Olimpíada lava a alma da cidade – Editorial / O Globo

20/08/2016 17:17
Olimpíada lava a alma da cidade – Editorial / O Globo
• O evento desafiou a capacidade de realização do país, da cidade e do estado, e o resultado foi animador. As falhas, como as de segurança, têm de servir de aprendizado
 
Sabia-se que se tratava de evento de gigantescas dimensões. Os números previstos para a Rio-2016 indicavam: 11.400 atletas de 205 países, 25 mil jornalistas credenciados, 2.488 medalhas disputadas e uma estimativa de 500 mil turistas. À medida que os Jogos avançavam, a magnitude ficava visível nas ruas. A área restaurada do Porto e recém-entregue à população, por exemplo, tem recebido multidões engrossadas nestes dias por visitantes de fora do estado e do país.
 
O sucesso da Olimpíada em si pode ser mensurado de várias formas. Uma delas: no domingo passado, transitou pelo Parque Olímpico, na Barra, meio milhão de pessoas. A venda de ingressos para competições, após a cerimônia de abertura, disparou: até terça, haviam sido adquiridos 745 mil, além dos 5 milhões vendidos anteriormente.
 
Esta grandiosidade atemorizava, diante da tarefa conquistada em 2009 ao ser escolhida a segunda cidade latino-americana a sediar os Jogos — a primeira, o México, em 1968.
 
No final, o balanço é positivo, com inevitáveis problemas devido ao tamanho do evento numa cidade sem infraestrutura de país desenvolvido; entre as falhas, as piores foram de segurança pública — insegurança fora das áreas de competições, o que importa. A farsa montada pelos nadadores americanos não redime a cidade neste quesito. Como a sorte da ausência de chuva forte apenas maquiou a poluição na Baía.
 
Havia pessimismo com os 16 dias dos Jogos, em parte alimentado pela própria situação econômica e política do país, embora com perspectivas de melhorias. Mas a festa deslumbrante da abertura, no Maracanã, dobrou uma certa má vontade de veículos da imprensa estrangeira, assombrou brasileiros e reforçou o paradigma de que a criatividade e o uso inteligente de novas tecnologias podem compensar a falta de dinheiro. Nenhuma novidade, mas foi um facho de luz na escuridão do baixo-astral reinante.
 
Porém, isso não compensa outras deficiências nacionais. Por exemplo, na gestão. Teria havido atos de sabotagem de operários cujos salários sofreram atraso, mas não é justificável que o prédio da delegação da Austrália, na Vila Olímpica, a primeira a chegar, fosse liberado com encanamentos entupidos, instalações elétricas inacabadas etc. Uma simples vistoria prévia evitaria o dissabor da vergonha. O que parecia o início de uma grave crise foi contornado pela mobilização de equipes de reparos de emergência. Deu certo, e tudo correu dentro da normalidade possível no Parque e na Vila. Esclareça-se: a câmera que caiu no Parque, ferindo levemente sete pessoas, era de uma empresa do Comitê Olímpico Internacional.
 
Ao se anunciar o Rio como sede da Olimpíada de 2016 começou um debate sobre se compensaria trazer os Jogos para a cidade e o Brasil. Hoje, não se tem dúvida de que foi bastante compensador. Não apenas pelo dinheiro que circulou na cidade e em outros estados, como pelos empregos criados, principalmente na construção civil. E a Rio-2016 foi aproveitada de forma hábil pelo prefeito Eduardo Paes para viabilizar impressionantes projetos na revitalização do Porto, na ampliação da malha de transporte de massa (BRTs) e na linha de metrô até a Barra, de responsabilidade do estado. Foram importantes o apoio federal e a atuação conjunta com o governo estadual.
 
Se o modelo era o de Barcelona de 1992, quando uma parcela decadente da cidade foi revitalizada, o objetivo terminou em parte sendo atingido, em que pese o Parque Olímpico ter ficado na Zona Oeste. Outro ponto forte da Rio-2016 foi a economia de dinheiro público, com a formação de parcerias com a iniciativa privada, e ainda a formatação de arenas e outras áreas de competição (Deodoro) para posterior conversão em escolas e parques públicos.
 
Mas não se dispensa, por óbvio, um balanço crítico da Rio-2016, para se entender as causas dos erros e eliminá-las, a fim de que se consolide na cidade e no país a vocação de sediar eventos globais. Além de trazer dinheiro e gerar empregos, eles fazem bem à alma.
 
 

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