Problema errado - Celso Ming - Estadão

11/11/2015 21:16

ESTADÃO 


O PT pegou um bode do ministro da Fazenda, como se o problema fosse ele

Para usar uma expressão popular, o PT pegou um bode do ministro da Fazenda. Quer porque quer a demissão dele, como se o problema fosse ele.

Há quatro semanas, o ex-presidente Lula avisou que “o ministro perdeu o prazo de validade”. Depois, se mudou de ideia, não foi por muito tempo. Agora os petistas preferem dizer que “Levy não entregou o que prometeu”, sem levar em conta que ele só não entregou porque seu programa de saneamento das finanças públicas e de virada do jogo está sendo boicotado por toda parte: no miolo do governo, no Congresso, por um vasto grupo de empresários e até pela oposição, que tem votado contra seus projetos de lei, pretendendo com isso deixar que a presidente Dilma continue sangrando politicamente.

O motivo verdadeiro desse bode é a crescente deterioração da economia. É a inflação que cavalga em direção aos dois dígitos, é a atividade econômica que desaba para uma retração do PIB de pelo menos 3% e é o desemprego que avança para os 10%.

Como tudo o que é sólido vai se desmanchando no ar e como o calendário eleitoral avança inexoravelmente para outubro de 2016, os políticos se desesperam. Querem distribuição de pacotes salvadores, baseados na fartura de crédito, distribuição de recursos subsidiados e derrubada drástica de juros. É abaixo a austeridade, pelo menos até as eleições. Depois se vê no que dá e se juntam os cacos, se for o caso.

Para esse projeto eleitoral, Joaquim Levy e seu mantra do ajuste fiscal como precondição da retomada do crescimento são sérios obstáculos.

Para substituir o bode a ser expulso porta afora, a todo momento os companheiros do PT se lembram do ex-presidente do Banco Central que um dia o então presidente Lula chamou de “companheiro Henrique Meirelles”.

Ele pode ter um estilo diferente, pode manter um sorriso sempre disponível no canto da boca, mas pensa do mesmo jeito. Os petistas que acusam Levy de fazer o jogo dos banqueiros parecem se esquecer de que Meirelles foi presidente mundial do grupo FleetBoston. À frente do Banco Central, mesmo no auge do ciclo das vacas gordas e da farta receita do País com commodities, tratou de colocar em prática uma política monetária (política de juros) apertada, a apropriada para a época. E trombou permanentemente com o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, pela flacidez com que conduziu a política fiscal.

Dá para dizer que Meirelles pode ser mais maneiro do que Levy, digamos assim, mas é movido pelas mesmas convicções ortodoxas. Ele sabe, também, que não dá para brincar e pedalar com as contas públicas, especialmente numa paisagem adversa, em que o conjunto das fatias reivindicadas é substancialmente maior do que o bolo da renda nacional.

Soltar o crédito agora significa implodir a política monetária, a única âncora que ainda segura a inflação em alguma coisa. Se a política fiscal continuar desandada, essa composição é desastre anunciado, com resultado correspondente nas urnas.

Por isso, é pouco provável que um administrador público responsável aceite tocar a Economia nessas condições. Que pensem nisso os bodeados.


CONFIRA:

Aí está a evolução da produção de grãos em milhões de toneladas.

Avaliações divergentes

Desta vez, os dois organismos que fazem a previsão das safras chegaram a conclusões diferentes. O IBGE estima que a produção de grãos de 2016 alcançará os 206,5 milhões de toneladas e será 1,9% menor do que a anterior. A Conab aponta para algo entre 208,6 milhões e 212,9 milhões de toneladas, crescimento de até 2,1%. Mas ambos concordam em que a produção de soja ultrapassará os 100 milhões de toneladas, o equivalente à metade da produção de grãos.