Português ri por último - José Roberto de Toledo

11/07/2016 17:45
- O Estado de S. Paulo
O importante é continuar em campo, permanecer no jogo, mesmo que à distância. Políticos brasileiros seguem o modelo de Cristiano Ronaldo durante a final da Eurocopa. Escoiceado por relinchante adversário, o português foi ao chão, chorou, entregou a faixa de capitão e saiu – mas ficou ali, na beirada. Qualquer semelhança com lance visto dias antes durante renúncia à presidência da Câmara não é mera coincidência. Eduardo Cunha saiu para ficar. Continua em campo, permanece no jogo. Só não é mais capitão.
 
O deputado do PMDB fluminense cumpriu o roteiro dos manipuladores de fantoches que se cansam da escuridão da coxia e tentam encarar os refletores do outro lado das cortinas. Não resistiu ao calor das lâmpadas e saiu do palco, não do teatro. Longe da ribalta – esperam ele e seus colegas de partido – a temperatura vai baixar e, quem sabe, ele possa manter o mandato.
 
Não fosse esse o plano, o presidente interino Michel Temer teria aconselhado o aliado a renunciar não apenas ao comando da Câmara, mas também à vaga de deputado. Mas não, a pressão dos “amigos” foi para Cunha sair de cena, jamais para abandonar a trupe. Agora vem o recesso branco em Brasília, depois vem Olimpíada, o interesse público muda de foco, e a chance de, em uma votação apressada, faltar quórum na Câmara para cassá-lo aumenta.
 
Não há nada de original na tática. Renan Calheiros batizou-a com seu nome ao colocá-la em prática com sucesso já se vai quase uma década. Troca-se a presidência do Senado pela da Câmara e segue o espetáculo. O interesse esta semana já é outro: quem ocupará a cadeira deixada vaga. Despopulada de caciques, a Câmara se divide entre mais de uma dezena de índios aspirantes. Um deles vai sair do anonimato para ocupar o posto que – como Cunha provou – tem o poder de, sozinho, desestabilizar um governo e, com a ajuda de uma crise econômica, derrubar um presidente.
 
Embora haja tucanos entre os pretendentes, os favoritos pertencem ao “Centrão” – o aglomerado amorfo de partidos fisiológicos que ocupou o protagonismo político na Câmara, deixado vago por PT e PSDB em sua luta de exterminação mútua. Foi nesse vácuo de lideranças que Cunha deitou e rolou, com a ajuda de um bem azeitado esquema de financiamento político – que a Operação Lava Jato conseguiu expor e asfixiar, através da prisão e delação de seus operadores do lado empresarial.
 
Falta ainda o braço político. Falta esclarecer quem e como Cunha apadrinhou em sua escalada desde os bastidores até o palco principal. Quem são os 150 ou 160 deputados que ele ajudou pelo caminho? Foi justamente para evitar que isso se tornasse público que Cunha foi pressionado a renunciar à presidência da Câmara, com empenho de melhores esforços por parte dos ingratos beneficiados para mantê-lo em campo, para mantê-lo no jogo.
 
Embora o Ministério Público mantenha a tão necessária – e tão ausente em outros tempos – determinação investigativa, o desmembramento da Lava Jato e a descentralização do processo por vários juízos tem se mostrado um caminho tortuoso. Uma mistura de decisões precipitadas e recursos a tribunais amigos deteve e rapidamente libertou investigados antes que eles se sentissem inclinados a delatar alguém. Sem esse elemento de pressão (ou chantagem, diriam os advogados dos investigados), a operação corre cada vez mais risco de acabar antes de chegar ao fim.
 
A cada decisão de primeira instância revisada – justamente ou não – por cortes superiores, os investigados respiram aliviados. Formam-se assim as condições para que os jogadores da política se mantenham em campo, alguns se arrastando, outros gritando, mas quase todos participando do jogo. Vale para eles a inspiração do craque português, campeão da Europa desde o banco de reservas: tudo bem chorar primeiro se for para rir depois.
 
 

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