O Medo líquido - Editorial do Jornal Público

22/11/2015 19:40

O medo líquido - Editorial do Jornal Português

Obama diz que a “ferramenta mais poderosa que temos para combater o ISIS é dizer que não temos medo”. Bruxelas mostrou como é difícil combater o terrorismo sem alarmar os cidadãos.

Em 2006, cinco anos depois do 11 de Setembro, o sociólogo polaco Zygmunt Bauman, um ex-comunista judeu que hoje tem 90 anos, descreveu a forma como o medo domina a globalização, a nossa nova ordem mundial. Em Medo Líquido diz que vivemos na incerteza, que nos sentimos sob ameaça constante e que as nossas cidades deixaram de ser símbolos de protecção para se tornarem fontes de perigo permanente.

Pessimista, Bauman antecipa um Ocidente fechado em casa com medo do terrorismo. Sensato, prevê que o medo não desaparecerá com “soluções locais”.

Ler passagens de Medo Líquido hoje, quase dez anos depois, é um espelho do momento europeu que vivemos. Dez dias após o terrível ataque terrorista em Paris, o governo belga acaba de manter Bruxelas em estado de alerta máximo pelo segundo dia consecutivo. Há um medo concreto de “um ataque como o de Paris”, disse o primeiro-ministro. O nível quatro de alerta indica uma “ameaça séria e iminente”. A decisão foi “baseada em informação muito precisa”.

Há uma semana que há buscas de porta a porta no bairro deMolenbeek, nos subúrbios da cidade. É aqui, nestes seis quilómetros quadrados onde vivem 100 mil habitantes, que o autoproclamado Estado Islâmico radicaliza e recruta novos membros. Daqui terão saído um terço dos belgas que se juntaram aos extremistas na Síria (440, o maior número per capita da Europa). Com a detenção de mais um suspeito e a apreensão de armas e documentos, o clima de tensão e medo espalhou-se por toda a cidade.

Bruxelas é hoje uma cidade paralisada. Não há metro, as lojas, os teatros, os museus e os restaurantes estão fechados, as esplanadas estão vazias, as escolas não vão abrir, há mais de mil soldados nas ruas, carros blindados e camiões militares por todo o lado.

Para enfrentar o medo, a França pediu que todos saíssem para a rua. Para evitar a morte, mas aumentando o medo, a Bélgica pediu a todos que ficassem em casa.

Este domingo, Barack Obama disse aquilo que vai na cabeça de todos: “A ferramenta mais poderosa que temos para combater o ISIS é dizer que não temos medo”. O problema é que, como diz Bauman, o medo existe e não tem fronteiras, flui sem controlo de um lado para o outro.

Bruxelas exagerou? Tinha alternativa? Podia não ter optado por uma concentração de meios militares tão forte? A ameaça é real e há suspeitos em fuga. Pelo menos dois estarão escondidos em território belga e terão fugido com coletes-bomba vestidos. Mas Bruxelas e – por extensão natural – toda a Europa, pode ter caído numa armadilha. Elevado o alerta de segurança da cidade para o nível máximo, Bruxelas só pode baixá-lo se conseguir mostrar resultados concretos. Prender suspeitos seria um deles. Em particular, prender os dois homens que procura desde o dia 13. Se não conseguir, vai Bruxelas continuar indefinidamente em estado de sítio, com as crianças em casa e os transportes parados? Para esta linha ténue que separa o excesso securitário da prevenção eficaz do terrorismo, nem Zygmunt Bauman nem ninguém têm certezas. Obama tem razão, mas a resposta de Bruxelas mostra como é difícil combater o terrorismo numa cidade com a intenção de proteger os seus habitantes sem causar medo na população. A coexistência entre liberdade e segurança não pode ser uma utopia.

 


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