Perigosas semelhanças - Correio

07/11/2015 14:15

CORREIO BRAZILIENSE 

Ameaçados pela iminência de derrotas eleitorais, em razão da dramática situação econômica a que conduziram seus países, governos de viés populista da América Latina, como os da Venezuela e Argentina, revelam indesejáveis semelhanças com o que se tem visto no Brasil nos últimos anos. Nenhuma delas joga a favor da prosperidade econômica da sociedade ou, muito menos, da consolidação da democracia.

Por isso mesmo, sobram razões para a cidadania brasileira não perder de vista o que ocorre nesses dois vizinhos, que, diga-se, tinham tudo para frequentar a parte alta das economias desenvolvidas, de modo a garantir boa qualidade de vida sustentável a sua população, sem necessidade de socorros assistencialistas.

No Brasil, todos se lembram do assustador vídeo do programa eleitoral do PT mostrando uma família modesta à mesa do jantar assistindo impotente ao desaparecimento da comida, enquanto outra cena mostrava banqueiros e executivos sorrindo. Dizia o anúncio que isso ocorreria se o eleitorado cometesse o erro de votar em candidatos da oposição ao governo. Ao mesmo tempo, era insistente a falsa informação de que, se o PT fosse derrotado, programas sociais como o Bolsa-Família seriam extintos.

Esse marketing do medo é exatamente o que empregam os candidatos governistas às eleições presidenciais da Argentina e legislativas da Venezuela. Conduzido com mão de ferro por Nicolás Maduro, o sucessor do coronel Hugo Chávez, fundador do anacrônico socialismo do século 21, o regime venezuelano é uma boa amostra do que se deve evitar se se pretende viver uma democracia. Chávez aproveitou-se de erros e divisões da oposição para dominar o Legislativo e minar o Judiciário.

Foi isso que lhe permitiu aprovar uma constituição a seu gosto e conveniência. Levantamento da ONG internacional Human Rights Watch constatou que apenas 20% dos juízes venezuelanos desfrutam de garantias constitucionais. Os demais são juízes provisórios (52%), temporários (26%) ou sem qualquer tipo de estabilidade (2%), ou seja, sujeitos às vontades do governo. Resultado: políticos de oposição são mantidos presos sob alegações sem qualquer prova, como denunciou ex-promotor refugiado em Miami.

Se perder a maioria do Legislativo, como indicam as pesquisas, Maduro não terá como impedir a revisão imediata das leis absurdas que fez aprovar. É o caso da recente Lei Habilitante, chamada por Maduro de "antigolpe", que lhe permitirá governar por decreto, caso perca as eleições de 6 de dezembro, "já que, nesse caso, a Venezuela terá uma das etapas mais obscuras de sua vida, pois não entregaríamos a revolução", ameaça Maduro.

Não menos ameaçador passou a ser Daniel Scioli, candidato governista a presidente da Argentina, desde que foi obrigado a disputar um apertado segundo turno, com evidente risco de ser derrotado. Além do marketing do medo em relação aos programas sociais parecidos com os que há no Brasil, ele afirma que a vitória da oposição será um golpe na integração sul-americana, com prejuízos para a Argentina.

Golpe, aliás, é mais uma palavra comum no discurso de governos populistas que se veem ameaçados de derrota ou de afastamento por meios legais. São semelhanças que o Brasil deve evitar a todo custo, pois vêm de quem usou a democracia para destruí-la, assim como fizeram com a economia de seus países. Apontam para onde não queremos ir. Não iremos.



 


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