Que a visita do Papa a Uganda traga um raio

24/11/2015 21:19

Que a visita do Papa a Uganda traga um raio de luz, diz Bispo de Lira

Campala (RV) – Uganda será a segunda etapa da viagem do Papa Francisco à África. Proveniente do Quênia, o Pontífice chegará à Entebe na tarde de sexta-feira, 27 de novembro. Sobre as expectativas da visita do Papa ao país, a Rádio Vaticano ouviu o Bispo da Diocese ugandense de Lira, Dom Giuseppe Franzelli:

As expectativas são muitas, porque claramente os católicos, mas também toda a população ugandense, está cheia de entusiasmo pela ideia de que o Papa Francisco venha nos encontrar. Entre outras coisas, também estamos um pouco orgulhosos – e penso que o Senhor nos perdoará – porque Uganda será o único país africano a ter a visita de três Papas: Paulo VI em 1969, João Paulo II em 1993 e agora o Papa Francisco. Esta expectativa é grande, tanto que existem muitíssimas pessoas que gostariam de vir a Campala para encontrá-lo, algo que, evidentemente, não será possível a todos. Mas esta expectativa se baseia no fato de que as pessoas entenderam quem é Pedro, que segundo a missão que lhe confiou Jesus, vem visitar, confirmar na fé os seus irmãos. O tema da visita do Papa é a citação dos Atos dos Apóstolos “Vocês serão minhas testemunhas”, e é um tema que se relaciona diretamente ao evento que será celebrado, isto é, o 50º aniversário da canonização dos 22 mártires de Uganda. Então são justamente os mártires – “mártires” significa “testemunhos” – que nos convidam a nós católicos a refletirmos, e também aos não-cristãos, sobre a qualidade e a força da nossa fé hoje, em Uganda, para ver se também nós, como eles – na maioria eram jovens -  somos capazes de sermos firmes na nossa fé, sem comprometimentos com outras coisas, sem medo. É um desafio grande e por isto nós esperamos – e rezamos – para que a visita do Papa traga um fortalecimento, uma renovação de que a Igreja Católica em Uganda, e também todo o país, tem, sem sombra de dúvida, necessidade”.

RV: Que país o Papa Francisco encontrará?

Um país que em 9 de outubro passado celebrou o 53° aniversário de sua independência. 53 anos em que tantas coisas bonitas aconteceram e pelas quais agradecemos ao Senhor: o desenvolvimento que houve e assim por diante. Mas também 53 anos que viram um país ser ensanguentado por revoltas internas, golpes de Estado e assim por diante, que no geral viram sempre quem chegava ao poder se vingar contra quem estava antes, dividindo assim o país. É, portanto, um país ferido. No que diz respeito ao norte, a parte onde atuo como Bispo de Lira, nós acabamos de sair, há poucos anos, de mais de 20 anos de rebelião do Lord’s Resistance Army (Exército de Resistência do Senhor), de Joseph Kony, que destruiu tudo aquilo que era possível e dividiram as famílias. E agora existe uma grande necessidade de reconstrução que não é somente material, de edifícios destruídos, de estradas que não existem mais, mas de uma reconstrução, eu diria, da fibra moral da população e também dos valores cristãos que foram esquecidos ou contrapostos com estas violências, mutilações, sequestros e assim por diante, e pelo desejo de que existe de vingar-se; ou mesmo de recuperar-se deste trauma, pois ao menos a nossa população no Norte é uma população traumatizada por estes eventos e serão necessárias duas gerações, penso, para superar isto. Mas isto não quer dizer que no restante do país não existam problemas. Existem duas visões do ponto de vista étnico e político. É uma democracia bastante frágil, onde por anos houve um partido único e onde mais tarde entrou o multipartidarismo, com uma tendência a olhar quem é de um partido, de um grupo diferente, não como um irmão e irmã da mesma família, que tem ideias diferentes, mas como inimigo. Isto está aparecendo mais ainda agora, porque estamos em um período pré-eleitoral, e em fevereiro do próximo ano haverá eleições. Nós já advertimos como os ânimos estão se exaltando. Esperamos e rezamos, portanto, de que a vinda do Papa Francisco, seja num certo sentido um convite à reconciliação, ao respeito recíproco, pelo fato de que somos todos filhos do mesmo Pai. E isto também a nível – diria – ecumênico, porque não é somente para nós católicos. Os mártires ugandenses são 22 mártires que nós veneramos – nós católicos – e que foram canonizados. Existem também dois mártires catequistas, jovens catequistas do norte -  Jildo e Daudi –  que foram martirizados e foram declarados Beatos. Mas junto aos 22 mártires católicos, houve também outros 22, 23 anglicanos, que também foram queimados, mortos junto com os nossos. Por que? Justamente porque eram cristãos. Então, eis que a visita do Papa, também com uma parada no local anglicano do martírio, é um convite, é um chamado para olhar mais para aquilo que nos une, do que para aquilo que nos divide”.

RV: O senhor poderia nos descrever como é a Igreja ugandense?

É uma Igreja que, entre outras coisas, é justamente o fruto do sangue dos mártires. O sangue dos mártires é precisamente semente de cristãos. Atualmente, em 34 milhões de habitantes, somos cerca de 14, 15 milhões de católicos; depois existem os anglicanos e outras denominações religiosas, sempre cristãs, além de um grupo de muçulmanos que é minoritário, especialmente em certas regiões do país; e depois as associações, movimentos leigos e assim por diante, que testemunham a vitalidade desta Igreja. Este é o aspecto positivo. Os desafios estão na coexistência da fé cristã com tradições culturais subjacentes, que seguidamente aparecem nos momentos de crise. Por exemplo, mesmo indo à missa no domingo, se na terça-feira a criança se adoenta, frequentemente, em muitos povoados, se recorre a um feiticeiro ou mesmo se exercem práticas que não estão em harmonia com o credo cristão. Existe também agora o grande desafio da corrupção, que infelizmente penetrou na vida social, econômica e política do país a níveis realmente espantosos. Mas o mal maior parece ser o fato de que muitos já o considerem como um mal inevitável; no fundo, como uma coisa normal. Existe a necessidade, portanto, de um despertar, de uma recuperação de uma vida de fé mais autêntica, que seja percebida nas obras, nas práticas externas e não somente na oração. Por isto existem luzes e sombras, como por tudo, penso, na vida da Igreja ugandense. E nós esperamos e rezamos para que a vinda do Papa Francisco traga um raio de luz e um encorajamento para fazer crescer aquilo que é positivo e dar-nos a coragem de tirar aquilo que, pelo contrário, impede uma vida cristã autêntica”.


 


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