Porandubas Políticas por Gaudêncio Torquato

12/08/2017 05:16
Porandubas Políticas
Gaudêncio Torquato
Por Gaudêncio Torquato
 
Abro a coluna com a querida Mossoró/RN.
 
Tortura diocesana
 
Convidado especial para evento comemorativo do centenário do Colégio Diocesano Santa Luzia em Mossoró, o ex-governador Lavoisier Maia boceja, mas segura o sono e a impaciência ante a série de discursos. Quando o professor João Batista Cascudo Rodrigues inicia relato sobre a história do Diocesano, Lavoisier quase capitula. O hábito de oratórias de longo curso, lavra de Cascudo, se confirma.
 
- "Ele ainda está em 1927. Até chegar aos 100 anos...", angustia-se.
 
Terminando o discurso de Cascudo, um balé de alunos do colégio desliza no local, entremeado pelo texto "Os artigos poéticos vão sendo reproduzidos, com pausas e o serpentear de bailarinos e bailarinas". Virando-se para o lado, Lavoisier cochicha:
 
- "Diga-me uma coisa, esse estatuto tem quantos artigos mesmo"?
 
- São 100, governador – exagera o interlocutor.
 
- Ah, meu Deus, querem me matar!
 
(Carlos Santos, Só Rindo 2)
 
Saturação
 
O ar está saturado. A observação, comum em ambientes contaminados por fumaça ou gás, é aqui transportada para o espaço político. As pessoas não aguentam mais as baterias de escândalos, denúncias, malfeitos e desvios de toda a ordem, envolvendo políticos, governantes, empresários e burocratas. Mais: estão saturadas com as cavalares coberturas jornalísticas dando conta do quadro político. A população quer virar a página.
 
Mesmice
 
O efeito causado pelas doses sempre elevadas e continuadas de denúncias sinaliza cansaço pela mesmice. O telespectador associa a denúncia do dia ao escândalo da noite anterior. Desse modo as mensagens entram na conta do déjà vu, coisa vista e registrada. A banalização informativa canibaliza a novidade. A semântica da crise aponta: a teia de corrupção é um novelo sem fim. É razoável acreditar na hipótese de que o jogo político está servindo a uns, aqueles que se esforçam para aumentar sua visibilidade midiática.
 
O ócio
 
"Deveriam ter posto a ociosidade contínua entre as penas do inferno; parece-me que, ao contrário, a puseram entre as alegrias do Paraíso". (Montesquieu)
 
Janot
 
Rodrigo Janot, o procurador-Geral, tenta elevar as tensões com sua estratégia de fazer denúncias continuadas. Sua imagem adentra o compartimento dos vingadores. Mostra-se disposto a pegar de qualquer jeito o presidente Michel Temer. Calibra o tempo para jogar mais bombas. Ou flechas como prefere chamar seus tiros. Nos meados de setembro, sai da PGR. Diz-se que gozará a aposentadoria. Outros acham que será alvo de processos.
 
Desqualificado?
 
O ministro Gilmar Mendes, conhecido por não ter papas na língua, diz abertamente que Janot presta um desserviço à Justiça. E que o STF está refém de seus atos. Chega até a dar "adeus" ao procurador, desejando a ele boa viagem. Segunda-feira, disse que o PGR é mais desqualificado da história e sem preparo jurídico nem emocional. Janot deu ampla entrevista a um grande jornal prometendo continuar na trincheira de guerra.
 
O estudo
 
"O estudo foi para mim o soberano remédio contra os desgostos da vida, e não tive jamais uma tristeza que uma hora de leitura não me tenha tirado". (Montesquieu)
 
Terá consequências?
 
As novas flechadas que Janot atirará contra Temer ameaçam não ter o mesmo impacto que as primeiras. A Câmara já não teria receio de continuar a votar a favor do presidente, passando a entender novas denúncias contra ele como uma "guerra pessoal" do PGR. Por outro lado, os parlamentares pretendem construir uma fortaleza de defesa: são alvos permanentes da PGR. Terão sucesso? A Lava Jato vai continuar.
 
Reformas
 
O continuado tiroteio contra a figura presidencial pode atrasar o cronograma de reformas. Mas a pergunta persiste: arrefecerá a mobilização dos representantes? A sensação é a de que urge encontrar saídas para a crise. Sob essa leitura, grande parcela da Câmara defende a sustentação do governo, sob a expectativa de que a planilha reformista poderá ser a alternativa para o país voltar a respirar ares sadios.
 
Justiça
 
"Uma coisa não é justa porque é lei; mas deve ser lei porque é justa". (Montesquieu)
 
Viabilidade
 
O que seria viável, hoje, em matéria de reformas? Vamos lá: a reforma previdenciária deverá abrigar dispositivo que trata da transição do sistema velho para o sistema novo. A questão da idade deverá receber leve alteração. Será possível sua tramitação e aprovação em setembro? Rodrigo Maia diz que sim. O governo contaria com os votos do PSDB – que promete votar em peso na reforma da Previdência -, dos ausentes (19) e até das abstenções. Não seria impossível alcançar o quorum de 308. A reforma política deve contemplar apenas dois aspectos: uma cláusula de barreira mais leve e o fim das coligações proporcionais. É razoável contar com essas duas decisões.
 
Tributária
 
Na área dos tributos, é possível fazer-se alguma simplificação, principalmente no sentido de evitar a continuação da guerra fiscal entre Estados. Buscar, porém, meios para aumentar impostos é meta arriscada. O país está no limite de sua alta carga tributária. O setor de serviços se queixa da Fazenda, que quer usá-lo como alvo para seus próximos tiros.
 
Crueldade
 
"Um turco se encontrou um dia com um canibal. 'Sois muito cruéis', disse o maometano, acrescentando: 'comeis os cativos que fazeis na guerra'. 'E o que fazeis dos vossos'?, replicou o canibal. 'Ah, nós os matamos. Mas, depois que estão mortos, não os comemos'. "Parece-me que não há povo que não tenha sua crueldade particular". (Montesquieu)
 
Por amor
 
Neymar garante que não foi o dinheiro que o levou ao PSG a abandonar o Barcelona. Este analista da política mete aqui o bedelho na área esportiva, da qual pouco entende: foi por amor... ao dinheiro. Claro, 222 milhões de euros, mais de R$ 820 milhões.
 
As melhores leis
 
Sólon, o legislador grego, perguntado se as leis que outorgara aos atenienses eram as melhores, respondeu: "Dei-lhes as melhores que eles podiam suportar". É o caso de indagar: e no Brasil? Os nossos legisladores dirão que as leis até são boas, mas difíceis de aplicar. Temos a sensação de que o país navega nas ondas da impunidade.
 
Renan na oposição
 
Renan Calheiros saiu da liderança do PMDB no Senado para se agregar ao exército da oposição. 75% dos alagoanos querem que ele seja oposição. Que já tem dois senadores peemedebistas: Roberto Requião e Kátia Abreu. Renan acena apoio a Lula em 2018. Mas Heloisa Helena está na cola dele. Renan conta com o apoio de Lula. Terá? Lula será candidato?
 
Kátia saindo
 
Kátia Abreu estaria preparando as malas para deixar o PMDB. Deverá escolher um partido menor. Onde ela possa ser também cacique, não mera figurante.
 
Veto à política? E o voto?
 
O eleitorado, ante a bateria de escândalos, dá um veto à política e aos seus protagonistas. Donde emerge a questão: votará em quem? Pois bem, alguns perfis novos terão preferência do eleitorado, principalmente em cidades grandes e médias. Mas o eleitor do Brasil profundo continuará a dar o voto aos amigos ou aos caciques de ontem e de hoje. A conferir.
 
Pesquisa
 
O Instituto Paraná Pesquisa, dirigido por Murilo Hidalgo, fez abrangente pesquisa sobre as tendências do eleitorado. Nas próximas eleições para deputado, o eleitorado, em sua grande maioria (63,2%) tende a votar em um nome que não tenha exercido cargo público, ou seja, novo na política, enquanto 16,9% apontam que votarão em quem já seja ou tenha sido deputado Federal.
 
Na hora H
 
Uma coisa é o eleitor responder a uma pergunta de pesquisa muito tempo antes da eleição. Outra é o voto na hora H. O eleitorado costuma sinalizar desejos e expectativas. Mas acaba votando frequentemente nos nomes tradicionais.
 
Culto ao presidencialismo
 
Nossa cultura política exerce grande atração pelo presidencialismo. Presidente disso, presidente daquilo...é uma expressão onipresente. Em 1980, no final do Campeonato Brasileiro, o Flamengo ganhou por 3 a 2 do Atlético Mineiro, em polêmica partida disputada no Maracanã. O árbitro expulsou três jogadores do Atlético, a bagunça tomou o campo e agitou os nervos. No fim, transtornado com o "resultado roubado", Elias Kalil, então presidente do Atlético, exclamou aos berros: "Vou apelar para o presidente da República, João Figueiredo! Vou falar pra ele de presidente para presidente"! Talvez tenha chegado a hora de experimentarmos novamente o parlamentarismo.
 
Doria e Alckmin
 
João Doria e Geraldo Alckmin são irmãos. João, o mais novo, tem sido fiel aliado de Geraldo. Há um acordo tácito entre eles. Quem tiver melhores condições – índice de votos – nas pesquisas terá a preferência. Mesmo assim, João acredita que Alckmin deverá ser o candidato tucano à presidência em 2018. Cada qual com seu tempo. Mas uma coisa é certa: se as circunstâncias assim o determinarem, João Doria partirá para a luta. Até porque o prefeito de São Paulo sabe costurar tecidos desfiados, como este exibido pelo PSDB, um partido muito dividido.
 
Polarização
 
O PT não tem jeito. Está no centro da crise política, desde os pecuniários idos do mensalão. É vidraça todo tempo. O governo do PT abriu o maior rombo das contas públicas no país. Abriu a maior recessão econômica da história brasileira. Separou o Brasil de alto a baixo, com sua visão do "Nós e Eles". Mas sua militância vai às ruas para pedir honestidade e ética. Ganha o Prêmio de Caradurismo. Começa a querer polarizar a luta política. Parte para as agressões. Será difícil elevar a bandeira da polarização face a outras candidaturas que aparecerão no cenário. Ou seja, não teremos apenas PT x PSDB.
 
Gleisi conturbada
 
A presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, parece conturbada. Ou perturbada? Faz elogios ao governo de Nicolás Maduro, que ganha ares de ditador. O petismo todo bate palmas às loucuras do ex-caminheiro que sucedeu a Chávez. O que dizer da repressão venezuelana? O que dizer de um país cuja população passa fome? O que dizer de um território sem liberdades?
 
Deputados?
 
A propósito, Gleisi e o senador Lindbergh anunciam que serão candidatos a deputado, não mais a senadores. Por quê? Medo de derrota? Ou vão tentar ficar sob o abrigo do foro privilegiado como deputados?
 
Impostos
 
Os brasileiros já pagaram R$ 1,3 trilhão em impostos nesse ano.
 
Fecho a coluna com Mossoró/RN.
 
Um preso, um solto
 
À saída de solenidade ao lado da candidata a prefeito de Mossoró, deputada estadual Larissa Rosado (PSB), o então secretário-Geral do PT José Eduardo Cardozo é abordado pelo popular "Paulo Doido".
 
- Ei, me dê um real.
 
Ponderado, o petista justifica-se:
 
-Amigo, eu não posso lhe dar dinheiro, se não a gente vai preso.
 
Mostrando-se mais sensato, Paulo contra-ataca:
 
-Eu sou doido, não vou preso não; quem vai preso é você!
 
 
Fonte:
Gaudêncio Torquato
 

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