Porandubas Políticas - Por Gaudêncio Torquato

10/12/2015 18:37

Por Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato

Abro a coluna com dois "causos" da política.

Vácuo

O grande tribuno Carlos Lacerda, da UDN, fazia inflamado discurso na Câmara dos Deputados, quando um colega pediu aparte :

- Vossa Excelência pode falar o quanto quiser, porque o que me entra por um ouvido sai imediatamente pelo outro.

Ao que lhe respondeu Lacerda :

- Impossível, nobre colega, o som não se propaga no vácuo.

Saudação

Juscelino Kubitschek, presidente da República, foi ao CE com Armando Falcão, ministro da Justiça. Sebastião Nery conta que Falcão, cearense, levou JK a um desafio de cantadores. Um cego estava lá, com sua viola, gemendo rimas. Juscelino chegou, cumprimentou-o. O cego respondeu na hora :

- Kubitschek, ai, meu Deus, que nome feio. Dele eu só quero o cheque porque do resto ando cheio.

Um ano depois, a mesma cena. Jânio Quadros, presidente, vai a Fortaleza, há um desafio de cantadores. Chega com os óculos grossos e longos bigodes, um cantador o vê, saúda :

- Vou louvar o meu patrão que já vem chegando agora. Engoliu a bicicleta e deixou o guidão de fora.

Nunca mais ninguém levou presidente para ouvir cantador no CE.

A carta de Michel I

A carta do vice-presidente Michel Temer estava engasgada em sua garganta há muito tempo. Até que ele decidiu soltar o verbo. Como se sabe, Michel é cordato, educado, atencioso, um diplomata. Aceita ponderações e chega a balançar positivamente com a cabeça em aceno de aprovação às ideias do interlocutor. No instante seguinte, porém, se não concordar, ele desarma os argumentos do outro. Sempre de maneira educada. Essa habilidade sempre esteve presente na sua interlocução com Dilma. Que deve ter considerado : pela maneira Michel Temer de ser, ele jamais dirá algo mais duro contra mim. Errou.

A carta de Michel II

Não foram poucas as vezes em que Michel se sentiu desprestigiado. Um exemplo marcante. Na posse do segundo mandato, ela teve um encontro de duas horas com o vice-presidente norte-americano Joe Biden. Michel é amigo dele. Teve oportunidade de iniciar uma amizade por ocasião das missões e viagens ao exterior, oportunidade em que se encontrou algumas vezes com Biden. A aproximação dos dois se estreitou em função da identidade de ambos : constitucionalistas, professores de Direito Constitucional. Pois bem, na posse de Dilma, ela não chamou Michel, amigo de Biden, para a conversa com o vice-presidente. Ela sabia, sim, que ambos eram amigos. Por que não chamou ? Ora, por prever que teria desconforto em assistir a uma conversa mais elevada. Ou simplesmente porque queria dar um recado a Michel : aqui, nessa praça, quem manda sou eu.

A carta de Michel III

Ele tomou a decisão de escrever a carta quando leu a declaração de Dilma falando da extrema confiança em Michel. Ora, nada mais falso. A fala de Dilma tinha um quê de deboche, uma teia de ironia, um leve tom de zombaria. Que foi percebido por amigos do vice-presidente. Era uma maneira de constrangê-lo. Algo como : se eu o elogiar, ele não terá alternativa que não a de me elogiar. Uma espécie de dique, barreira de contenção. Não imaginava que o nó da garganta de Michel estava alto. Errou mais uma vez.

A carta de Michel IV

Como pode ser interpretada a carta ? Mais que um desabafo. Pode ser entendida como um passo na construção de um afastamento entre o PMDB e o governo Dilma ? De certo modo, sim. Depois dela, será muito difícil uma relação estreita entre a presidente e o vice. Continuarão a se falar, claro. Mas de maneira mais formal e litúrgica. Michel Temer, como ressaltou na missiva, sabe quais são suas funções e deveres. Vai se restringir a eles. Não fará pressão pelo impeachment ou defesa rigorosa da presidente. Deverá se pautar pelo espírito da lei e da ordem. É um constitucionalista. Que Dilma jogou fora por pura inabilidade política.

A carta de Michel V

Urge lembrar que o PMDB fez uma proposta para o país contida no documento Uma Ponte para o Futuro. Essa proposta, adensada, arrematada sob o comando de Moreira Franco e sugestões coletadas pelo senador Romero Jucá, será votada em março de 2016, quando o PMDB fará seu Congresso. Pois bem, nessa ocasião o partido deverá decidir sobre as estratégias para o pleito nas prefeituras, em outubro, e sobre candidatura própria em 2018. Pode-se prever, assim, uma ruptura com o governo Dilma. A carta de Michel assinala esse rumo.

A carta de Michel VI

É evidente que a carta também sinaliza ao PMDB a intenção dos petistas, não somente de Dilma, em aprofundar a cisão no partido. Dilma cooptou o líder Picciani com ministérios para a bancada na Câmara. O deputado, jovem e ambicioso, nunca imaginou chegar tão rápido ao pilar da fama. A tinta da caneta presidencial é um afrodisíaco. Agora, Dilma promete colocar no lugar do ministro Eliseu Padilha um nome indicado por Picciani. Que pensa no deputado mineiro Leonardo Quintão. A bancada mineira, depois da bancada carioca, é a maior. Picciani quer, desde já, garantir sua posição como candidato a substituir Eduardo Cunha na presidência da Câmara.

A carta de Michel VII

Nem bem Michel Temer chegava a Brasília, a carta já estava vazada. Pelo Palácio. Qual a verdadeira intenção ? Mostrar um vice-presidente lamentoso ? Achincalhar ? Não se sabe qual a intenção do sábio do Planalto com esse vazamento. Uma das razões : tentar indispor Michel com uma das alas do próprio PMDB. Desacreditá-lo. Sabe-se que os ministros do núcleo duro estavam com a carta na mão por volta de 17, 18h. Dilma pediu para vazar ? Não se sabe. Mas o ato é de extrema deseducação política. Como se vaza uma carta pessoal, portanto sigilosa, de um vice-presidente para a presidente ? Desconsideração com o vice. Mais uma prova da conduta do governo do PT.

A carta de Michel VIII

A carta foi bem recebida pela mídia. Até porque Dilma está no fundo do poço da imagem. Formadores de opinião viram na carta a verdade que já conheciam: a da presidente autossuficiente, arrogante e desconfiada. Esperam com expectativa sua conversa com Michel. O que dirá ? Que foi surpreendida ? Que esperava lealdade dele ? Que acha que estava tudo indo às mil maravilhas, depois das humilhações cometidas com as demissões de Moreira Franco, Edinho Araújo e contra Padilha ? Essa conversa será interessante.

A carta de Michel IX

E, agora, como será o dia a dia entre presidente e vice ? Uma interlocução fria, distante, litúrgica. A ponte não foi de todo fissurada, mas as fendas aparentes mostram necessidade de muito cimento para tampar os buracos.

Michel como articulador

Michel Temer só foi convidado para fazer a articulação política do governo Dilma por insistência de Lula junto à presidente. Por ela mesma, ficaria o Mercadante. E por que saiu ? Porque os compromissos assumidos por ele e Padilha, que o ajudava na articulação, não eram cumpridos. Ficavam na gaveta. Quiseram dar um basta na desmoralização. E saíram.

E Lula, hein ?

Lula já começa a construir a sua bandeira e seu slogan : querem destruir o governo dos pobres. É o discurso que vai brandir nos próximos tempos. Vingará ? Mas os cinco milhões de pessoas da classe C que desceram para a classe D ? Que governo dos pobres é esse que destrói a classe que ajudou nos últimos anos ? Lula sabe como enrolar as massas. Como trabalhador, é um exímio palanqueiro.

Picciani irá em frente ?

Leonardo Picciani quer tomar o lugar de Eduardo Cunha. Com o apoio de Dilma. Conseguirá ? A bancada do PMDB está rachada. Hoje, ele consegue ligeira maioria. Depois de amanhã, ficará mais difícil.

Impeachment

Hoje, Dilma teria uns 220 votos contra o impeachment. Em março, não conseguirá os 172 que precisa para barrar o afastamento. Economia no fundo do poço.

A pergunta é :

E se Dilma ganhar e continuar ? Respondo : terá de mudar de A a Z. Não teria condições de governar com a mesma estrutura, mesma equipe, mesmos métodos. O país estaria arrebentado. Urge resgatar a confiança perdida. Dilma não conseguiria recuperar o terreno perdido. A não ser que mude tudo.

PT no final de linha

O PT está em trajetória de derrocada. Em 2016, elegerá poucos prefeitos. Formará uma base estreita para o pleito de 2018. Com Lula ou sem Lula, uma vitória do PT em 2018 é tão difícil quanto um camelo passar pelo buraco de uma agulha.

Lava Jato

A operação Lava Jato é o fator que poderá desestabilizar mais ainda a esfera política. Se alguns protagonistas entrarem no cerco, será um deus-nos-acuda. Desmoronamento em série.

Fecho a coluna com uma historinha triste.

João Felipe

O relato é do ex-juiz, hoje advogado Agamenon Fernandes, um potiguar como eu, da serrinha de Luís Gomes.

Aqui no Nordeste, a seca completa quatro anos. Vamos para o quinto, sofrendo as agruras do El Nino. Preocupado com essa situação, ao visitar nossa querida cidade de Luís Gomes, fui apresentado ao meteorologista, o agricultor chamado João Felipe. Consultei-o sobre se o tempo prometia inverno em 2015. Tímido, coçou o queixo e tascou :

- Pode chover ou pode não chover.

João morreu de maneira trágica. Vejamos como foi. Morava na zona rural, no sítio Baixas. Levava vida tranquila como os agricultores que criam pequenos animais para consumo próprio ou mesmo para venda. O nosso meteorologista João Felipe criava um boi, que estava em fase de engorda. Sua esperança era que a venda do animal lhe trouxesse tranquilidade com a quitação de antigos débitos. Com pasto escasso, o boi se alimentava nas margens das estradas. Para facilitar o deslocamento do animal, João costumava amarrá-lo na própria cintura ; enquanto pastava, ele lia a Bíblia. Certo dia, enquanto pastava, um enxame de abelhas atacou o boi. Enfurecido, o bicho partiu em disparada na tentativa de se livrar das abelhas. E assim, o nosso querido João Felipe teve seu corpo estraçalhado.

Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato é jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo. Diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.

 

 


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