Sem a confiança do Planalto, Temer se afasta

18/10/2015 09:30

Vice evita falar do governo e não se aprofunda no tema impeachment

Simone Iglesias – O Globo

 

Sem a confiança do Planalto, Temer se afasta de Dilma

 

BRASÍLIA - O vice-presidente Michel Temer se impôs um distanciamento do centro do poder, mantendo-se há semanas em reserva quase absoluta. Além de ouvir conselhos de seus aliados, que recomendavam que ele se resguardasse exatamente por ser a alternativa direta de poder em caso de impeachment, Temer percebeu os sinais da presidente Dilma Rousseff e de ministros petistas de que sua presença deixou de ser considerada importante para a garantia da governabilidade, passando a ser um incômodo. A relação do peemedebista com a cúpula palaciana nunca foi de confiança plena. Mas pessoas próximas a ele relatam que o clima entre ele e a presidente Dilma passou a ser de permanente mal-estar e com ministros petistas, de desconfiança aberta e constrangimento.

 

Ao contrário da postura adotada até o início do mês passado, quando participava de eventos e dava entrevistas falando sobre as ações e desacertos do governo, o vice-presidente da República quase não tem aparecido em público, e até os almoços e jantares privados em sua residência oficial se tornaram menos frequentes. Em seu gabinete, num prédio anexo ao Palácio do Planalto, a movimentação de políticos, no entanto, se mantém intensa. Temer segue ouvindo e aconselhando aliados, mas evita ajudar diretamente o governo em questões cruciais, como a eventual abertura de um processo de impeachment contra Dilma. Quando chamado a opinar sobre o assunto, o vice não se aprofunda.

 

Foi o que aconteceu na última terça-feira, durante reunião da coordenação política do governo. O ministro José Eduardo Cardozo ( Justiça) chegou ao gabinete de Dilma com a liminar concedida pelo ministro Teori Zavascki (STF). A análise inicial de Cardozo e outros ministros que o cercaram para ler o documento era de que o Supremo estava paralisando o andamento de qualquer ação relacionada ao impeachment. Temer procurou não se envolver, mas, convidado a opinar, disse superficialmente que não tinha a mesma interpretação e que a liminar deveria ser lida com mais “cautela”. Horas depois, o Planalto percebeu que a decisão de Teori tratava do rito definido pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), para o pedido de afastamento, mas seu direito de deferir ou indeferir a abertura do processo estava plenamente assegurado.

 

Ele não se aprofunda sobre o tema impeachment porque o núcleo político que cerca a presidente tem convicção de que ele está conspirando. Chega a alguma rodinha formada por esses ministros e a conversa muda rapidamente, como se ele não percebesse. Temer não lavou as mãos, o que ocorreu é que lavaram as mãos dele — relatou ao GLOBO uma pessoa próxima do vice-presidente.

 

Apesar de ministros palacianos acreditarem que o vice conspira para tomar o lugar de Dilma, sempre que questionado sobre o avanço do impeachment por aliados, ele afirma que é difícil sustentar uma ação deste porte juridicamente. E mais, já viu contagem de votos de peemedebistas mostrando margem para a abertura do processo no plenário da Câmara e discorda, afirmando que não há, hoje, possibilidade de isso se concretizar.

 

O distanciamento de Temer deve ser duradouro. Desde que teve sua atuação esvaziada na articulação política pela presidente, o vice buscou construir uma “narrativa da saída” do núcleo central do governo. Foi nesse momento, no início de setembro, que fez a última série de críticas abertas ao governo, quando disse inclusive que era difícil a presidente Dilma “resistir” mais três anos e meio com popularidade tão baixa e clamou que era “preciso melhorar o que está aí”.

 

O distanciamento foi reforçado há três semanas, quando Dilma decidiu pilotar pessoalmente as negociações da reforma ministerial, chamando o líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani (PMDB-RJ), para oferecer duas pastas na Esplanada em troca de votos contra o impeachment e a favor do ajuste fiscal. Presidente do PMDB, Temer se sentiu novamente esvaziado.

 

Na semana passada, quando Eduardo Cunha pediu ao Planalto a ida do vice para o Ministério da Justiça, no lugar de José Eduardo Cardozo, pessoas próximas a Temer trataram a ideia como algo irrealizável. Ele jamais aceitaria nova missão já tendo sentido na pele a falta de autonomia que lhe seria reservada.

 

Além da falta de autonomia, ele foi boicotado quando esteve à frente da articulação. Por que se posicionar politicamente agora se sua posição é vista com ambiguidade? O melhor a fazer é o que Temer está fazendo: se preservar de qualquer disputa — afirmou um amigo do vice-presidente.

 

Desconforto com crise

 

Aos aliados, Temer tem demonstrado desconforto com a situação vivida e preocupação com a crise política permanente. Soma-se a esses dois fatores a dificuldade de o governo se desvencilhar dos problemas que aparecem quase que diariamente. O vice deixou claro a Dilma, nas últimas semanas, não estar mais disposto a atuar no front das negociações políticas com o Congresso, mas disse que trabalhará em temas da agenda econômica e do ajuste fiscal. Segundo aliados, o intenso fogo amigo sofrido quando fiador de negociações políticas deixaram marcas.

 

Ele negociou as votações do primeiro semestre usando seu crédito pessoal. Alguns deputados entenderam isso quando as promessas não foram cumpridas, mas outros, não — relatou um peemedebista próximo a Temer.