Operação de soma zero – O Estado de São Paulo

19/02/2016 16:16

EDITORIAL
 

Qualquer coisa que enfraqueça politicamente Eduardo Cunha faz bem para o Brasil. De modo que a vitória de Leonardo Picciani na disputa pela liderança do PMDB na Câmara deve ser comemorada como um passo importante em direção ao fim da linha imposto ao notório político que há um ano acintosamente coloca seu poder de presidente da Câmara dos Deputados a serviço de seus interesses pessoais. Mas a derrota de Cunha não significa uma vitória de Dilma Rousseff, que não teve escrúpulos no manejo de todos os recursos a seu alcance – inclusive licenciar seu ministro da Saúde – para garantir a eleição de um líder “aliado” que proporcione boas notícias para o governo na Câmara. No mínimo, Dilma terá de pagar ao grupo do PMDB representado por Picciani um altíssimo preço político, a começar pela concessão de um terceiro Ministério, o da Aviação Civil. E tudo isso sem a menor garantia de que o PMDB passe a votar em peso a favor de matérias importantes para o governo.

 

A eleição do líder peemedebista foi mais uma eloquente demonstração da decadência sem precedentes dos valores éticos que o lulopetismo inoculou na política brasileira na tentativa de consolidar seu projeto de poder. O “presidencialismo de coalizão” adotado por Lula em nome da “governabilidade” institucionalizou o mais deslavado fisiologismo nas relações do Executivo com o Legislativo, a ponto de provocar a insuspeita indignação do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, recentemente registrada neste espaço: “O uso do apoio político deixou de ser empenhado em razão de propostas de partido. As coalizões deixaram de ocorrer em razão de afinidades políticas e passaram a ser decididas em razão do pagamento de somas desviadas da sociedade”.

 

Eduardo Cunha, na verdade, é talvez o exemplo mais luzidio dessa decadência moral. A começar pelo cinismo: “Eu não perdi, pois não estava disputando. Quando eu concorri eu nunca perdi. Apenas apoiei agora o candidato com menos votos”. Tal qual os petistas no poder, o presidente da Câmara é acusado de partir do princípio de que qualquer recurso – mentira, dissimulação, coação, distribuição de favores ilícitos – é válido para a consecução de seus objetivos. Por causa dessas acusações está envolvido em várias investigações policiais e é alvo de processo de cassação de mandato no Conselho de Ética da Câmara. Cunha é, definitivamente, um homem de partido. O dele próprio.

 

Dilma Rousseff, por sua vez, pode saborear momentaneamente uma vitória circunstancial sobre seu temível adversário e talvez se orgulhar de estar prestando ao País o inestimável serviço de ajudar a afastar da vida pública uma personagem nociva. Mas é inevitável que acabe se dando conta de que o preço a pagar por esse pequeno triunfo é muito alto, principalmente para quem deveria focar todos os seus esforços no saneamento das crises que ela mesma criou. Do baixo clero parlamentar que Picciani representa não se pode esperar – como tampouco se pode esperar de Eduardo Cunha e de seus comparsas – o espírito público e o desprendimento indispensáveis à construção do aparato legal necessário para o saneamento das contas públicas e as ações proativas que a retomada do crescimento econômico exige. Lamentavelmente, o que manda nas votações no Congresso é o toma lá dá cá. E é nisso que Dilma Rousseff perigosamente confia.

 

Por outro lado, para dar um acabamento refinado à moldura de hipocrisia que envolve esse quadro político apodrecido, muitos petistas entendem que politicamente é mais interessante para o governo que o presidente da Câmara se mantenha em evidência, para permitir que Dilma continue o apresentando como o vilão ideal. Para o PT, nada mais conveniente do que opor-se a uma figura execrada pela opinião pública, como Eduardo Cunha.

 

O episódio da eleição da liderança do PMDB expõe a miséria cívica que caracteriza a política nacional. Não cria nem destrói perspectivas de superação da crise política, econômica e moral que flagela o País. Só haverá esperança de redenção quando se puder dizer que na capital federal existe um governo.