Queda da produção industrial abala previsões para economia – Editorial / Valor Econômico

12/01/2016 21:21

A forte queda da produção industrial em novembro surpreendeu e tornou ainda mais pessimistas as projeções para este ano, contaminando as expectativas para a economia como um todo. A produção da indústria encolheu 2,4% em novembro sobre outubro, o triplo da média esperada por 17 analistas consultados pelo ValorData. No acumulado do ano, a retração chegou a 8,1%. Diante desses números, já se projeta para a indústria queda ao redor de 8% em 2015, superando o pior resultado - o de 2009 - quando teve recuo de 7,1%. Será o segundo ano consecutivo de retração da indústria, cuja produção diminuiu 3,2% em 2014 e agora volta ao patamar de aproximadamente sete anos atrás.

 

A queda na produção industrial é generalizada, atingindo 25 dos 26 ramos, 71 dos 79 grupos e 77,6% dos 805 produtos pesquisados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para levantar a Pesquisa Mensal da Indústria (PMI). O setor utiliza apenas 74,6% da sua capacidade instalada. A retração mais importante ocorreu em bens de capital, de 25,1% no acumulado de janeiro a novembro, principalmente por conta de equipamentos de transporte (30,6%). Também foi expressiva a queda na produção de bens de consumo duráveis (18,3%), puxada por automóveis (19,1%) e eletrodomésticos (22%). Bens de consumo semi e não-duráveis encolheram 6,9%; e bens intermediários, 4,9%, mostrando que toda a cadeia produtiva está mergulhada na crise.

 

A principal surpresa dos analistas em novembro foi o tombo de 10,9% da indústria extrativa, causado pelo desastre ambiental da Samarco em Mariana (MG) que reduziu a produção de minério, e o recuo de 7,8% da fabricação de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis, ocasionado pela greve dos petroleiros. Em 2014, esses foram dois dos únicos seis setores da indústria que cresceram.

 

Mas o que causa maior preocupação é o persistente recuo da produção de bens de capital, que indica queda do investimento em cenário de demanda fraca, juros elevados e menor confiança dos empresários, mais aguda na construção civil, prejudicada pelas investigações das construtoras envolvidas na Operação Lava-Jato, pela redução da oferta de financiamento para a compra de imóveis e pelo interesse menor das famílias, atribuladas com endividamento, desemprego e queda da renda.

 

A queda do consumo das famílias também influencia a fabricação de bens duráveis, como eletrodomésticos, cuja produção diminuiu 22% de janeiro e novembro; e de veículos, que teve recuo de 19,1% no mesmo período. Dados da Anfavea indicam que a produção de veículos fechou o ano com 2,4 milhões de unidades produzidas, queda de 22,8%, o que representa um retorno ao patamar de 2006; e as vendas diminuíram 26,6%.

 

O mercado de trabalho está sendo afetado em toda a indústria, que lidera a queda da renda média real do trabalhador. O rendimento médio do empregado da indústria caiu 12,5% em novembro em comparação com o mesmo mês de 2014. Nas negociações salariais do primeiro semestre, 61% tiveram reajuste abaixo da inflação. No setor automotivo, o número de empregados recuou para 129,77 mil, mesmo nível de 2010.

 

Para o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a indústria está no centro da crise econômica. A forte queda da produção esperada para 2015 e a previsão de novo recuo neste ano prejudicam as estimativas para o PIB. Pesquisa Focus feita pelo Banco Central após a divulgação do desempenho da indústria em novembro mostra que o mercado financeiro ampliou a expectativa de queda do PIB neste ano de 2,67% para 2,99%.

 

Pouco antes do Natal, o Ministério do Desenvolvimento falou em um plano para aumentar a produtividade, tornando mais eficiente especialmente as pequenas e médias empresas com a qualificação da mão de obra e renovação do parque fabril. A equipe econômica, o BNDES e o Sebrae costuram um plano a ser anunciado no próximo mês para financiar o capital de giro de pequenas e microempresas, a taxas corrigidas pela TJLP (O Globo 11/1). O plano inclui a ampliação do cartão do BNDES. O cacife do banco foi reforçado pelo pagamento das pedaladas e pode destravar o crédito também para a construção civil, a infraestrutura e as exportações. O câmbio depreciado dá impulso aos exportadores. Mas tudo isso parece claramente insuficiente para mudar de forma significativa o quadro da indústria.


 


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