Papa Francisco - dom imenso para a Igreja

08/02/2016 16:23

Frei Cantalamessa: Papa Francisco, dom imenso para a Igreja

Rádio Vaticana

 

Cidade do Vaticano (RV) - Esta terça-feira (09/02), às 7h30 locais, o Papa Francisco celebra na Basílica de São Pedro a missa com os Capuchinhos do mundo inteiro, presentes em Roma por ocasião do traslado à Basílica Vaticana dos restos mortais de Pe. Pio e Pe. Leopoldo Mandić. A propósito, a Rádio Vaticano ouviu o pregador da Casa Pontifícia, o frade capuchinho, Pe. Raniero Cantalamessa. Eis o que disse:

Pe. Raniero Cantalamessa:- “É um grande evento, uma grande alegria para toda a Ordem. Serão – segundo se prevê – mais de 1.100 Capuchinhos, vindos não somente da Itália, mas, efetivamente, do mundo inteiro. Para muitos deles é uma ocasião para  ver o Papa, para celebrar com ele. E, certamente, não se pode negar que há uma grande alegria. Gostaria que não fosse triunfalismo, porque seria um erro, porém, estamos felizes por termos dado à Igreja duas pessoas que – sobretudo no Ano da Misericórdia – são verdadeiramente dois modelos de confessores misericordiosos."

 

RV: Vimos a alegria e a fé de tantas pessoas com a chegada a Roma dos restos mortais de Pe. Pio e Pe. Leopoldo. Porém, estes dias um jornal trouxe como manchete: “A Idade média voltou”...

 

Pe. Raniero Cantalamessa:- “’A Idade Média voltou’ poderia também significar voltou São Francisco! O grande São Francisco era da Idade Média. Não creio que alguém fosse contrário se tivéssemos outro São Francisco hoje. Portanto, dizer Idade Média é uma coisa muito ambígua, porque a Idade Média pode ser também uma coisa positiva, bonita. O que dizer disso? Certamente, a piedade popular tem características que não são feitas para os palatos afinados, cultos, por vezes secularizados do nosso mundo. Porém, desprezar aquilo que o povo ama é, a meu ver, um insulto ao povo. Não podemos recorrer ao povo toda vez que se discute alguma coisa, como fazem os políticos que sempre se referem ao povo – tudo é popular, os partidos populares, a voz do povo, voz de Deus... –, e depois, quando o povo se manifesta, como neste caso, se torna ‘provinciano’, medieval. Creio que haja uma certa presunção em tudo isso, um colocar-se acima de tudo. É claro que é preciso educar a piedade popular, porém, gostaria de ser suficientemente simples para poder imitar essa gente que tem aquela confiança em Deus, também na intercessão dos Santos.”

 

RV: Pe. Pio e Pe. Leopoldo, dois Santos da misericórdia muito diferentes. É o rosto da misericórdia que se declina de muitos modos...

 

Pe. Raniero Cantalamessa:- “Sim, se declina segundo as personalidades de quem a administra. Certamente, porém, Pe. Leopoldo e Pe. Pio eram diferentes, mas todos dois convergentes, no sentido que o Senhor usava o caráter de cada um para poder obter os frutos que queria: 

 

Pe. Leopoldo era brando, generoso, bom, acolhedor com todos, de tal modo brando que alguns criticavam-no por isso; e Pe. Pio, pelo contrário, se sabe que por vezes era brusco no acolhimento aos penitentes e algumas vezes os mandava de volta inclusive de modo ríspido sem absolvição. A meu ver existe uma explicação. Para além do caráter de Pe. Pio, ele tinha o dom místico de saber escrutar os corações. Ele lia os corações, bem sabia que deste modo as pessoas, depois, seriam induzidas a refletir melhor, a ser menos superficiais, a não ir ali somente para vê-lo. Efetivamente, a maioria depois retornava a confessar-se com outras disposições de coração. Nós, sacerdotes, devemos imitar Pe. Pio, sobretudo em sua heroica dedicação ao Sacramento, não tanto nos modos bruscos que deixamos aos Santos místicos que sabem como usá-los. Pe. Pio é um mártir da Confissão, porque, contrariamente do que o povo pensa – que seja interessante ouvir os pecados dos outros –, o ministério da Confissão é um dos mais árduos e enfadonhos que existe para um sacerdote. Admiro imensamente pessoas que passam horas e horas como Pe. Pio – até 19, 20 horas por dia – no confessionário. Não significa somente ouvir os pecados das pessoas, mas é um mundo de sofrimento que recai sobre o sacerdote – a humanidade sofredora, ensanguentada, que vai ali pedir misericórdia – e o sacerdote deve despojar-se de si mesmo, se está cansado, se faz calor dentro do confessionário, se faz frio, para ouvir as pessoas. É um verdadeiro martírio e creio que estes dois Santos espiritualmente são mártires da Confissão.”

 

RV: Há 36 anos o senhor é pregador da Casa Pontifícia. Em que o Papa Francisco está mexendo com a Igreja? Alguns têm dificuldades de acompanhá-lo...

 

Pe. Raniero Cantalamessa:- “Todos têm dificuldade, eu inclusive, porque isso nos impele a um passo que não é cômodo. Conheci Bergoglio antes de ser eleito Papa e fiquei impressionado com sua humildade, a simplicidade, mas agora vi o que há por trás: há um homem de Deus, que a meu ver é um dom imenso para a Igreja. Francisco está nos encaminhando nas pegadas do Evangelho, não há dúvida nenhuma sobre isso.”

 

RV: O que o senhor diria àqueles católicos que têm dificuldade de acolher a mensagem do Papa Francisco?

 

Pe. Raniero Cantalamessa:- “Diria que não se deixem impressionar, sobretudo, por parte de meios de comunicação leigos. Mostram do Papa somente algumas coisas que conseguem entender, que são coisas, talvez, muito secundárias. Não partilham, sobretudo, a fé profunda do Papa, e isso muda tudo. Evidentemente, aquilo que acolhem é distorcido, já de início, porque não partilham as motivações do Papa. Portanto, ao invés de ater-se ao que dizem os jornais, é necessário ver aquilo que o Papa faz e diz autenticamente. Então se darão conta de que existe uma continuidade perfeita entre aquilo que prepararam os Papas precedentes e o Papa Francisco. Ele tem a força e a coragem de superar os obstáculos e de passar à realização daquelas coisas que todos, já de há muito, viam como necessárias fazer.”