Rosângela Bittar - A casa já caiu

03/09/2015 11:22

Rosângela Bittar - A casa já caiu

• Trinca Alvorada mantém Levy como grife de segurança

 

- Valor Econômico

 

Por que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não sai do governo Dilma Rousseff, estando fraco, desprestigiado, alijado das decisões? Todos os dias dos últimos trinta, pela manhã, há um jogo de adivinhação entre mercados e políticos para ver quem acerta o alvo, ministro no cargo ou fora? É um mistério que tenha topado passar por essa temporada de humilhações com visibilidade nacional e internacional. Considerando-se sua vaidade, obsessão pelo acerto, horror ao fracasso, racionalidade, experiência, capacidade de trabalho, credibilidade, para que manter-se em fritura pública num governo que não aceita suas ideias?

 

Ele vai ficando, estranhamente. Tendo suas atribuições de manejo da política fiscal transferidas para o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, que desde o primeiro dia do segundo mandato deixou clara sua decepção por não ter ido para a Fazenda, cargo para o qual se preparou no Instituto Lula e na campanha eleitoral, formulando projetos para o PT que agora coloca na roda. Levy vai ficando.

 

Tendo suas decisões reformadas também pelo ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Vai ficando. Tendo perdido todas as disputas de posições quanto a caminhos a percorrer na economia, notadamente a mais recente decisão de não cortar despesas, mas criar novos gastos e novos impostos. Vai ficando enquanto segue o governo da trinca Alvorada, que atua nos gabinetes onde Levy só chega quando tudo já foi resolvido por Dilma, Mercadante e Barbosa. Vai ficando.

 

Foi Nelson Barbosa quem inventou a nova CPMF e tentou emplacá-la na sociedade com a mesma fantasia antes derrotada de imposto para a saúde; foi Mercadante quem empurrou ao Congresso o desafio do Orçamento deficitário, cheio de pautas-bomba, essas sim, criadas pelo governo para explodir no bolso da classe média. Foram ambos que se socorreram da cínica tese do Orçamento elaborado com "realismo e transparência", para classificar o fato inédito de mandar ao Parlamento um Orçamento com déficit, em que o governo foi o único a não assumir suas responsabilidades. Levy submete-se, concede. Vai ficando.

 

Até por pressão da presidente que, quando o sente cambalear, dá-lhe um pouco de ar, faz elogios, justifica a ausência. À trinca que comanda o governo neste momento interessa ter Levy no cargo de ministro da Fazenda como uma grife de garantia de equilíbrio fiscal, respeito dos mercados nacional e internacional, enquanto pratica uma gestão de confronto às suas ideias e pregações. Vai ficando. Por quê?

 

Duas razões já foram citadas em conversas políticas sobre o assunto para a resistência do ministro da Fazenda em se deixar tombar, ceifado que já foi, na prática, pela trinca que conduz o governo. O primeiro dos ensaios é que o padrinho da sua nomeação, o presidente do Bradesco, convidado ao posto que viria a recusar e indicar Levy, é o líder da concertação de empresários que tenta manter a presidente no cargo e deve achar que a saída de Levy faz o governo embicar ainda mais ladeira abaixo. A segunda é que o próprio Levy não tem clareza sobre o que vai acontecer após sua saída. Há quem ouse lhe dizer não vai acontecer nada, pois a casa já caiu. E vai ficando.

 

Enquanto o ministro não se decide e a presidente toca a gestão da economia com Barbosa e Mercadante, a cotação de nomes substitutos surge no vácuo, premida pelo iminente desenlace. Nelson Barbosa, finalmente, assume com mais assertividade os assuntos da Fazenda, para os quais se preparou. Sempre foi o candidato "in pectore" do PT a esse cargo.

 

Agradaria a Lula, mas o ex-presidente também continua a gostar e voltou a mencionar a opção Henrique Meirelles. Entrou de novo no ranking, lista que transita entre mãos da cúpula petista, Paulo Nogueira Batista. Embora a maioria dos homens de governo afaste a possibilidade, assessores mais próximos de Dilma não ousam colocar a mão no fogo por suas escolhas, dependendo do humor do momento e o grupo a quem queira surpreender. Mas a conjectura governamental sobre novo ministro da Fazenda ainda não incluído na roda de decisões da trinca mas por cuja eficiência e capacidade de liderança empresarial Dilma está encantada, é Armando Monteiro Neto, ministro do Desenvolvimento.

 

O mais provável, porém, é que o ministro da Fazenda de direito, caso Levy resolver não mais ir ficando, seja quem vem tomando as decisões de fato e já está praticamente lá, Nelson Barbosa.

 

A sabatina de Rodrigo Janot pelo Senado, que o reconduziu à função de procurador-geral da República, não fez jus ao que deveria ser a apresentação de credenciais, conhecimento e cultura de quem se candidata a ocupar o maior cargo de promotoria do Brasil em um momento crucial da elucidação de crimes sucessivos de corrupção no poder público. Apesar da exagerada curvatura dos senadores, o procurador recebeu consideração mais pela desqualificação de seu inimigo do que por seu desempenho. Janot não conseguiu explicar questões básicas daquele dia, como, por exemplo, sua opinião sobre o projeto de legalização de recursos mantidos no exterior, em torno do qual empresas interessadas e parlamentares que precisam votar se debruçam, com extrema desconfiança. Não foi convincente e nem se deu ao trabalho de tentar ser sobre por que, tendo cerca de 40 parlamentares envolvidos na Operação Lava-Jato, só denunciou dois até agora.

 

Como também passou ao largo da satisfação ao público sobre seus encontros secretos fora de horários de expediente e até fora do Brasil com o ministro da Justiça do Executivo. Janot não brindou o Brasil, que tentava lhe dar mais um mandato, com conhecimento sobre o que fazer diante da corrupção endêmica incrustrada no governo.

 

Uma luz sobre esse pífio desempenho apareceria depois, quando se tornou conhecido despacho em que arquiva pedido da justiça eleitoral para investigar a campanha da presidente Dilma Rousseff. A resposta diante de uma suspeita de crime eleitoral foi militante. Considerou inconveniente a justiça ser "protagonista exagerada" do espetáculo da democracia, cujos atores principais devem ser "candidatos e eleitores". Argumento pouco científico para o chefe do Ministério Público.

 


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