Petrobras, a central das propinas - DOSSIÊ DAS ESTATAIS

16/07/2016 11:02
REVISTA ISTO É DINHEIRO
Por: Hugo Cilo
 
A maior companhia brasileira, hoje a mais endividada do setor, foi usada para alimentar um complexo sistema de financiamento de partidos aliados, desvios de recursos e suporte à corrupção. O roubo, segundo a Polícia Federal, pode chegar a R$ 42 bilhões
 
"Fundo do poço: Os números do estrago na Petrobras: R$ 492 bilhões era o endividamento da estatal ao final de 2015, o maior do setor em todo o mundo, R$ 34,8 bilhões foi o prejuízo da companhia em 2015, resultado da corrupção, do aparelhamento e da queda do petróleo"
 
Nos últimos anos, a maior empresa brasileira, a Petrobras, brilhou nos noticiários internacionais, para o bem e para o mal. O ápice da reputação da estatal ocorreu entre 2007 e 2008, quando descobertas do pré-sal fizeram a companhia decolar como um dos principais cartões de visita do governo e se tornar uma das maiores petrolíferas do mundo. Naquela época, dado o potencial das jazidas de petróleo em alto mar, a companhia chegou a ser chamada de “diamante da economia brasileira”, pelo The Wall Street Journal, e de “protagonista de um conto de fadas”, em editorial do The New York Times.
 
Mas não demorou muito para o príncipe virar sapo. Fortemente aparelhada pelos governos petistas de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, a estatal do petróleo se viu envolvida – em escala proporcional a seu tamanho – no mais assombroso escândalo de corrupção da história da República. A operação Lava Jato tem mostrado que a maior fonte de riqueza e empregos para economia brasileira se tornou também a maior fonte de pagamento de propinas, distribuição de cargos e desvios de recursos que se tem notícia.
 
“A Petrobras é uma aula prática de anti-administração”, disse à DINHEIRO o economista e escritor americano Paul Roberts, tido como um dos maiores gurus da indústria petrolífera global e autor do best-seller The End Of Oil (O Fim do Petróleo). “Faz uma década tenho alertado que a Petrobras, ancorada em um produto que se tornará obsoleto e gerida por profissionais incapazes de enxergar um palmo além do nariz, está fadada ao fracasso.”
 
A afirmação de Roberts pode soar exagerada, mas os recentes balanços da estatal endossam a enrascada em que a Petrobras, de fato, mergulhou. No ano passado, com um prejuízo de R$ 34,8 bilhões e uma dívida de R$ 492,8 bilhões – um aumento de 40,4% na comparação com 2014 –, a companhia liderou com folga o ranking das petroleiras mais endividadas do planeta. “O uso da Petrobras como instrumento político afugentou os investidores e reduziu a previsibilidade da companhia”, afirmou Robert Wood, especialista em Brasil da consultoria Economist Intelligence Unit.
 
Com motivos de sobra, que incluem ainda queda no preço do petróleo, controle artificial dos preços dos combustíveis – visando a reeleição de Dilma – e dúvidas sobre a capacidade de pagamento das dívidas, as principais agências de classificação de risco, Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch rebaixaram as notas da companhia, dificultando o acesso da estatal a linha de financiamento e encarecendo o crédito. A reviravolta da Petrobras, agora sob comando do Pedro Parente, ganhou contornos dramáticos depois que ex-diretores da estatal investigados pela Lava Jato, Paulo Roberto Costa (abastecimento), Nestor Cerveró (negócios internacionais) e Renato Duque (serviços), fecharam acordo de delação premiada para terem suas condenações reduzidas pela Justiça.
 
Pedro Barusco, gerente subordinado a Duque, também fechou acordo e aceitou devolver US$ 100 milhões que estavam em uma conta pessoal. Com riqueza de detalhes, os ex-executivos revelaram valores pagos ao PT e a partidos da base aliada, nomes de políticos e empresários, além de esquemas fraudulentos de licitações, desvios de 1% a 3% em contratos com fornecedores e investimentos bilionários injustificáveis, como a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, avalizada pela então presidente do conselho de administração da estatal Dilma Rousseff, que custou US$ 1,3 bilhão.
 
Dois anos antes, a mesma unidade havia sido vendida para a Astra Oil por um total de US$ 126 milhões. O saqueamento da Petrobras, que ficou popularmente conhecido como “Petrolão”, gerou a condenação de 57 pessoas em menos de 12 meses de investigações. As sentenças do juiz federal Sergio Moro em razão dos desvios da estatal somaram 680 anos de prisão. Pelos cálculos da Polícia Federal, mais de R$ 42 bilhões teriam sido roubados da empresa entre 2004 e 2014. “Hoje não restam dúvidas do papel exercido pela Petrobras no plano sujo da corrupção federal”, afirma Mark Pieth, ex-chefe do Departamento de Crime Organizado do Ministério da Justiça da Suíça, que tem se dedicado a estudar a fundo os estragos políticos causados à companhia.
 
“A Petrobras simboliza, com precisão, os tropeços do Estado brasileiro nos últimos anos. Só uma gestão muito profissional, limpa e transparente poderá tirar a companhia do atoleiro.” Por meio de sua assessoria de imprensa, a Petrobras afirmou que “foi criada uma diretoria de governança, riscos e conformidade, com o objetivo de assegurar os processos e mitigar riscos, dentre eles os de fraude e corrupção, e garantir a aderência às leis, normas, padrões e regulamentos, internos e externos à companhia.”
 
 
 

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