Porandubas Políticas - Por Gaudêncio Torquato

27/11/2015 13:29

Porandubas Políticas

Por Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato

 

Abro a coluna para quem gosta de adivinhar sobre o que pode acontecer com o Brasil de 2018.

 

 

Tudo pode acontecer

Um poderoso sultão, sábio entre os sábios, possuía um camelo muito inteligente. Obedecia a todas as ordens que nem precisavam ser emitidas de viva voz. Faltava-lhe apenas o dom da palavra. Esse detalhe entristecia sobremaneira o sultão. Um dia, decidiu convocar o Grande Conselho e chamou o grão-vizir.

- Quero que ensine meu camelo a falar.
- Mas isso é impossível.
- Cortem-lhe a cabeça. Tragam-me o adjunto

Mesma afirmação de desejo sultanesco, mesma resposta, mesma sentença. A cena repetiu-se diversas vezes e cabeças rolaram. Exasperado o sultão declarou :

- Aquele que ensinar meu camelo a falar será meu grão-vizir.

Silêncio ! O sultão repetiu a exortação. Eis que surgiu um humilde ajudante de cozinheiro. Disse :

-Dá-me, ó incomparável senhor, um prazo de três anos, e farei falar teu camelo.

Estupefação geral. Seguida do cumprimento da promessa.

-Doravante, és meu grão-vizir. Mas se falhares, sabes o que te espera.
- Bem sei.

Encantado, o jovem fez profunda reverência e saiu correndo para dar a boa notícia à esposa.

- Infeliz, acabas de assinar tua condenação.
- Não é bem assim, meu bem. Pedi três anos. Você sabe que muitas coisas podem acontecer em três anos : morre o camelo, morre o sultão...

Governistas e oposicionistas : cuidado com as previsões.

Nuvens e cinzas sobre o país

O Brasil atravessará tempos sombrios. A economia não dará sinais de recuperação tão cedo. A projeção é a de que o adensamento da crise ainda está por vir. As observações convergem para os meados do 1º semestre de 2016. Nesse momento, o cenário poderá exibir este quadro : desemprego em alta, ultrapassando a casa dos 10% ; inflação, idem ; contingentes da classe C descendo para o andar da classe D ; manifestações voltando às ruas em início do processo eleitoral ; governo tenta imprimir agenda positiva ; empresariado sob inteiro desânimo. Vejamos, quais, os principais tipos de nuvens e cinzas que cobrirão o país.

Autoestima em baixa

A autoestima dos brasileiros diminui sob o impacto das grandes necessidades. O sentimento de perda de posições e ganhos atingirá estratos da base e do meio da pirâmide. Esse sentimento criará ondas de pessimismo, que poderão atingir as bases da harmonia social. O desalento é a mãe do pessimismo. O brasileiro pessimista é um ponto fora da curva.

Violência

O mapa da violência, na esteira das grandes necessidades, deverá se ampliar, particularmente na esfera de assaltos e roubos nos espaços das concentrações populares. O combate à violência, por seu lado, se desenvolverá com os braços enfraquecidos dos Estados, às voltas com falta de recursos, obsolescência de equipamentos e estruturas policiais.

Vazio

A crise começa a bater forte no ânimo social. Espraia-se um imenso vazio, a denotar desânimo, inutilidade, falta de rumo, confusão, sentimento de perda. Amostra do desvanecimento moral.

Agitação periférica

As margens tendem a dar respostas mais tempestivas aos momentos. Tensas e sob a pressão de demandas crescentes, tendem a entrar em ebulição diante de situações caóticas, como deterioração dos serviços públicos - paralisações dos transportes urbanos, filas em estabelecimentos hospitalares, escolas desaparelhadas, etc. Cenas de quebra-quebra e devastação de espaços públicos poderão se inserir na paisagem.

As pedras do meio do lago

As classes médias abrirão suas tubas de ressonância sob as demandas e pressões que também as atingirão. O encarecimento da vida com o aperto econômico também impactarão a classe média-média, que deverá usar seu tradicional instrumento : a expressão. A classe média-média age como a pedra jogada no meio do lago : cria marolas e estas rolam até as margens. A campanha eleitoral de 2016 se dará sob o barulho da orquestra tocada no meio da sociedade.

Messianismo nas margens

Por descrédito e desconfiança, os contingentes massivos das margens podem avolumar eventuais perfis messiânicos que, em anos eleitorais, costumam se apresentar aos eleitores. Esse é o lado perigoso da crise na perspectiva eleitoral. As massas tendem a correr atrás de salvadores da pátria, bombeiros de plantão, imitadores de São Jorge com a espada para atacar o dragão da maldade. Felizmente, um ou outro messiânico que se vê por aqui e alhures estão com os costados abertos pelas lâminas da operação Lava Jato.

Os limpos

O perfil mais limpo, menos poluído, tende a ser contraponto às figuras messiânicas. O asséptico é, geralmente, um perfil que vem de fora da política tradicional, tem meia idade, não é carcomido pelos escândalos e, em suas veias, ainda corre sangue puro. Inovadores, bons administradores, são os tipos que podem elevar a campanha eleitoral de 2016.

O dominó

A imagem é conhecida. A primeira pedra do dominó, colocada em pé, derruba a segunda, que derruba a terceira, que derruba a quarta e assim por diante. Pode ser que, por algum desvio de rota (não estão emparelhadas), uma pedra deixe de cair, segurando as seguintes em pé. Regra geral, porém, boa parte das pedras do dominó tende a cair em 2016. E a primeira pedra é a Federal. As outras são das esferas estaduais e municipais. Leitura : a crise econômica que assola o país baterá nas pedrinhas municipais. A conferir.

Perfil ideal

Um empresário bem sucedido, na faixa entre 40 e 50 anos, com trajetória iniciante na vida política ; com alta visibilidade social, graças ao trabalho consistente em defesa da sustentabilidade e ajuda a grupos carentes nas frentes da educação e saúde ; pessoa bem sucedida, simples, simpática, conhecedora do país ; exemplo de cidadania ativa, vida sem máculas, considerado um exemplo de decência. Um perfil inovador. Alguém conhece um brasileiro nato com estas qualidades e características ? Seria esse o meu candidato para presidente da República em 2018.

Empresários, mulheres e jovens

A campanha de 2016 será uma das mais promissoras para empresários, mulheres e jovens. Parcelas ponderáveis do pequeno e médio empresariado estão desanimadas com seus negócios. Milhares de empresas abertas nos últimos tempos, principalmente micro e pequenos empreendimentos, fecham as portas. As mulheres, por sua vez, tendem a ganhar relevância na batalha dos gêneros. Subirão no ranking da participação política. Por último, os jovens se aproveitarão do esgotamento do ciclo da velha política para ingressar na área. Serão três segmentos com boa inserção no campo político em 2016.

PT contra Cunha

Os três deputados do PT na Comissão de Ética prometem endossar parecer do deputado Fausto Pinato no sentido de acolhimento ao processo contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Este, por sua vez, tende a não ficar esperando o pior. Deve avançar na questão do pedido de impeachment da presidente Dilma. Este consultor acha que a situação da presidente melhorou "algumas gotas", mas ainda há muito líquido no frasco.

Prisão de Bumlai

 

A prisão do empresário José Carlos Bumlai, ocorrida ontem por ocasião da abertura da 21ª fase da operação Lava Jato, traz as seguintes indicações : 1. O entorno de Lula começa a ser ocupado ; 2. Os filhos de Lula podem ser detidos para averiguações ; 3. A presidente Dilma sente mais um impacto de bomba nos arredores do Planalto ; 4. Lula deve ter aumentado sua indignação ; 5. Veremos, nos próximos dias, aumento de tensões nas cercanias do lulopetismo.

 

Nordeste na oposição ?

O Sul é açoitado por chuvas torrenciais. O Sudeste, na região de MG, é castigado pela lama que destrói santuários e sítios de vida marinha e florestal. O Nordeste continua vivendo a tragédia das secas, uma das maiores dos últimos 50 anos. O Nordeste é uma região historicamente governista. Pois bem, está virando oposicionista. Por todos os espaços do país, escorre a lama ética.

Alckmin com mais chances

Analistas começam a projetar cenários de força : Geraldo Alckmin terá mais condições do que Aécio de ser o candidato tucano à presidência em 2018 ; José Serra tem grandes chances de sair do PSDB e ingressar no PMDB ; Marina deve ser, sim, a candidata da Rede Sustentabilidade à presidência ; Ciro Gomes deve postular a candidatura pelo PDT ; Lula só sairá como candidato pelo PT se efetivamente o partido não conseguir chegar ao consenso em torno de nome que não seja ele. A campanha de 2016 baterá recorde em número de candidatos. Parcerias serão escassas. Todos com desconfiança de todos.

PMDB do Rio sem chances

Chega-se a falar que o candidato do PMDB, em 2018, pode ser Eduardo Paes. Difícil. Primeiro, o cariocas formam um clube que não fala com outros grupos. Agrega gente autossuficiente. Segundo, o PMDB carioca só enxerga seus membros. Tem chance zero de postular cargos nacionais. Cabral e Paes formam uma dupla não muito simpática aos "estrangeiros" não cariocas. Nem apareceram no evento do PMDB, em Brasília, promovido pela Fundação Ulysses Guimarães. Foram objeto de repúdio nas conversas.

E Marta, hein ?

Marta Suplicy, a senadora que acaba de entrar no PMDB, firma-se como candidata do partido à prefeitura de SP. Tem muitos votos nas margens, mas não tem densidade nas classes médias. De onde saiu. Marta, para grande parcela de paulistanos, tem carimbo de petista. Difícil de convencer que abandou jeitão petista de ser.

A persistência -I

A persistência é uma das principais virtudes dos grandes homens. Cristóvão Colombo aferrava-se à obsessão de que poderia chegar ao Oriente pelo caminho do Ocidente. O pensamento não lhe dava trégua. Esta foi a diferença entre Colombo e os seus contemporâneos. Estava convencido. Queria partir. Mas seria forçado a esperar muito. Enquanto aguardava, falava do sonho. D. João II, rei de Portugal, interessou-se pelo assunto e submeteu o projeto de Colombo a uma junta de sábios. Estes condenaram a ideia. Quando morreu a esposa, Colombo gastou a maior parte de suas economias com o enterro. E foi para a Espanha.

A persistência - II

Fernando e Isabel, empenhados em dispendiosa guerra com os mouros, deram apenas meio ouvido à proposta do genovês. A rainha, entretanto, foi simpática a ele. Concedeu-lhe uma pensão, enquanto a junta de notáveis do Reino estudava o assunto. Depois de dois anos, a pensão foi suspensa. Obrigado a se manter sem ajuda, durante os oito anos seguintes vendeu livros e mapas que confeccionava. Seus cabelos ficaram brancos. Foi atacado pelo artritismo. Mas nunca desesperou. E, um dia, realizou seu sonho.

Pé de página

 

Pré-candidatos e futuros candidatos : sejam persistentes !

 

 

Gaudêncio Torquato
Gaudêncio Torquato é Jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo. Diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.

 


 


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