dólar, usado como moeda nacional. O segundo também é prejudicado pela redução dos preços do petróleo, mas seu principal problema é, obviamente, a política bolivariana.

A Venezuela está em recessão desde 2014, com números bem piores que os brasileiros, e sua inflação chegou à casa de 140% ao ano. Seu comércio interno foi desarranjado pela intervenção do governo, faltam dólares para a importação de bens de consumo essenciais e indústrias são forçadas a paralisar a produção, de tempos em tempos, por falta de matérias-primas e componentes. Também o desastre venezuelano afeta as estatísticas da região, mas o peso dos números brasileiros é muito maior.

Na reunião anual do FMI, em outubro, um dirigente do FMI mencionou de forma elogiosa, numa entrevista coletiva, o dinamismo recente da economia paraguaia, favorecido, segundo ele, por uma política econômica prudente. Entre os principais problemas enfrentados pelos paraguaios, nos últimos tempos, o funcionário incluiu as políticas dos maiores vizinhos, numa referência óbvia a Brasil e Argentina. Os dois países têm sido os grandes entraves à integração global do Mercosul. A derrota eleitoral do kirchnerismo, com a eleição de Maurício Macri para a presidência da Argentina, cria alguma expectativa de mudança na política do bloco.

Mas continua muito arriscado apostar na conversão do governo petista para uma diplomacia econômica mais pragmática, voltada para uma integração mais eficaz no comércio e nas cadeias internacionais de produção. Defensor dessa integração, o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy deixou o governo em dezembro, pressionado pelo PT e desprestigiado pela presidente Dilma Rousseff.