O improvável impeachment

22/09/2015 16:16

Por Vittorio Medioli

 

O improvável impeachment

 

Instalando-se oficialmente o processo de impeachment da presidente Dilma, como tentam diferentes insatisfeitos, haverá graves consequências imediatas. Um ano de arrasar o que já está ruim.

 

Que seja necessário ou justificado, o impeachment será acompanhado de um aprofundamento das dificuldades nacionais, sem se saber ao certo quanto durará e aonde levará o país.

 

Vivemos um dos piores momentos econômicos dos últimos 25 anos, o impacto negativo se alastra junto ao desemprego, ao fechamento de empresas e à queda de atividade. A incerteza provoca a paralisação de investimentos, a fuga de capitais, deixa caótica a cena. Todos os erros do passado saem agora do armário como fantasmas e se apresentam com o pior semblante possível.

Contudo, o impeachment, para alguns, é a solução.

 

Na realidade não é golpe no sentido clássico, pois, para se concretizar, terá que passar por um demorado percurso no Congresso e enfrentar dois longos debates, um na Câmara dos Deputados e outro no Senado. Ao contrário do impeachment de Collor, em 1992, que se transformou em renúncia “forçada” antes que a votação do Senado confirmasse a decisão tomada na Câmara do Deputados, Dilma possui uma base parlamentar forte e outra sindical decididamente estruturadas, que darão o que elas têm para defender o quinhão de poder que o PT e seus aliados conquistaram nos últimos 12 anos de governo.

A renúncia de Dilma é pouco provável. Faltam um colapso emocional e uma pressão insuportável que a levariam ao gesto extremo de renúncia. Existem também componentes ideológicos diferenciados que se concretizaram em décadas de história.

 

A queda de Dilma não levaria ainda a novas eleições, mas à subida de Michel Temer ao cargo de presidente, pois o PMDB, partido imprescindível para formar a maioria que possa destronar Dilma, entre novas eleições e ganhar a Presidência optaria, obviamente, pela ascensão de Temer. A oposição, o PSDB e seus aliados, além de terem poucos votos, têm ainda menos argumentos e coesão para liquidar presidente e vice ao mesmo tempo.

 

Novas eleições, que encontrariam Aécio Neves como o maior beneficiário, muito dificilmente seriam aprovadas no Congresso no formato que o favoreça, apenas se a população cercasse o Congresso com uma pressão e um furor que os sindicatos dominados pelo PT arrefecem nas ruas.

 

O pedido deveria ser lastreado por decisão do TSE fulminando a chapa Dilma e Temer, exigindo-se, assim, nova eleição. As possibilidades ficam, bem por isso, remotas e dependentes de um milagre, mais que de uma sentença.

Concorda a oposição tucana em substituir Dilma por Temer? Esse é o ponto “impossível”. PMDB e PSDB deveriam entrar em acordo nos bastidores para dar uma grande tacada. O PMDB pode concordar em retirar Dilma, mas na condição de Temer substituí-la; já os tucanos aecistas, com DEM e PPS, não têm força numérica nem argumentos, momentaneamente, para convencer o PMDB à decapitação de Temer.

 

Também os tucanos estão divididos. A queda da dupla, presidente e vice, atende apenas quem defende a candidatura de Aécio, mas os “alquimistas” preferem, obviamente, aguardar 2018, quando o governador de São Paulo estará disponível e fortalecido. Entre Temer e Dilma os aecistas preferem ver Dilma sangrar até 2018, e Temer não interessa.

 

O que pode unir firmemente peemedebistas e tucanos é, inusitadamente, o bafo da Lava Jato, que já devastou o PT e o PP e vem chegando a Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Os tucanos não estariam isentos de complicações na última fase da operação. Temem as delações de dirigentes de empreiteiras, ainda presos, e um efeito “Hiroshima 1945” no PSDB.

 

Em Brasília, ninguém tem o controle do comboio desgovernado que vem perdendo peças no caminho. Dessa forma, o processo de impeachment é visto com grande temor, como um botijão de gás aberto num ambiente sem saída e dividido por todos.

 

Negocia-se até uma emenda constitucional, espécie de manjericão, que tire de Lula a possibilidade de eleição em 2018, completando-se a grande pizza.

Lula, acossado pela Lava Jato, partiu, nos últimos dias, para um périplo, levando panos quentes e uma nova partilha de poder para aquietar PMDB e até o PSDB. Nas propostas, comenta-se, na maior escuridão, até uma cadeira do STF para o juiz Sérgio Moro como forma de dar uma acalmada na Lava Jato.

Entretanto, o que falta em Brasília é um articulador para rodar sozinho uma pizza tão gigantesca, e nisso até Fernando Henrique está sendo cogitado como “deus ex-maquina” para salvar do caos gregos e troianos.

 

Seja o que for, o pagador da crise geral já é o povo brasileiro, até por que a equipe econômica e o ministério atual são incapazes de medidas amplas e concretas; enquanto isso, Dilma não consegue encontrar uma solução que não seja mais uma dose de sacrifícios “duvidosos”.

 

Fonte: Site do Jornal O Tempo - Belo Horizonte - Minas Gerais

 

 


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