Perda de hegemonia petista será lenta, diz pesquisadora

04/11/2015 11:11

Por Cristiane Agostine - Valor Econômico

 

CAXAMBU (MG) - Em meio à crise política enfrentada pelo PT e pelo governo federal, ainda não surgiu nenhuma força política ou partido capaz de atrair o contingente eleitoral dependente de programas sociais como o Bolsa Família, nem a classe média que ascendeu nos governos do PT. Dessa forma, a perda da hegemonia petista sobre esse eleitorado tende a ser lenta, analisa a cientista política Marta Arretche, diretora do Centro de Estudos das Metrópoles da USP.

 

O processo de identificação do eleitorado com um partido é lento, diz Marta, e apesar do desgaste do PT com o mensalão, petrolão e o ajuste fiscal implementado pela presidente Dilma Rousseff, "nenhum agrupamento político está vocalizando o mal-estar" da população mais vulnerável.

 

"O espaço político que o PT poderá vir a perder terá que ser ocupado por uma força política que vocalize os problemas desse contingente, que hoje não tem", afirma Marta. "Podemos ter um processo de acomodação e de realinhamento de forças partidárias que dure uma, duas, três eleições. 

 

Esses processos não são movimentos rápidos, porque dependem da identificação do eleitorado com forças políticas, com grupos que venham a se viabilizar ou não. O fato é que a preferência do eleitorado por ter alguma proteção social não vai desaparecer", diz. "É um contingente importante e não está claro qual será a força política que ocupará a preferência desse eleitorado num curto espaço de tempo. É muito pouco provável que ocorra no espaço de uma eleição".


O próprio PT levou de 1980 até 2002 para se viabilizar como alternativa eleitoral da esquerda, afirma Marta, em entrevista ao Valor, durante encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), em Caxambu (MG), na semana passada.

Nas mobilizações de rua, o que sobrou das jornadas de junho de 2013 foram grupos sociais mais conservadores, mobilizados pelo impeachment de Dilma e que deixaram de lado as demandas dos mais pobres e da nova classe média. O PSDB, com forte atuação anti-petista, tem dificuldade para atrair esse contingente. A ala mais ativa do partido, representada pelo senador Aécio Neves (MG) e pelo líder da bancada na Câmara, Carlos Sampaio (SP), tem buscado o eleitor anti-PT, que têm críticas ao Bolsa-Família.

 

O impacto eleitoral das denúncias, no entanto, deve ser sentido com força pelo PT nas urnas próximas eleições e mesmo o eleitorado beneficiado diretamente nas gestões petistas, como a nova classe média, tende a "punir" o partido pelo fato de Dilma ter trocado sua política econômica, além dos escândalos. "A inclusão social que tivemos recentemente tem um custo também para a chamada classe média, formada por pessoas com grau de vulnerabilidade social. Eles culpam o Bolsa Família porque acreditam que os que ganham o benefício estão melhores do que eles. O preocupante é que não tem nenhum agrupamento político que está vocalizando o mal-estar e as preferências políticas desse contingente", diz.

 

O desgaste eleitoral do PT poderá ser diluído pelo fato de os escândalos atingirem também PSDB. PMDB, PP e DEM. "É possível que o eleitor assuma que todos são igualmente corruptos e vote naquele do qual ele tem algum registro que tenha melhorado no seu bem-estar", afirma.

 

O cenário a médio prazo, no entanto, é diferente e a crise enfrentada pelo PT poderá abrir espaço para que outra força política ocupe o espaço que hoje é da sigla.

 

Marta analisa que no centro da crise está a disputa sobre quem pagará pelo ajuste fiscal. A tensão social deve durar enquanto o ajuste for a aposta do governo. "Enquanto imperar o ajuste fiscal - e vai imperar por um longo tempo-, a temperatura dos conflitos será alta", diz. "Teremos disputas políticas pesadas em torno de quem pagará tributos e quem receberá benefícios".

 

Para Marta, a manutenção de programas sociais está garantida por uma questão eleitoral, apesar do desgaste do PT. "O contingente eleitoral beneficiado pelas políticas sociais é um colchão político importante para impedir a retração dos programas sociais", diz. "Votar medidas que afetem negativamente esses setores têm custo eleitoral importante".


 


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