Porandubas Políticas - Por Gaudêncio Torquato

01/09/2016 19:09
Porandubas Políticas
Por Gaudêncio Torquato
 
Abro a coluna com uma promessinha eleitoral
 
Eclipses ? Não
 
O coronel Zé Azul, chefe político de São Gonçalo do Abaeté, em Minas, era candidato a prefeito pela UDN, às vésperas de um eclipse do sol, que a imprensa vinha prevendo para começo do ano seguinte como o mais forte já visto no Brasil. O medo generalizou-se. Espraiavam-se relatos de crianças que iam nascer defeituosas, galinhas que deixariam de pôr ovos, cabritos que não mais berrariam e a cachaça que ficaria envenenada. No dia 1º de outubro, o coronel Zé Azul fez o último comício da campanha e acabou com um juramento sagrado :
 
- Pode ser que, na prefeitura, a partir de janeiro, eu não consiga fazer tudo que pretendo por esta terra. Mas juro para vocês que meu primeiro decreto será proibir definitivamente eclipses em São Gonçalo do Abaeté.
 
Ganhou a campanha. No Brasil, candidatos continuam a prometer mundos e fundos.
 
Dilma em dois atos
 
A presidente Dilma fez duas performances na Comissão de Impeachment. Na primeira, leu a carta com a qual pretende registrar seu nome na história. A carta teve momentos emotivos, mas do meio para o final fixou-se em aspectos técnicos. Deixou de chamar a atenção. Por diversas vezes, bateu na mesma tecla : golpe. Golpe parlamentar, brandia ela. A segunda performance foi a resposta às perguntas dos senadores. Nesse ato, aparece a verdadeira Dilma : com dificuldades de ajustar a concordância gramatical, plena de auto-suficiência, confusa, repetitiva. Houve momentos em que os ouvintes, desesperados, torciam para ela arrematar sem atropelos o pensamento. Foi pega no contrapé por uma sintaxe mal construída. Caiu nela algumas vezes.
 
Três filmes
 
Mas a Dilma sabia que pouco resultado alcançaria com suas duas performances. A insistência com que defendeu o argumento de que o eventual impeachment seria golpe chegou a irritar alguns senadores. Para complicar, a senadora Gleisi Hoffmann, do PT do Paraná, mais uma vez chutou o pau da barraca ao "dedurar" ex-ministros de Dilma. Acabou reforçando o cordão do impeachment. A presença de Lula e de Chico Buarque, muito tietado, fez parte da cinematografia que se prepara para adornar o "golpe" : três filmes. Lula, com prestígio em baixa, não conseguiu demover senadores. Cercou três senadores maranhenses. Sem sucesso.
 
Reforma partidária
 
Robaina, vereador do MDB de Bagé/RS, ficou no PMDB depois da extinção da Arena e do MDB. Vivo, pôs a mulher no PDS. O senador Pedro Simon estranhou :
 
- Robaina, como é que você fica no PMDB e sua mulher no PDS ?
 
- Pois é, presidente. Ainda tenho três filhos para a reforma partidária.
 
Destaques
 
A sessão do depoimento de Dilma teve destaques. Dentre eles, o rompante da tropa de choque dilmista : os discursos raivosos de Gleisi Hoffmann, as derivações em tom maior da senadora Vanessa Grazziotin, do PC do B do Amazonas, e a trombeta esfuziante do senador Lindberg Faria, do PT do RJ. Todos acusando os senadores favoráveis ao impeachment. Da parte contrária, uma das falas mais contundentes partiu do ex-companheiro de lutas de Dilma, o senador José Aníbal, que conviveu com ela em Belo Horizonte nos idos guerrilheiros de 64. O senador tucano foi implacável. Dilma lhe respondeu com fúria.
 
Dúvidas
 
Algumas dúvidas surgiram nos últimos dias, reforçadas por atitudes de alguns senadores por ocasião do depoimento de Dilma. O senador Fernando Collor cumprimentou efusivamente o senador Roberto Requião, artilheiro da tropa de Dilma. Estaria sinalizando mudança de voto, ele, Collor, que votou a favor do impeachment por ocasião de sua admissibilidade pelo plenário ? O entorno do governo interino diz que não. Os três senadores maranhenses abordados por Lula teriam sido convencidos a votar contra o impeachment ? Da mesma forma, não, de acordo com fontes palacianas. Já o senador Telmário Mota, do PDT de Roraima, que teria ficado neutro e sinalizado, até, a possibilidade de votar a favor, recuou e anunciou voto contrário ao impeachment. Da mesma forma, pronunciou-se contra o senador Oto Alencar, do PSD da Bahia.
 
A presidência
 
O presidente Ricardo Lewandowski foi bastante gentil com a presidente e rigoroso com o controle de tempo das falas senatoriais. No geral, comportou-se como um magistrado, mesmo deixando a presidente Dilma exceder seus tempos de fala inicial e de respostas. O presidente do STF quer ganhar a simpatia dos senadores. Afinal, o pleito para aumento dos salários de ministros da Corte está sendo questionado por um forte conjunto parlamentar, a partir dos parlamentares tucanos.
 
Cativando o eleitor I
 
O escopo do marketing político, ao longo da história, tem se mantido praticamente o mesmo. O que muda são as abordagens e as ferramentas tecnológicas. Atentem. No ano 64 a.C., Quinto Túlio Cícero enviava ao irmão, o grande tribuno e advogado Cícero - protagonista de episódios marcantes por ocasião do fim do sistema republicano e implantação do Império Romano - uma carta que considero o primeiro manual organizado de marketing eleitoral da história.
 
Cativando o eleitor II
 
Nesse Manual, Quinto Túlio orientava Cícero sobre comportamentos, atitudes, ações e programa de governo para o consulado, que era o pleito disputado, sem esquecer as abordagens psicológicas do discurso, como a lembrança sobre a esperança, este valor tão "marketizado" no Brasil e que se constituiu eixo central do discurso da era lulista. Dizia ele : "Três são as coisas que levam os homens a se sentir cativados e dispostos a dar o apoio eleitoral : um favor, uma esperança ou a simpatia espontânea".
 
O pós-impeachment I
 
Como será o primeiro tempo do governo Michel Temer, depois do período de interinidade ? Alguns desafios terão de ser enfrentados. Na área congressual, o governo se esforçará para fazer passar a PEC do teto dos gastos e outros marcos que virão em sua esteira. A renegociação das dívidas dos Estados estará na ordem do dia. As reformas da Previdência, do Trabalho e da Política - esta com dois pontos quase consensuados, a cláusula de barreira e o fim das coligações proporcionais - entrarão na pauta do Executivo até o final do ano.
 
O pós-impeachment II
 
O aumento de salários dos ministros do STF deflagrará um jogo de pressões. Toda a esfera do Judiciário certamente fará reivindicações de aumentos, prevendo-se um forte efeito cascata. As categorias do funcionalismo, a partir do aumento para o Judiciário, também se movimentarão. Greves pontuais poderão ocorrer tendo como foco o pleito por aumentos salariais. O governo Temer dispõe de alta calibragem na frente da articulação política, razão pela qual se pode prever acertos com o Congresso e consequente estabilização da base governista.
 
Candidatos em 2018
 
Mais um ponto despertará os ânimos : nomes que entrarão no tabuleiro de 2018. Esse será motivo de mais uma pendenga a fustigar o Executivo. As hipóteses correm soltas : se a economia for arrumada, o nome de Henrique Meirelles entra forte no ringue como candidato ; José Serra, o tucano encravado no Ministério das Relações Exteriores, será outro nome de peso. Serra quer ser candidato e Meirelles sempre sinalizou desejo nessa direção.
 
Acalmando os tucanos
 
Mas o PSDB não aceita lançamentos prévios. Daí a chamada geral que o governo deverá anunciar : ministros estarão proibidos de levantar essa lebre. Aécio Neves e Geraldo Alckmin, que disputarão a primazia no PSDB, esperam por esse alerta. O fato é que os horizontes de 2018 poderão gerar instabilidade e animosidade na base governista. Michel Temer vai ter de usar toda a experiência de articulador para administrar tensões na esfera eleitoral.
 
Para onde irá Lula ?
 
Essa continua sendo uma grande interrogação. Há quem o veja passando por Curitiba, sob o chamado do juiz Sérgio Moro. Há quem garanta : tem imunidade social, prestígio junto às massas, e com essa prerrogativa, desfilará leve e livre pelos palanques do pleito eleitoral ; há quem defenda a hipótese : será o próximo a se submeter ao regime da República de Curitiba. Este consultor acredita que o juiz Sérgio Moro terá muito cuidado ao tratar do affaire Lula. E não temerá pressão de movimentos sociais caso chegue à conclusão de que Lula precisa prestar contas. A conferir.
 
Marisa e filho
 
Lula está mesmo muito chateado com a situação a que dona Marisa, sua mulher, e o filho Fábio foram colocados. Foram incluídos no processo do sítio de Atibaia. E se forem convocados a depor ? A situação é realmente constrangedora.
 
O pleito está nas ruas
 
Como este consultor sempre lembrou, o pleito deste ano privilegiará as ruas. O eleitor, desconfiado, não quer escolher apenas pelo conhecimento que tem do candidato via mídia eleitoral. Quer vê-lo, olhar em seus olhos, avaliar pessoalmente seu discurso e até observar suas atitudes. Haja sola de sapato para os candidatos. Mas a mídia eleitoral ajudará em um aspecto : o da visibilidade. Quem dispõe de mais tempo na TV e no rádio é mais beneficiado. Principalmente os desconhecidos do público.
 
À moda antiga
 
Pois é, quem esperava uma modelagem nova, avançada, diferente na programação eleitoral da mídia (TV e rádio), ficou a ver navios. A proposta é velha. Os discursos, regra geral, são o mais do mesmo. E mesmo o primeiro debate pareceu o trololó de sempre.
 
Identidade e imagem
 
Candidato precisa ter forte identidade. Que significa seu conceito. O tronco da árvore. Que lembra semente, história de crescimento, tradição, valores, princípios, caráter. A imagem que projeta é resultante desta identidade. Tênue, a imagem será frágil. Forte, a imagem será clara, retilínea. Que imagens, eleitores, vocês têm dos candidatos a prefeito de sua cidade ? Vamos oferecer alguns parâmetros : experiência, conhecimento, força política, tradição partidária, inovação, compromisso com cidade, proximidade do eleitor, firmeza religiosa, apoio de entidades e grupos, arrojo, coragem, honestidade/desonestidade, moral/ética, assepsia, conservadorismo, ficha suja, infidelidade, oportunismo, populismo. Esse acervo serve para enquadrar um perfil.
 
Em francês
 
Santiago Dantas, ministro de Relações Exteriores, ministro da Fazenda, deputado Federal/MG, foi, um dia, à Polônia para receber o título de doutor honoris causa da Universidade de Cracóvia. Na hora da solenidade, deu-se conta de que tivera tempo de preparar por escrito o discurso de agradecimento. Era a tradição. Mas era preciso não ser indelicado. Chamou Marcílio Marques Moreira, seu assessor, pediu-lhe algumas folhas em branco, levantou-se com elas nas mãos e, fitando-as com firmeza, pronunciou longo discurso em francês, como se estivesse lendo. Só Marcílio sabia, segundo relato do amigo Sebastião Nery.
 
Fonte:
 

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