Raymundo Costa: Lava-Jato dá novo gás ao impeachment

23/02/2016 20:49

Operação desafia Dilma a convencer que não sabia

- Valor Econômico


O governo da presidente Dilma Rousseff acreditava piamente que estava pronto para sair da defensiva, quando foi apanhado em cheio pela 23ª fase da Operação Lava-Jato. O mandado de prisão expedido contra o publicitário e jornalista João Santana, responsável pelas principais campanhas do PT, pelo menos nos últimos dez anos, fragilizou ainda mais a posição do ex-presidente Lula, aproximou-se perigosamente da presidente da República e deu um novo gás à oposição. Hoje será instalado o "comitê do impeachment" na Câmara dos Deputados, juntando parlamentares com os movimentos de rua.

Em reunião ontem em São Paulo, líderes do PSDB chegaram à conclusão de que a prisão de Santana pode reforçar as manifestações de rua, convocadas para o dia 13 de março. Com a Lava-Jato ao pé da rampa do Palácio do Planalto, a oposição decidiu entrar formalmente na organização dos protestos. Para o presidente do PSDB, Aécio Neves, o impeachment volta a ser "prioridade zero" do partido, seja por meio do pedido em tramitação na Câmara ou via Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Uma anotação encontrada no celular de Marcelo Odebrecht - "Dizer do risco cta [conta] suíça chegar na campanha dela" - aproximou definitivamente a campanha de Dilma dos desvios na Petrobras.

 

Ainda hoje Aécio Neves deve se reunir com a bancada na Câmara dos Deputados, inquieta com os sinais trocados emitidos por seus dirigentes e líderes. Aécio dirá que a prioridade do PSDB é tirar Dilma, mas que o partido deve examinar e até aprovar propostas do governo que sejam convergentes com o que defendem os tucanos. Esse é o desafio do PSDB: fazer oposição sem transparecer que joga no quanto pior melhor. O governo tinha esperança de avançar nessa vereda, conversas que ficaram mais difíceis após a deflagração da "Operação Acarajé", como foi sugestivamente batizada a 23ª fase da Lava-Jato.

 

Aos olhos do governo, havia razão para algum otimismo. Num mesmo dia, o Palácio do Planalto comemorou efusivamente duas vitórias, uma singularidade onde o natural são as más notícias. A primeira delas a suspensão do depoimento de Lula marcado para um fórum da Barra Funda, em São Paulo, graças a uma manobra legal. A outra foi a eleição do deputado Leonardo Picciani (RJ) para a função de líder do PMDB na Câmara dos Deputados, em que pese o desgaste sofrido por Dilma pelo envolvimento ostensivo do Palácio do Planalto na eleição. Picciani não só comanda a tropa de choque anti-impeachment, como pode ser uma carta na manga da presidente para a eventualidade do afastamento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (RJ).

 

A manobra legal patrocinada pelo deputado Paulo Teixeira (PT-SP) evitou o constrangimento de Lula e de sua mulher, Marisa, terem de responder às perguntas do promotor Cássio Conserino. O desgaste político seria aceitável, se o PT armasse barricada para defender o ex-presidente. O ato de apoio a Lula na frente do fórum criminal da Barra Funda foi o principal ganho do dia, na opinião dos petistas. Teria mostrado que agora há uma unidade no diagnóstico de que a Lava-Jato é um processo direcionado para pegar o ex-presidente. O ato também teve repercussão nas redes sociais, especialmente depois da denúncia de que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pode ter usado os préstimos de uma empresa para enviar dinheiro ao exterior para a manutenção de uma ex-amante.

 

A contabilidade das boas notícias fechou a semana com a saída da prisão do senador Delcídio do Amaral (PT-MS), ex-líder do governo no Senado. Pelo menos na aparência, os integrantes do primeiro escalão do governo parecem tranquilos com a notícia de que Delcídio, em troca do alvará de soltura, assinou um termo de delação premiada. As versões são contraditórias. Fato é que o PT aos poucos foi adiando sua expulsão do partido, depois de suspendê-lo com estardalhaço tão logo foi decretada sua prisão. E não foi por falta de oportunidade ou de reunião da direção partidária.

 

No fim de semana, o diagnóstico era que houve uma retomada efetiva da iniciativa política. O governo não só demonstrara capacidade de organizar uma tropa de apoio no Congresso (eleição de Picciani), como a militância do PT fora para a rua (ato na Barra Funda). Consequência imediata era o esvaziamento ainda maior da tese do impeachment e a abertura de um espaço para o governo tentar avançar nos projetos de seu interesse. Avaliação otimista, quando se leva em conta que a reedição da CPMF e a reforma da Previdência, as propostas mais destacadas por Dilma, enfrentam resistências que permeiam os partidos, independentemente da posição de cada um em relação ao governo federal.

 

O quadro mudou entre o fim de uma semana e o começo da outra. Com as amarrações feitas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para o processamento do impeachment, o afastamento da presidente pelo Congresso continua a ser uma decisão improvável, mas voltou à ordem do dia. Na ótica mais otimista, a 23ª fase da Lava-Jato atrasa um pouco o processo de retomada da estabilidade política. É preciso deixar baixar a poeira para definir o que pode ou não ser feito agora.

 

Reforma da Previdência, por exemplo, não é tarefa para governo fraco. Não dá para fazer agora, segundo até mesmo os setores do PT que julgam a reforma necessária. E fica cada vez mais difícil. Como cada vez mais difícil fica a posição da presidente, independentemente de ser ou não comprovado que houve dinheiro da corrupção na sua campanha à reeleição. Dilma está no governo desde a posse de Lula, como ministra das Minas e Energia, e no centro das decisões do país desde 2005, quando assumiu a chefia da Casa Civil. Um dos motivos pelos quais o impeachment não andou é que a presidente era a única "não política" numa linha sucessória de alto risco com Michel Temer, Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Hoje o desafio é convencer que Dilma não viu nada do que se passou nesses seus dez anos de palácio. Talvez tenha tentado consertar por dentro o que viu. Sem êxito.