Porandubas Políticas - Porandubas nº 457

19/08/2015 17:45

Porandubas Políticas - Porandubas nº 457

Por *Gaudêncio torquato

Gaudêncio Torquato

Abro a coluna com pitadas de humor, pinçadas dos hilários "causos" narrados pelo amigo Sebastião Nery, em seu Folclore Político.

Uni-vos

Do escritor Graciliano Ramos ao escritor James Amado (irmão caçula de Jorge Amado)

- A Revolução Socialista não foi feita no Brasil por causa do português.

Pichavam nos muros o slogan de Marx :

- "Trabalhadores do mundo, uni-vos".

- Mas quem pichava e quem lia não sabia o que era uni-vos.

Nem você, Maria ?

Romeu de Avelar, jornalista, escritor, candidatou-se a deputado em Alagoas. Um desastre. Na seção em que votou com a mulher, apareceu apenas um voto.

- Mas, Maria, nem você votou em mim ?

- Querido, todo dia, no café da manhã, você me dizia que já estava eleito. Para não desperdiçar meu voto, votei no compadre Chiquinho.

O jardim

Pedro Duarte de Oliveira, chefe de gabinete do deputado Guilherme Palmeira, presidente da Assembleia Legislativa, saiu candidato a vereador em Maceió, pela Arena. Foi fazer comício em um bairro :

- Vejo aqui um jardim. Os homens são as plantas. As crianças são as rosas. As mulheres, as trepadeiras.

Não acabou. Derrubaram-no do palanque.

P. S. Bem feito, queria bancar o machista (Nota da coluna)

João Botelho (1908-1976), interventor no PA, ex-deputado estadual e Federal, constituinte em 1946, fazia, ele próprio, o alistamento eleitoral do interior. Foi a Tucuruí.

- Caro amigo : o seu nome ?

- Pedro.

-Pedro ? Nome do apóstolo, fundador da Igreja, discípulo de Cristo. "Pedro, tu és a pedra e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja". Belo nome, belo nome. Pedro de quê ?

- Da Silva.

- Silva ! O senhor sabe que pertence a uma das famílias mais importante do Brasil ? Não há Estado, cidade, vilarejo, em que não haja um parente seu.

Silva, Pedro Silva. Que nome !

-Data do nascimento ?

- 7 de setembro de 1930.

- O meu dileto amigo nasceu no Dia da Pátria, no ano da grande revolução. É um privilegiado. Pedro Silva do dia 7 de setembro, é demais. Nomes de seu distinto pai e de sua digníssima mãe ?

- Meus pais são falecidos, deputado.

- Console-se, meu amigo. No dia do Juízo Final, ressuscitaremos todos. E não esqueça de dar seu voto aqui para seu amigo.

Marcelo Navarro

Este eu conheço. Uma das melhores cabeças de juízes do Brasil. Um estudioso do dever. Umschollar no melhor sentido do termo. Um perfil com pós-doutorado, raro no Brasil. Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, desembargador Federal do Tribunal Federal da 5ª região, foi indicado pela presidente Dilma para o STJ. Apoiado pelas Academias e pelos maiores expoentes do Direito e da Justiça no Brasil. Unanimidade entre governadores do Nordeste com os aplausos de partidos políticos. Por seus méritos. A imprensa, sem ir a fundo, vai longo dizendo : indicação de um fulano ou de um beltrano. Errada. Deveria conhecer o intelectual, o preparado Marcelo. Um potiguar que orgulha o universo do Direito e da Justiça.

A onda de agosto I

Vamos à análise sobre a onda de manifestações de agosto, a terceira, ocorrida domingo passado. Eis o que mostra : 1. A consciência crítica da sociedade, como um todo, se eleva a cada onda ; 2. Não importa a quantidade de pessoas ; o foco, a unidade de ação e o pensamento, agora, passaram a evitar a dispersão ; 3. O evento foi expressivo, mas não estrondoso ou espetacular ; 4. As classes médias continuam dando o maior tom na orquestra social ; 5. SP, como epicentro dos acontecimentos de rua, exerce a função de círculo concêntrico maior, disseminando a estética da mobilização pelos espaços nacionais ; 6. Lula, como um dos três alvos principais – ao lado de Dilma e do PT – foi a grande novidade.

A onda de agosto II

7. A corrupção, a velha política, os partidos políticos serviram de pano de fundo para os discursos, ao lado das palavras de ordem pedindo o afastamento da presidente e alvejando Lula e o PT ; 8. O foco do discurso tornou-se mais preciso que as mensagens dispersas de eventos anteriores ; 9. O refluxo quantitativo ocorreu na esteira de uma ação política mais vigorosa, com Dilma correndo regiões do país e passando a conversar com líderes partidários. 10. O trabalho do articulador político, vice-presidente Michel Temer, tem sido fundamental para dar respiro ao governo ; 11. A agenda Brasil, capitaneada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, ajudou Dilma a sair do canto do ringue ; 12. A tese do impeachment se arrefece, também por falta do leit motiv e sob o argumento de que qualquer ato, sem a cobertura da lei, é golpismo.

Os caminhos

O caminho mais apontado, o do impeachment, fica distante. Sua possibilidade depende de desaprovação das pedaladas fiscais pelo TCU ou pela desaprovação de contas de campanha pelo TSE. Sejamos claros : para que Dilma seja impedida pelo Congresso, é preciso o fator causal. Até o momento, trabalha-se com hipóteses. Vale esclarecer : nada ocorrerá fora da letra constitucional. Driblar a lei seria golpismo, coisa inviável na atual conjuntura. Agirão como indutores do estado social componentes do que chamamos de Produto Nacional Bruto da Infelicidade (PNBInf) : dinheiro curto, carestia de vida, desemprego, serviços urbanos precários, etc.

O balão da opinião pública

Sob essa paisagem devastada, as manifestações ganham volume e a animosidade social se expande. O fluxo das pedras do dominó seria este : balão da opinião pública inflado pela Lava Jato ; economia estrangulada puxando a insatisfação ; indignação manifesta nas ruas ; força social, como aríete, pressionando Tribunais e empurrando vãos dos Poderes ; Parlamento tomando decisões sob o calor das ruas. Ou, no contraponto, pedras do dominó balançando, mas não caindo. Palácio do Planalto pichado, porém, em pé.

Articulação do governo

As hipóteses de agastamento se enfraquecem na esteira de forte articulação política sob a esfera do governo. Pode ser que a operação Lava Jato traga mais dados que atinjam diretamente a presidente, Lula e outros. O imponderável está à espreita. Mas, a continuar a onda informativa nos volumes que vemos, a presidente Dilma chegará ao final de seu mandato. Desgastada, mas não impedida. A tese da continuidade é, portanto, a mais provável. Renúncia está fora de seu calendário. A substituição pelo vice presidente Michel Temer também é uma hipótese, sempre vinculada à deterioração das molduras econômica e política.

Efeitos

Quais os efeitos da mobilização do dia 16 sobre a vida institucional ? Do ponto de vista de resultados imediatos, nada. Os efeitos são indiretos : pressão sobre a esfera política ; pressão sobre os órgãos de controle e o Judiciário (TCU, TSE, MP, etc.) ; consolidação da camada crítica da sociedade sobre a velha política ; aceleração de votação de temáticas urgentes para equacionamento da crise ; oxigenação do clima social.

Descendo a ladeira

A economia, como sempre lembro, é a locomotiva do trem. Se continuar a agravar o bolso dos consumidores, crescerá a insatisfação. E, com esta, a crise política também entra no atoleiro. Na frente política, o acirramento tem data e hora para acontecer. Nas próximas duas semanas. Nesse ínterim, Rodrigo Janot passará pelo crivo do Senado. E, na sequência, deverá puxar de seu bornal os primeiros políticos da operação Lava Jato : o senador Fernando Collor e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Ambos rechaçarão as denúncias. O verbo subirá ao patamar mais elevado da fervura. O STF abrirá o capítulo político da Lava Jato. O Brasil descortinará a balbúrdia da Torre de Babel.

A ajuda de Renan

O presidente do Senado, Renan Calheiros, quer resolver a parada das desonerações e fechar o pacote fiscal para ajudar o Governo. "Há um espaço muito grande no Senado Federal no sentido de tirar aquele cadáver insepulto da nossa pauta", afirma. A ideia de Renan é trabalhar com líderes uma estratégia que leve a aprovação da pauta e abrir caminho para a retomada normal dos trabalhos. Sobre o projeto da reforma do PIS/COFINS, lembra que há um esforço para que essa discussão comece. Aguarda a proposta do governo Federal.

Contra o impeachment

Algumas confederações, a partir da CNI, elaboram um documento contra a ideia do impeachment da presidente Dilma. Defendem o império da ordem.

Eduardo e Renan

Lauro Jardim, no seu Radar de Veja, registra a diferença entre Eduardo Cunha e Renan Calheiros, na perspectiva de um peemedebista não identificado : Renan Calheiros não tem fígado ; e Eduardo Cunha só tem um órgão, o fígado. Façam suas ilações.

Saídas para a crise ?

Há diagnósticos a rodo, como se diz no vulgo. Instituições, associações, federações, sindicatos, enfim, entidades de todos os tipos fazem os mais completos apanhados sobre a realidade brasileira. Mas, do ponto de vista de saídas, propostas, alternativas de curto, médio e longo prazos, quais as mais viáveis ? Como operacionalizá-las ? Nessa direção, a TV Cultura de SP, com o apoio da OAB/SP, Centro de Estudos Avançados da USP e da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, realizará uma campanha intitulada "Saídas para a Crise". Constará de uma densa agenda, a se iniciar dia 27 próximo, composta por programas especiais, inclusive dois programas Roda Viva ; debates entre especialistas em seminário de dois dias na sede da OAB ; produção de um documento a ser entregue aos comandos institucionais e, posteriormente, a edição de um livro.

Lula não está morto

Luiz Inácio está combalido dos tiroteios que vem sofrendo na mídia, principalmente pelos comentaristas de política. Registrou-se, nos últimos dias, um tiro ao alvo ao coração de Lula. Dados sobre suas finanças foram vazados. O Instituto Lula foi atingido por uma bomba caseira. Terá grandes dificuldades de voltar a comandar o país. Seu gogó palanqueiro não está tão afiado como antes. Os círculos concêntricos produzirão marolas no centro do lago, ajudando a desconstruir sua força junto às margens. Mas a política é como Fênix ; seus atores podem ressurgir das cinzas. Lula não está morto. Senador ou deputado, quem sabe, Lula seria o refundador do carcomido PT. Ele pode reaparecer nos cenários do amanhã como o opositor ao status quo. Lula conhece o caráter mutante das massas. A conferir.

Debray

O filósofo e ex-guerrilheiro francês Regis Debray esteve, semana passada, no Brasil. Vejam o que disse ao jornal O Globo : "Na década de 60, os comunistas tinham certeza que iriam colocar as religiões nos museus. Mas o que vemos nos anos 2000 é justamente o inverso : a religião colocou o comunismo nos museus. O distanciamento da política volta a trazer um sentimento de pertencimento étnico e religioso, que leva à sensação de proteção, autoestima e dignidade que antes era oferecida pelo sistema político. E quanto mais a política se corrói, mais os movimentos religiosos passam a assumir o seu papel — afirma, citando a desintegração dos partidos laicos em países como Iraque, Síria e Índia. — Os netos vão a mesquitas, templos e sinagogas. Os avós não estavam nem aí para isso. Quiseram estatizar o Islã, e agora o Islã está tomando o Estado".

PT nas ruas

O PT comanda, dia 20, uma manifestação pública em "defesa da democracia". É prudente ? Contará com pouca gente. Mas é um ato para energizar as bases. O PT começou, ontem, a campanha de chamamento com as inserções publicitárias a que tem direito. Vai acirrar o conflito.

Correção do FGTS

O governo deverá apresentar proposta para um aumento escalonado do FGTS a partir de 2016. "O projeto está na pauta de hoje e está sendo discutido um acordo que dê ganhos ao trabalhador e que se tire as dúvidas que tem sobre o impacto do financiamento social da habitação. Está se tentando chegar um acordo que escalone a entrada, o aumento dos rendimentos das contas do FGTS, a partir de 2016". É o que diz o líder do PMDB, Leonardo Picciani.

Perguntas

Este consultor tem tentado responder a perguntas complexas. Vejam algumas : a economia encurtará mais o dinheiro no bolso ? A inflação chegará aos dois dígitos ? O governo terá arsenal para batalhar por sua salvação ? Haverá espaço para acomodar a nova base política ? Terá condições de resistir ao tiroteio ? Nos últimos dias, a agenda Brasil abriu um respiro nos pulmões governamentais. Na arena de guerra, prevê-se que o fogo da PGR queimará o comandante da Câmara. Terá, porém, ele condições de resistir caso o STF acolha algum pedido para seu afastamento ? É certo que a luta entre as instâncias de investigação (MP, Judiciário, PF) e a tropa política será longa, ensejando conflitos até as margens eleitorais do amanhã. Quem vencerá ?

 

Fonte: Gaudêncio Torquato

*Gaudêncio Torquato é Jornalista, consultor de marketing institucional e político, consultor de comunicação organizacional, doutor, livre-docente e professor titular da Universidade de São Paulo. É diretor-presidente da GT Marketing e Comunicação.

 


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