Rumo ao beco sem saída – Editorial / O Estado de S. Paulo

27/02/2016 20:58

O crescente desentendimento entre Dilma Rousseff e o PT beira o rompimento e demonstra, dramaticamente, que, excluída a possibilidade de uma solução heterodoxa como a formação de uma frente ampla de salvação nacional – na verdade, uma quase impossibilidade nas atuais condições politicas –, o País vai continuar se afundando na crise política, econômica e moral, com graves consequências na área social. Até onde a vista alcança, é um beco sem saída. E os maiores responsáveis por esse desastre são a própria chefe do governo e seu partido, que não conseguem o mínimo que deles se poderia esperar: que se entendam para dar um governo ao País.

Mas por que Dilma e o PT não se entendem? Há quem diga, entre eles muitos petistas apavorados com seu próprio futuro político, que as divergências são de natureza ideológica, uma vez que, pressionada pela crise, Dilma estaria tendendo a adotar medidas de caráter “liberal” não só para promover o necessário ajuste das contas públicas, como para incentivar a retomada do crescimento econômico.

 

Seriam dois exemplos disso a reforma da Previdência na qual Dilma insiste e a recente aprovação pelo Senado, com apoio hesitante do Planalto, de uma versão atenuada do projeto, de autoria do senador José Serra, que reduz a participação compulsória da Petrobrás na exploração do pré-sal. Mas não é nada disso.

 

Ideologicamente, Dilma e o PT sempre estiveram perfeitamente identificados na volúpia estatista e no desprezo pela economia de mercado. A triste história da “nova matriz econômica” comprova isso. As divergências sérias começaram a partir do início do segundo mandato, quando o PT se deu conta de que a situação se deteriorava rápida e perigosamente e impunha-se a adoção urgente de uma estratégia capaz de garantir a sobrevivência do partido com um mínimo de competitividade eleitoral, tendo em vista as eleições municipais deste ano e, principalmente, o pleito presidencial de 2018.

 

Na definição dessa estratégia teve papel predominante, como não poderia deixar de ser, o ex-presidente Lula, que sabe gravemente ameaçada sua pretensão de voltar ao Planalto em 2018. De início Lula ainda se deu ao trabalho de fazer com Dilma o jogo duplo em que é especialista. Hoje, ainda procura manter as aparências de um bom relacionamento com a ex-pupila. Mas é apenas jogo de cena, porque a estratégia de sobrevivência petista baseia-se em dois fundamentos que nada têm a ver com a responsabilidade que as urnas atribuíram ao PT de dar sustentação política ao governo.

 

O primeiro fundamento da estratégia petista é, por meio da transferência de responsabilidades – à conjuntura internacional, à oposição “de direita”, à “mídia golpista” e, in extremis, à própria Dilma –, tentar dissociar o PT de tudo o que o ligue ao atoleiro em que meteu o País. O segundo é voltar-se inteiramente para suas bases populares, hoje constituídas essencialmente de entidades e organizações sociais que o partido de algum modo subsidia e mantém sob sua influência, com a radicalização do velho discurso populista do “nós” contra “eles” que implica o alinhamento incondicional com as “causas populares”, os “direitos dos trabalhadores” e a luta contra as “injustiças sociais”. São bandeiras que o PT tem a pretensão de considerar exclusividades suas.

 

Além disso, para explorar politicamente um tema que ainda empolga uma minoria de brasileiros que se declaram eleitores de Lula, o PT acena a bandeira da defesa de seu grande líder contra a “perseguição política” de que ele é alvo por parte de agentes públicos “cooptados pela direita”.

 

Em resumo, Lula e o PT estão preocupados com suas sobrevivências e dispostos a pagar o preço – mesmo ao custo de algumas “boquinhas” na administração pública – de assumir o papel de oposição a Dilma Rousseff e seu governo. A esse ponto chegaram os outrora companheiros.

 

Tudo isso demonstra, mais do que a instabilidade, a precariedade moral do atual quadro político. O quadro é tão imponderável que não será surpresa se PT, CUT, UNE, MST e congêneres, para não perderem o hábito plantado no caldo de cultura da democracia, saírem às ruas exibindo novas faixas: “Fora, Dilma!”.


 


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