Rio de Janeiro mistura política, religião e futebol

27/06/2016 18:55
Rio mistura política, religião e futebol
Por Cristian Klein – Valor Econômico
 
RIO - Pelo ditado popular, política, religião e futebol não se discute. Mas, no Rio, um bispo licenciado da Igreja Universal e um ex-jogador da Seleção Brasileira estão no centro do debate que pode desbancar a hegemonia das raposas políticas do PMDB na capital.
 
Com a reviravolta do lançamento da pré-candidatura do senador Romário (PSB), na última segunda-feira, a corrida municipal tornou-se ainda mais afunilada, apesar da alta pulverização.
 
Na eleição com as regras mais restritivas em décadas - a começar pela proibição do financiamento empresarial - era consenso entre os quase dez concorrentes que a decisão se daria, num provável segundo turno, entre o senador licenciado Marcelo Crivella (PRB) e "mais um".
 
Todos - da esquerda à direita, de Marcelo Freixo (PSOL), Jandira Feghali (PCdoB) e Alessandro Molon (Rede) passando por Carlos Osorio (PSDB), Indio da Costa (PSD) e Flávio Bolsonaro (PSC) - queriam, e querem, ser esse "um". Mas a entrada em campo de Romário atrapalha os planos dos adversários, sobretudo do candidato da situação, o deputado federal Pedro Paulo Carvalho (PMDB), espécie de primeiro-ministro ao longo dos oito anos de governo do prefeito Eduardo Paes.
 
 
Crivella e Romário são dois nomes que já levitam sobre os demais, pelo amplo conhecimento que têm no eleitorado. São menos afetados pela mudança na legislação que reduziu o tempo de campanha de 90 para 45 dias e a propaganda em rádio e TV de 45 para 35 dias - além da vedação de doações de pessoas jurídicas, determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). "Acho que ajuda. Eu sempre contei com pouco tempo de televisão, em torno de um, dois minutos, e na última eleição fomos para o segundo turno", afirma Crivella.
 
No primeiro turno da corrida a governador em 2014, Crivella, sem coligação, ocupou apenas 6% do horário eleitoral. Luiz Fernando Pezão (PMDB), que viria a se reeleger, contava com 44%, sete vezes mais. O "recall" e a base social e religiosa explicam a façanha. Crivella é sobrinho do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) e dono da Rede Record, que tem no PRB o seu braço político. O senador dispõe de um eleitorado evangélico cativo que lhe dá expressivas votações, mas que lhe impinge rejeição crucial para o segundo turno. Crivella tem um piso eleitoral alto mas um teto baixo. Sua tentativa, neste ano, de ir para o PSB e se desvincular do "partido da igreja" buscava transpor a barreira.
 
Concorreu em todas as eleições majoritárias no Rio desde a entrada na política. Eleito e reeleito em disputa a duas vagas no Senado, em 2002 e 2010, foi derrotado para prefeito (2004 e 2008) e governador (2006 e 2014). Só não participou da última eleição à prefeitura, em 2012, quando era ministro da Pesca de Dilma Rousseff. Na admissibilidade do processo de impeachment, votou contra a presidente. E depois licenciou-se, o que lhe poupará de julgar o mérito, na votação final.
 
• Rumo à sétima eleição majoritária desde 2002, Crivella tem piso eleitoral alto e busca ampliar o teto baixo, por ligação com Iurd
 
No lançamento da pré-candidatura, Romário afirmou que não se licenciará e sinalizou que votará contra Dilma. Ex-jogador de futebol, o senador tem "recall" internacional. "Recebo cartas endereçadas a ele, aqui no diretório nacional, enviadas de torcedores de vários países", conta o presidente do PSB, Carlos Siqueira. A conquista do tetra, na Copa do Mundo de 1994, fez a fama de Romário, que a aproveitou para se catapultar na política, onde vem subindo degraus, como deputado federal eleito em 2010, e senador, em 2014.
 
No ato em que se lançou, Romário teve muita dificuldade de pronunciar a palavra "assiduidade", para dizer que a tem como poucos parlamentares no Congresso, mas foi esperto ao aproveitar um defeito - sua falta de experiência - para criticar a classe política tradicional, acuada com escândalos de corrupção. É o que o marketing político costuma denominar de "vacina": "Os experientes estão indo em cana", ironizou. Questionado pelo Valor sobre as principais marcas de seu mandato, citou "a bandeira da pessoa com deficiência e o esporte". Não discorreu sobre a qualidade dos projetos, mas destacou a quantidade: "São mais de 30, com certeza".
 
Romário, assim como Crivella, tem voto num campo popular e independe da arrecadação de muitos recursos ou de um extenso tempo de propaganda em rádio e TV, baseado na formação de grandes coligações, que também foram dificultadas pela nova legislação. Para efeito da divisão do horário eleitoral e das inserções, a campanha a prefeito só contará com os tempos dos seis maiores partidos da aliança - e não mais de toda aquela sopa de letrinhas, geralmente de siglas penduradas na máquina de governo.
 
"A entrada do Romário inviabiliza por completo a candidatura do Pedro Paulo, que já não tinha condição. Tira votos dele nas classes D e E. Não tem Cristo que o coloque no segundo turno", afirma Indio da Costa, para quem Romário também subtrai votos de Crivella, que já estava "em voo de cruzeiro". Indio tem uma aliança pragmática com Anthony Garotinho, na qual dará o tempo de TV do PSD para a eleição em Campos, reduto do ex-governador, em troca do apoio do PR na capital. Com o cobiçado Partido da Mulher Brasileira (PMB), hoje nanico mas que surgiu com bancada de 24 deputados, a coligação pode chegar ao segundo maior tempo de propaganda.
 
Pedro Paulo, que tem aparecido com cerca de 5%, rebate a ideia de que terá pista curta para decolagem, por causa das novas regras eleitorais. Diz que o recall é "importante na largada, mas não quando entra no momento mais quente" da disputa. Argumenta também que a campanha ficou mais curta em dias e menor no programa eleitoral gratuito - o bloco passou de 30 para 10 minutos - mas os "spots", as inserções de 30 e 60 segundos que pegam o eleitor de surpresa, aumentaram 
substancialmente. Ocuparão 70 minutos diários das programações das emissoras, em vez dos 30 minutos anteriores. Quanto à arrecadação, diz que a proibição de doações de empresas atinge todos os concorrentes. "Diminuiu os custos para todo mundo", afirma Pedro Paulo, que diz estar formando uma coligação que já teria 17 legendas. Isso lhe garante, ressalta, uma "infantaria" de mais de mil candidatos a vereador para lhe pedir votos.
 
O deputado lembra que Paes também partiu do patamar de 5% na primeira vitória à prefeitura, em 2008. Antes de ganhar altitude, no entanto, Pedro Paulo terá que escapar da artilharia dos adversários, que pretendem abatê-lo explorando os episódios em que agrediu sua ex-mulher. Quando o caso veio à tona, a viabilidade da candidatura foi questionada pelo próprio partido. Mas Paes o bancou.
 
"Hoje, o peso maior não é nem que ele bateu na ex-mulher, mas é o fato de ser uma candidatura do PMDB, do Paes. Existe um enorme desgaste com a quebra do governo do Estado, que contamina a prefeitura", diz o deputado estadual Carlos Osorio, que pertencia ao mesmo PMDB, foi secretário municipal e estadual de Transporte, mas se filiou ao PSDB para concorrer ao cargo, depois que Paes bateu pé pela candidatura de Pedro Paulo.
 
• Entrada de Romário em campo tira votos potenciais de Pedro Paulo, que confia em 'infantaria' de vereadores
 
Osorio concorda que a campanha deste ano favorecerá "quem tem recall ou está no poder", mas diz que sua candidatura tem chance "porque o eleitor não quer um político tradicional", diante do desencanto com os escândalos de corrupção e má gestão. O agora tucano vende-se como alguém que não é político profissional, mas também não é um neófito. Cita a passagem pelo Executivo, sua votação a deputado estadual em 2014 - a maior de um candidato do PMDB na capital - e a conquista do direito de sediar a Olimpíada. Era o secretário-geral do comitê de candidatura. Enaltece o fato de o Rio ter vencido Madri por mais de dois terços dos votos (66 a 32), enquanto disputas anteriores sempre foram decididas no "photochart", por um ou dois votos. "Construí minha vida na iniciativa privada. O Paes bateu na porta da minha casa para me convidar para entrar na política. Não busquei esse espaço. Descobri a vocação", diz o deputado. A voluntariedade já foi ironizada por Pezão: "O Osorio, se abrir uma geladeira, ele acha que é flash e começa a falar".
 
O parlamentar também tem a língua afiada. Argumenta que o candidato de Paes sai em desvantagem porque a população já teria o aprendizado de eleger uma presidente e um governador que ficaram aquém de seus padrinhos políticos. "O Pedro Paulo é o Pezão e a Dilma do Eduardo Paes", dispara. O pemedebista rebate, citando as variadas posições que exerceu em sua carreira política: "Diz isso quem não me conhece. Não vim de Marte", responde Pedro Paulo.
 
Líder dos votos da esquerda, o deputado estadual Marcelo Freixo, cuja história inspirou o personagem Diogo Fraga no filme "Tropa de Elite", resume o clima beligerante da campanha: "Não vai ser campanha de bom moço. É jogo de várzea".
 
 

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