Políticas com alvo errado - Por Paulo Marques

19/11/2015 13:55

Políticas com alvo errado

Por Paulo Cesar Marques da Silva

Paulo Cesar Marques da Silva

Cúpula mundial sobre segurança no trânsito mostra que países em desenvolvimento não estão conseguindo grande sucesso na redução das vítimas, talvez por erro no foco

 

Encerra-se hoje a 2a conferência Global de Alto Nível sobre Segurança no Trânsito, aberta ontem em Brasília. Promovida pela Organização Mundial da Saúde com endosso da própria ONU, esta segunda conferência destina-se a avaliar os resultados alcançados até aqui e ajudar a orientar governos na segunda metade da Década Mundial de Ações Para a Segurança do Trânsito (2011-2020), aprovada na primeira conferência (realizada em Moscou em 2009).

Os relatos apresentados pelos delegados dos mais de 130 países representados no evento, assim como o pronunciamento quase protocolar da presidenta Dilma na cerimônia de abertura, deixaram uma certa sensação de desânimo não só em mim – várias das pessoas com quem conversei disseram ter experimentado algo semelhante, mais ou menos como se estivéssemos patinando. As ações listadas pela quase totalidade dos países têm um gostinho de mais do mesmo e os números não convencem ninguém de que de fato cortaremos pela metade o número de mortes e lesões no planeta causadas pelo trânsito no final do período.

A leitura da última versão do documento a ser aprovado hoje na sessão de encerramento também pode não ser muito encorajadora. Há ali muito de reconhecimento dos esforços empreendidos, mas pouco de celebração de resultados até aqui alcançados. Porém, antes que nos resignemos todos a nos tornarmos os Sísifos do terceiro milênio, precisamos olhar com um pouco mais de cuidado os dados que nos chegam. Pelo menos, para começarmos a fazer nosso dever de casa, precisamos entender melhor o que é o Brasil nesse contexto e como o tema precisa ser encarado aqui.

Precisamos reconhecer que somos um país ainda em desenvolvimento e, nos balanços da primeira metade da Década, as vítimas estão diminuindo nos países desenvolvidos e aumentando nos países em desenvolvimento. Também foi dito na Conferência: países em desenvolvimento têm apenas 54% da frota veicular do planeta, mas 90% de suas vítimas. Será, então, que nosso maior esforço deve se concentrar na motorização e em produzir carros mais seguros para seus ocupantes?

Diz a futura declaração (PP18): “mortes e lesões no trânsito são também uma questão de equidade social, já que as pessoas pobres e vulneráveis são, com maior frequência, também usuários vulneráveis das vias (pedestres, ciclistas, motoristas de veículos motorizados de duas e/ou três rodas e passageiros de transporte público inseguro), os quais são desproporcionalmente afetados e expostos a riscos e lesões e mortes no trânsito, que podem levar a um ciclo de pobreza exacerbada pela perda de renda, e (...) o objetivo das políticas de segurança no trânsito deve ser o de assegurar proteção para todos os usuários das vias”. No parágrafo seguinte, o documento reconhece “que a segurança no trânsito requer abordar questões amplas de acesso equitativo à mobilidade, e que a promoção de modos de transporte sustentável, em particular, transporte público e deslocamentos a pé e de bicicleta seguros, é elemento essencial para a promoção da segurança no trânsito”.

Talvez tenhamos aí um elemento a merecer mais atenção do que nossos legisladores parecem dispostos a dar. Não que freios ABS e airbags deixem de ter importância. Mas certamente teremos mais sucesso se dedicarmos esforços semelhantes para dar suporte aos que trabalham para proteger pedestres e ciclistas e lutam para reduzir velocidades nas cidades. Só que, em vez disso, preferimos chamá-los de atrasados e incompetentes