Para cientista social, PT precisa superar lulismo

30/11/2015 12:08

Por Cristiane Agostine – Valor Econômico

 

SÃO PAULO - Alvo de denúncias de corrupção, o PT enfrenta dificuldades para obter apoio até mesmo das classes trabalhadoras e dos movimentos sociais e está cada vez mais parecido com o PMDB. Para tentar vencer a crise que enfrenta, o partido precisa superar o "lulismo" que controla a direção da legenda e construir lideranças políticas para suceder o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A análise é do professor de sociologia Ricardo Antunes, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.

 

Ex-petista, Antunes avalia que não está no horizonte do PT reduzir a influência de Lula no controle da sigla. Com isso, diz o professor, o partido deve continuar no "modus operandi da política brasileira", do "toma lá, dá cá".

 

"A crise do partido é profunda. O PT foi criado para ter independência de classe, autonomia política, forte preservação das classes trabalhadoras e isso desapareceu, está morto. O traço distintivo que foi o charme social e político [nos anos 80] do PT não encontra mais credibilidade nem nos núcleos organizados pelo partido", afirma o cientista social.

 

Na análise do professor, a prisão do líder do governo, senador Delcídio do Amaral (PT-MS), do banqueiro André Esteves e do pecuarista José Carlos Bumlai na semana passada, na Operação Lava-Jato, demonstra os problemas da política de alianças e de acordos patrocinados por Lula com diferentes setores econômicos, como o agronegócio, o financeiro e o da construção civil. "Mostra as afinidades eletivas que Lula construiu ao longo de seus mandatos", afirma.

 

Ao mesmo tempo em que o PT apostou em acordos e alianças que condenava quando foi criado, diz Antunes, a sigla não estimulou a renovação de lideranças, especialmente as ligadas ao movimento sindical. "Qual a relação de muitos do PT com o mundo do trabalho?", diz, citando que a maioria dos sindicalistas do partido atuou no passado no movimento sindical, "vinte, trinta anos atrás". "Qual é a liderança nova ligada a lutas sociais e que tem força hoje na máquina do PT? Qual liderança foi criada para suceder Lula? Não tem", afirma.

 

"Lula, ao mesmo tempo em que costurou a ampla heterogeneidade que existiu dentro do PT, se consolidou como a grande liderança do partido. De modo proposital ou não, ele esmagou o florescimento de outras lideranças", afirma.

 

Na avaliação do professor, é improvável que o PT consiga resgatar o que defendia quando foi criado, como a autonomia, a inspiração socialista e a vinculação à classe trabalhadora. Estudioso das áreas de sindicalismo e trabalho, Antunes diz que o partido "praticamente abandonou" esse projeto. "O PT está cada vez mais distante dos movimentos sociais, dos trabalhadores, mas perto da engrenagem de um poder institucional corrompido, carcomido, que está despencando."

 

Filiado ao PSOL, Antunes saiu do PT em 2003, após duas décadas de militância. Para o professor, as denúncias contra o PT consolidam o processo de desgaste político e social da legenda e indicam a transformação em um partido semelhante ao PMDB. "O PT não vai desaparecer, mas está sinalizando [que será] um partido tradicional, da ordem, como foi o PMDB dos anos 90 e 2000, onde todas as negociações são possíveis, onde todos os 'gatos são pardos'", diz. "O partido entrou na engrenagem da corrupção."

 

Para Antunes, a principal base de apoio do PT são os dependentes do Bolsa Família. "São os que apoiaram Lula e Dilma, mas que apoiariam outro candidato que implementasse a mesma política assistencialista como o Bolsa Família", diz.


 


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