Rosângela Bittar: Dilma, sai foguinho

09/12/2015 09:01

Temer expôs o PMDB que não larga o osso e apoiou impeachment

- Valor Econômico

 

O problema, vê-se agora, não era Aloizio Mercadante. O governo trocou o chefe da Casa Civil, entregou o bastão da negociação ao mais moderado, simpático e homem do diálogo que existe no PT, Jaques Wagner, e continua totalmente aleatório em matéria política.

 

A presidente Dilma Rousseff, neste momento dramático do seu segundo mandato que sequer começou, vê a situação degringolar a cada novo passo. Na chegada à beira do precipício, Dilma parecia caminhar segura. Começou a pisar em falso. Conseguiu virar a situação adversa da chantagem que teria sido feita por Eduardo Cunha para ser salvo pelo PT em troca da salvação de Dilma. A direção do partido pressionou os deputados contra Cunha, o Palácio pressionou a favor, Dilma perdeu. A presidente tentou inverter a mão mas ficou claro que estava metida no arranjo.

 

Acolhido o impeachment, ação que o PT denominou de retaliação - o presidente da Câmara exerceu seu papel, com legitimidade, ainda não perdeu o cargo e essa é sua prerrogativa -, Dilma começou a perder o foco e a atirar em todas as frentes. Executou uma estratégia de campanha eleitoral, que começava por vitimizar-se intensamente, aproveitando o fato de estar o Cunha carregado de denúncias na Operação Lava-Jato, Dilma acabou batendo boca com o algoz cuja legitimidade não reconhecia, e agarrou-se ao slogan "não tenho dinheiro no exterior", de fácil apelo popular, uma das acusações contra Cunha. Correu o risco do bumerangue do dinheiro no colchão, mas escapou, o do exterior valeu por 24 horas.

 

Cunha tem a caneta legal para fazer o que fez, e em todos os casos dos grandes escândalos investigados no governo o botão detonador foi acionado por um participante do grupo enquadrilhado. Dilma não se preparou, o marketing da vitima morreu logo ali com as iniciativas erradas que patrocinou. O governo entrou com três mandatos de segurança contra a acolhida do impeachment, e a decisão do Supremo Tribunal Federal fortaleceu Cunha, dizendo que ele estava fazendo o que tinha direito de fazer. O PT tentou tirar decisões das mãos do sorteado ministro Gilmar Mendes, provocando uma reação irritada de todo o tribunal.

 

O esquema de defesa traçado foi dando errado, mas Dilma seguiu com o script de orientador de campanha. É como se estivesse disputando uma eleição para um mandato de três anos, com um colégio eleitoral pequeno, precisando de poucos votos para vencer, e ainda se enrola. Ela tergiversa, fantasia, teatraliza, como quando estava em campanha. Passou a convocar entrevistas para martelar um slogan. Tem feito dois a três discursos por dia para auditórios formados por claques. Já reuniu governadores, ministros, advogados e professores de direito que apoiam o governo para que falem contra o impeachment. Desse último grupo conseguiu uma proeza: os doutores fizeram a defesa política da presidente alicerçada em um tripé que vem sendo apresentado por defensores oficiais: 1- Dilma transgrediu a lei orçamentária porque tinha precedente em Fernando Henrique; 2- Pedalou para pagar a Bolsa Família que seus adversários queriam que não pagasse; 3- Cunha, denunciado, não tem moral para aceitar pedido de impeachment.

 

Juristas, caídos de paraquedas no Planalto, não tinham condições mesmo de, no improviso, fazer uma defesa real contra o crime de responsabilidade de que a presidente está sendo acusada. Mas a defesa política já servia para Dilma, pois confunde, movimenta, embaralha, e, como são juristas, fica tudo parecendo legal.

 

Aos governadores e ministros impôs o mesmo tipo de adesão. Em meados da semana passada o Palácio começou a ficar incomodado com o silêncio do vice Michel Temer sobre o impeachment. À sua revelia, os ministros da Casa Civil e da Comunicação anunciaram o que seria a opinião do vice, dita à presidente, segundo a qual não havia lastro jurídico para acolher o impeachment.

 

Temer saiu então do silêncio para desmentir dois ministros que se sentam ao lado da presidente. E passou ele a ficar profundamente incomodado com a cobrança pública de lealdade.

 

Ao dizer que "ele sempre foi extremamente correto comigo", "Não tenho porque desconfiar dele um milímetro", "Espero integral confiança de Temer", a presidente armava o terreno para, em seguida, anunciar o "fui traída", caso o vice assumisse seu lugar. Uma professora convencendo o aluno teimoso, renitente, iniciando assim o processo de infantilização da conversa que o PMDB governista, para defender seus cargos com agressividade notável, atribuiu à carta do vice para desmoralizá-la.

 

Quando Dilma tentou convencer a criancinha rebelde a ficar quietinha, na base do discurso em público, Temer ficou definitivamente entalado e falou a linguagem que Dilma entende: "Não é preciso alardear publicamente a necessidade da minha lealdade. Tenho-a revelado ao longo desses cinco anos", disse na carta, e citou ponto por ponto das desavenças do período, que o PT também entende.

 

Foi uma carta simples, pé no chão, destemida, dando o nome certo às rasteiras que considera ter levado. Carta de denúncia da aliança, quase formalização da ruptura que, como se viu, já existia. E nada havia de novo que os partidos aliados ao PT não soubessem. Era uma atitude estranha apenas para o PMDB, rei da hipocrisia.

 

Como vão governar juntos se não houver impeachment é o que mais se perguntava ontem no governo. Ora, como governaram até agora, separados, com Dilma boicotando Temer e o PT boicotando o PMDB. A atitude de Dilma desagrada o PT, Temer desagrada o PMDB que não larga o osso. Adiante com a guerra. Ontem mesmo a presidente sofreu novo revés na sua estratégia de jogar uns contra os outros e negociar com as pessoas erradas: a Câmara aprovou a comissão do impeachment composta pela oposição contra a montada no Palácio do Planalto, enquanto ela ainda discutia o que fazer com a carta de Temer.

 

O que provocou a ala do PT próxima a Lula a atacar a estratégia do Planalto. "O cara já mandou carta de rompimento, já se reuniu com a oposição, já fez plano de governo em que ele é a ponte para o futuro, já saiu de casa e está dormindo no hotel, tirou discos e livros das estantes, disse, meu bem, estou indo embora e aqui estão as razões, e a presidente ainda está dizendo que quer lealdade. É uma estratégia daltônica". Apesar da avaliação crítica o PT vai defendê-la em tudo. "Ela foi eleita por apenas três pontos de diferença, mas os adversários têm que se conformar. O governo é ruim mas Dilma fica até o fim".


 


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