Os desvios no cofre da Caixa - DOSSIÊ DAS ESTATAIS

16/07/2016 11:18
Os desvios no cofre da Caixa - DOSSIÊ DAS ESTATAIS
REVISTA ISTO É DINHEIRO
 
Por: Rodrigo Caetano
 
Apadrinhamento, uso político, erros na estratégia: o que pintou de vermelho o balanço da Caixa Econômica Federal e, agora, ameaça o futuro da instituição
 
"O custo do calote: agência da Caixa em São Paulo. O aumento da inadimplência levou o banco a registrar prejuízo de R$ 303 milhões no quarto trimestre de 2015"
 
No segundo semestre de 2002, pouco antes de Luiz Inácio Lula da Silva assumir a presidência do Brasil, a Caixa Econômica Federal preparou a divulgação dos resultados do primeiro semestre e anunciou que tinha planos de captar recursos no mercado internacional. No futuro, disse Wilson Risolia, então vice-presidente de investimentos da Caixa, a intenção era inserir o bancão estatal no mercado de capitais, tanto aqui quanto no Exterior. Quase duas décadas depois, o cenário que se observa ao contemplar o prédio na Asa Sul, em Brasília, é desolador.
 
Os sucessivos governos de Lula e de Dilma Rousseff transformaram o segundo maior banco brasileiro por ativos, maior até que o Itaú Unibanco, em uma instituição que desperta muita preocupação sobre o seu futuro. De depositório das poupanças nacionais e grande financiador da casa própria, a Caixa Econômica Federal tornou-se um instrumento político. Ela não só serviu para azeitar os caminhos tortos da corrupção, viabilizando o pagamento de propinas e as pedaladas fiscais, que somaram mais de R$ 72 bilhões só em 2015, como também inundou o mercado com empréstimos a juros subsidiados, concedidos sem critério.
 
Tantos erros acabaram por pintar de vermelho seu balanço e, ao lado do uso político e do aparelhamento, geram preocupações sobre o futuro do banco. Na ânsia por colocar em prática seus programas sociais, o governo do PT impulsionou a carteira de crédito da Caixa, que dobrou de tamanho em três anos, atingindo R$ 679 bilhões no fim do ano passado. Mais da metade desse total, 57%, destina-se à habitação. Em 2013, durante a gestão do ex-presidente Jorge Fontes Hereda, a Caixa passou a ter a segunda maior carteira de crédito do País, ultrapassando o Itaú.
 
O problema não foi emprestar muito, mas sim emprestar mal. A inadimplência cresceu aceleradamente. Entre 2013 e 2015, ela passou de 2,3% do total para 3,6%, o que representa perdas de cerca de R$ 7 bilhões, segundo a consultoria Roland Berger. No crédito imobiliário, o índice de calote do banco é de 0,6%. Parece pouco. Mas representa o triplo da média dos bancos privados, cujos índices oscilam ao redor de 0,2%, de acordo com o economista João Melo, professor do Insper. O resultado não poderia ser diferente: prejuízo.
 
A Caixa divulgou um prejuízo recorrente de R$ 303 milhões no último trimestre do ano passado. No acumulado de 2015, a instituição teve um lucro de R$ 1,15 bilhão, número 82,6% menor do que o registrado no ano anterior. Segundo Márcio Percival, vice-presidente de finanças da instituição, o resultado é fruto, justamente, do aumento das despesas com captação e das provisões contra calotes, que cresceram 50%, para R$ 19,65 bilhões, em 12 meses. Para oxigenar sua carteira, a Caixa vendeu, em novembro, R$ 13 bilhões em créditos podres. Apesar disso, Percival não espera um salto nas provisões, em 2016, uma vez que já está sendo adotada uma postura prudencial.
 
Essa postura, no entanto, pode ter vindo tarde demais. Analistas estimam que, no atual cenário, o banco precisa de um aporte de R$ 40 bilhões apenas para recuperar o fôlego. No início do segundo mandato de Dilma Rousseff, havia a expectativa de que seria feito um choque de gestão na instituição. Mas a nomeação de Miriam Belchior, ex-ministra do planejamento de Dilma, para a presidência da estatal logo jogou por terra qualquer esperança do mercado. A indicação de Belchior resume como o aparelhamento prejudicou o banco.
 
Sem experiência na área ou conhecimento técnico, mas com fortes ligações com o PT, ela acabou gerando uma paralisia geral na Caixa ao colocar em prática um plano de reestruturação “de cima para baixo”. Com o afastamento de Dilma, Miriam foi substituída por Gilberto Occhi. Como se não bastasse, as investigações da operação Lava Jato mostram que a Caixa foi usada para o pagamento de propinas por meio da liberação de recursos do FGTS para obras superfaturadas.
 
Em depoimento, Fábio Cleto, ex-vice-presidente do banco, relatou ao menos dez casos de fraudes cometidas no período em que ocupou o cargo. Cerca de 80% do dinheiro teria como destino o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, diz Cleto. Em abril do ano passado, a PF descobriu um esquema de repasse de dinheiro por meio de uma agência de publicidade contratada pela Caixa. Os recursos tinham como destino duas empresas de fachada, ligadas ao ex-deputado André Vargas, do PT. O cenário é de terra arrasada.