Raymundo Costa: Explicações mais ou menos convincentes

02/02/2016 14:56

Dirceu podia não conhecer, mas sabia quem era Duque

- Valor Econômico

 

O depoimento do ex-ministro José Dirceu ao juiz Sergio Moro, na sexta-feira, revela uma mudança de comportamento entre os investigados ou no radar da Operação Lava-Jato. Dirceu falou mais do que sempre deu a entender que poderia falar e estabeleceu um limite para as próprias responsabilidades. No sábado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não é investigado, segundo o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça), tratou de dar explicações sobre o tríplex no Guarujá que supostamente seria de sua propriedade.

 

Vendo o cerco se fechar, Lula deu uma explicação bastante razoável e detalhada sobre o tríplex, embora tardia e cheia de contradições com o que antes dizia seu advogado de defesa. Houvesse falado há um, dois meses e teria talvez esgotado o assunto. Mas Lula fazia ar de ofendido. Desde o início ele devia essas explicações: se há uma pessoa no país que não pode dizer que não esteve em determinado lugar tendo estado, essa pessoa é Lula. Haverá sempre um porteiro para reconhecê-lo ou alguém querendo uma selfie.

 

Assim como o ex-presidente, o capitão de seu time, José Dirceu, não tinha como esconder o que era irrefragável. Segundo a defesa, Dirceu "admitiu seus pecados". A saber, a reforma de um apartamento bancada pelo lobista Milton Pascowitch, que ele ficou de pagar depois e não pagou, e pegar caronas em jatinhos de empreiteiras.

 

Dois casos em que negar seria pior. A reforma de um apartamento deixa pistas documentais, como recibos, e testemunhais, inclusive dos operários empregados na obra. Um porteiro, como no caso de Lula. Já a decolagem de um jatinho requer plano de voo, data, dia, hora e o nome dos passageiros a bordo. No mensalão, boa parte dos envolvidos não imaginava que a identificação rotineira feita na portaria do prédio onde funciona o Banco Rural serviria mais tarde de prova.

 

Dirceu recuou e incursionou por um território nunca antes desvendado por ele com tantos detalhes. Na frente do juiz Sergio Moro, o ex-ministro disse que só conheceu Renato Duque depois que ele já estava na diretoria de Serviços da Petrobras. É possível. Ao que se sabe, Dirceu arbitrou uma disputa entre Silvio Pereira e Delúbio Soares, então secretário-geral e tesoureiro do PT, respectivamente.

 

Uma das celebridades do mensalão, Silvinho entrou na Lava-Jato por meio de Fernando Moura, um lobista conhecido, amigo de Dirceu. Na Justiça, Moura refez sua delação premiada para dizer que Dirceu apenas bateu o martelo em favor da nomeação de Duque, mas que a indicação fora do antigo secretário-geral do PT (depois disse que voltou atrás por se sentir ameaçado).

 

De acordo com as investigações da Lava-Jato, Duque seria o braço do PT no esquema de corrupção da Petrobras. Nas conversas intramuros de Brasília, sempre foi o "homem do Zé Dirceu" na estatal. "Essa lenda percorre dez anos da minha vida", disse o ex-ministro. Dirceu não citou o nome de Silvinho, mas assumiu a responsabilidade pela decisão que, afinal, era da Casa Civil.

 

"Ao final desse processo [de indicações] eu concordava ou não com os nomes apresentados", disse Dirceu, "como é normal em qualquer governo presidencialista".

 

Quem acompanhou a formação do governo Lula, no seu primeiro ano, sabe que Silvinho tratou de praticamente todas as nomeações para o segundo escalão. O secretário-geral do PT recebia as indicações, anotava em uma planilha os nomes dos padrinhos políticos, seus partidos e os encaminhava ou não para a Casa Civil da Presidência. Eram centenas de currículos.

 

Havia de fato à época uma disputa entre Silvinho e Delúbio. Silvinho queria ir para os Correios e Delúbio, para o BNDES. Dirceu cortou as asas de Silvio Pereira e Lula deixou para Delúbio e o PT de São Paulo a gestão do FAT. O tripé era completado pelo ex-secretário de Comunicação do PT Marcelo Sereno, que foi para a Casa Civil trabalhar com Dirceu.

 

A triagem das indicações, no Palácio do Planalto, era feita por Sereno, nome que mais tarde ilustraria os diagramas do mensalão com Delúbio e Silvinho. O nome de Renato Duque não saiu do diretório do PT de São Paulo. Pode ser que o aprofundamento das investigações chegue até quem soprou o nome de Duque para Silvinho. Por enquanto, ele é o último elo da cadeia, antes de Dirceu "bater o martelo". Delúbio também tinha uma indicação para o cargo. Quem comparou e avaliou qual seria a melhor escolha foi Dirceu.

 

Questionado por Moro, o ex-ministro disse que não teve "nenhuma participação especial" na escolha do ex-diretor de Serviços da Petrobras. Afirmou que não fugiria de responsabilidades, mas que assumiria apenas aquelas que eram suas. Deu o seu recado. Dirceu sem dúvida podia não conhecer Renato Duque, mas sabia quem ele era, pois as planilhas de Silvinho eram completas sobre cada candidato a um cargo no governo do PT.


 


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