Ricardo Noblat: Quem é o futuro

14/12/2015 22:38

- O Globo

Sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã.” MICHEL TEMER, em carta a Dilma

 

Dentro do PT e do governo, o clima é de desânimo. Ninguém teve coragem até aqui para dizer à presidente Dilma que o impeachment está na soleira da porta do gabinete dela, no terceiro andar do Palácio do Planalto, e talvez não demore tanto para entrar. “Infelizmente, ela já foi”, limitou-se a observar um amigo, na última quinta-feira, um dos poucos ministros que Dilma leva em conta.

 

ESTE TALVEZ seja o principal problema de Dilma: ela gosta de pouca gente; quase não confia em ninguém, nem mesmo nos que lhe são mais próximos; e tem horror a políticos. Em contrapartida, desperta os instintos mais primitivos dos que tratou mal alguma vez, ou não atendeu. Michel Temer? Esqueça. Eduardo Cunha? Não. O maior eleitor do impeachment de Dilma é ela própria.

 

OUTRO DIA, Dilma pediu aos seus ministros que a defendessem em entrevistas. Poucos o fizeram. A maioria receia dizer algo que seja mal interpretado por Dilma e lhe custe uma repreensão. Acostumaram-se ao silêncio e a jogar na retranca. Muitos acumulam mágoas. É duro ouvir gritos vez por outra. Na dúvida, arriscar-se para quê?

 

MAIS SEGURO É nada fazer que não tenha sido autorizado previamente por Dilma. Pois uma mulher que já mandou o diretor do Tesouro sair de uma reunião só porque estava despenteado... Ou que se desentendeu com a ama do Palácio da Alvorada, descontrolou-se e jogou cabides nela, que revidou jogando cabides na presidente... Dilma é uma granada sem pino.

 

FORA OS LÍDERES do governo e do PT, e esses mais por obrigação do que por gosto, são raros os políticos de peso na Câmara e no Senado que defendem Dilma, o seu governo e o seu mandato. No impeachment de Fernando Collor, os chamados cardeais do Congresso mandavam ali e conduziam seus pares. Hoje, na Câmara, manda o baixo clero. E os cardeais que restam se ocupam em conspirar no plenário contra Dilma.

 

HÁ MUITA dissimulação e esperteza. E vontade para arrancar de um governo em ruína o que ele ainda pode dar. Por mais que ele dê, contudo, ninguém quer retribuir com os votos necessários para derrotar o impeachment. De resto, Dilma tem fama de quem promete e não entrega. De resto, o vice-presidente Temer tem fama de que entrega o que promete. E ele tem mais para oferecer do que Dilma.

 

TEMER TEM o futuro para oferecer. Um futuro com as mesmas dificuldades enfrentadas por Dilma, mas um futuro. Com que futuro Dilma acena? Por que se acreditar que, superado o impeachment, o desempenho dela no cargo jamais lembrará o desastre que é? A presidente sem apoio popular, sem autoridade política, sem plano de governo, de repente se recuperará só porque não caiu?

 

PARA QUE NÃO caia, só lhe restam dois caminhos: brigar com Temer, tomando-lhe o PMDB, ou se recompor com ele. E com ele e o PMDB compartilhar o poder até 2018. Temer pregou o aparecimento de quem possa unificar o país. Para que seja ele o unificador, Temer terá de unificar primeiro seu partido. É nisso que está empenhado. Por enquanto, Dilma dá sinais de que escolheu brigar com ele.

 

NÃO SERIA o mais recomendável. Com a carta chorosa, Temer fez 1 x 0 em Dilma. Fez 2 x 0 ao obter maioria na Comissão Especial que julgará o impeachment. E fez 3 x 0 ao trocar o líder do PMDB aliado de Dilma por um líder seu aliado. Temer guarda a bala de prata para matar Dilma, se for o caso: a antecipação do Congresso que levaria o PMDB a romper com o governo.


 


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