Ricardo Noblat: Opção pelo silêncio

22/02/2016 17:56

- O Globo

Não quero que meu nome fique numa rede social como uma rameira. Eu fui uma pessoa apaixonada por um homem.” Mirian Dutra

 

Salvo um fato novo, parece perto do fim o affair Fernando Henrique Cardoso- Mirian Dutra. Sobreviverá nas redes sociais alimentado por sites e blogs patrocinados pelo governo às claras ou às escondidas. Como até aqui não se comprovou nenhuma agressão à lei, o Ministério da Justiça não terá a obrigação de investigá-lo. O próprio PT, pelo menos o oficial, prefere que o assunto esfrie.

 

COMPREENSÍVEL. As redes sociais que afagam são as mesmas que apedrejam. Começaram a circular por lá fotografias de Lula, Marisa e amigos tendo ao fundo um jatinho da Brasif, a empresa que administrava lojas nos aeroportos brasileiros. Sim, a mesma Brasif que negou ter ajudado Fernando Henrique a sustentar Mirian no exterior mediante um fictício contrato de prestação de serviços.

 

JONAS BARCELLOS, DONO da Brasif, tentou vendê-la para um grupo suíço durante o segundo governo de Fernando Henrique, seu amigo. Não conseguiu. Conseguiria em março de 2006, ano da reeleição de outro amigo seu, Lula. Na época, travou- se um áspero combate no núcleo duro do PT. Uma ala, liderada pelo ex-ministro José Dirceu de Oliveira e pelo ex-tesoureiro Delúbio Soares, era favorável à venda da Brasif.

 

OUTRA, LIDERADA por Luiz Gushiken, então Secretário de Comunicação Social da Presidência da República, era contra. Gushiken temia eventuais suspeitas que o negócio pudesse despertar em ano eleitoral. Elas recairiam sobre um governo fragilizado pelo escândalo do mensalão, deflagrado um ano antes. E, ao fim e ao cabo, prejudicariam Lula e o PT. Gushiken perdeu o combate. Os olhinhos de Delúbio brilharam.

 

O EX- GOVERNADOR DE Pernambuco, Carlos Wilson Campos, Cali, acabou nomeado presidente da Infraero, a empresa federal responsável pela infraestrutura dos aeroportos. E a venda de parte da Brasif consumou-se afinal. Por US$ 500 milhões, o grupo suíço Dufry comprou dois negócios da Brasif: a operação de varejo e a Eurotrade, uma empresa de logística.

 

NA SEMANA PASSADA, tão logo repercutiu a entrevista de Mirian à “Folha de S. Paulo” contando detalhes do seu caso amoroso de seis anos com Fernando Henrique, líderes do PT apressaram- se em pedir que o Ministério da Justiça apurasse o possível ato criminoso embutido no contrato firmado por ela com a Brasif. Sugeriram que Fernando Henrique usara a empresa para ocultar dinheiro transferido por ele a Mirian.

 

A BRASIF PAGOU A Mirian depois de ter sido procurada pelo jornalista Fernando Lemos, cunhado dela. Mirian acusa Lemos, que morreu em 2012, e a irmã Margrit Dutra Schmid, com quem brigou há mais de dez anos, de terem embolsado uma fatia do dinheiro do contrato. Lemos assacou dinheiro de empresas a pretexto de ajudar Mirian a manter-se exilada na Europa como colaboradora da TV Globo.

 

A ORDEM, HOJE, dentro do PT é esquecer Mirian para não lembrar o negócio da Brasif com o grupo suíço. O PT e Lula já enfrentam problemas em excesso com a Lava-Jato. Não querem arranjar mais um. Procuradores vasculham negócios de empreiteiras brasileiras em Portugal e em países da África que poderiam ter beneficiado o PT e Lula. O silêncio de Lula é uma tática conhecida de defesa.

 

VAI QUE ELE DIZ algo que possa amanhã ser contestado? É por isso que Lula evita depor no inquérito sobre o tríplex no Guarujá e o sítio em Atibaia. Está fugindo da polícia.