Temer descarta impeachment neste momento

28/01/2016 11:00

Por Raymundo Costa – Valor Econômico

 

BRASÍLIA- Indo direto ao ponto: o vice-presidente Michel Temer não acredita que o pedido de impeachment seria aprovado no Congresso, se fosse votado hoje. "Neste momento não", disse Temer em uma conversa reservada em seu gabinete na VPR, sigla pela qual é conhecida a Vice-Presidência da República, instalada no bloco 2 do anexo 2 do Palácio do Planalto. "Eu só não sei o que vai acontecer com a retomada dos trabalhos do Congresso", completou em seguida.

 

Temer teria muito a dizer, pelo que se ouve de seus interlocutores na VPR e no Palácio do Jaburu, a residência oficial do vice, mas no momento foge de entrevistas. Receia ser mal interpretado e chamado de golpista ou acusado de querer derrubar a presidente Dilma Rousseff. "Tudo que eu falo tem uma dupla interpretação. Tem um certo clima de suspeição. Então eu tenho que tomar muito cuidado". Temer reconhece que a presidente tem as suas dificuldades para propor uma pauta, mas entende também que é hora de sair do "ramerrame" da economia e que, para isso, é preciso "ousadia" da parte de Dilma.

 

Num ambiente diagnosticado como de crise de confiança, diz que "a presidente precisa ousar", ao responder a uma pergunta sobre o que acha que Dilma deveria fazer neste momento de inflação alta e aumento do desemprego. "Ela precisa encontrar um meio para dizer [ao Congresso] 'olha, eu preciso disso daqui, eu sei que nós estamos em ano eleitoral, sei que é difícil, mas nós precisamos". Temer conta que numa conversa com Ricardo Berzoini (Secretaria de Governo) o ministro lhe disse que o déficit da Previdência, este ano, chegará a R$ 25 bilhões. "Daqui a pouco é o pensionista que não recebe! Alguma coisa tem que ser feita."

 

Temer e a cúpula do PMDB saudaram a entrevista que o ex-ministro e ex-deputado Delfim Netto concedeu ao Valor, publicada na edição de segunda-feira. Nela Delfim diz que a presidente precisa retomar as rédeas e ir ao Congresso apresentar reformas, do contrário, o caos se instalará. O vice só diverge quando o ex-ministro diz que Dilma deve levar o Congresso às cordas.

 

"A expressão não foi feliz", disse a interlocutores. "Colocar o Congresso nas cordas quer dizer que nós vamos pressionar o Congresso". Na opinião do vice-presidente, o que a presidente deve buscar "é fazer uma parceria" com o Congresso. "Você tem é que ser parceiro do Congresso. O governo não governa sem o Congresso. Se o Congresso não quiser, o governo não governa".

 

A entrevista de Delfim animou a cúpula do PMDB porque as reformas constitucionais e infraconstitucionais sugeridas pelo ex-ministro integram o programa "Ponte para o Futuro", divulgado ano passado pelo partido: reforma da Previdência Social, inclusive com a adoção da idade mínima, do mercado de trabalho, da desindexação e da desvinculação dos gastos orçamentários. Temer, segundo apurou o Valor, entende que Dilma tem problemas para assumir essa agenda e o principal deles é o PT.

 

"Essa é a dificuldade que ela tem, eu reconheço", disse o vice-presidente numa conversa recente. "Agora, meu caro, quando você é presidente da República, você tem que salvar o país em vez de salvar o partido, não é verdade"?

 

Há outras dificuldades. Entre elas, a desconfiança que se instalou entre a presidente e seu vice, depois sobretudo que o impeachment tomou forma concreta na Câmara dos Deputados e o governo, no contra-ataque, passou a jogar na divisão do PMDB criando problemas, inclusive, para a recondução de Temer à presidência nacional do partido. O vice toma muito cuidado ao tocar no assunto, nas sucessivas conversas - a VPR e o Palácio do Jaburu viraram um "point" de políticos, diplomatas e empresários em constante vai e vem.

 

Conta que a presidente fez uma tentativa, quando chamou o PMDB para fazer a coordenação política do governo, ano passado. Na realidade, segundo Temer, foi um apelo, porque, se o PMDB não aceitasse, a crise seria maior. O então secretário da Aviação Civil Eliseu Padilha, convidado para a Secretaria de Relações Institucionais, recusara o cargo. "O governo estava no chão", disse Temer. "Eu fiz um esforço extraordinário para aprovar aquele esforço fiscal, porque era contra o trabalhador de um lado, e contra empresário, de outro", contou o vice.

 

Em suas contas, foram mais de 60 reuniões com líderes do Senado e da Câmara. "Como nós aprovamos? Com meu cartão de crédito". Temer considera difícil governar com 20 partidos na base aliada do governo com esses 20 partidos exigindo posições. Houve um momento em que chegou a fatura. Padilha ajudou no varejão e na organização da Secretaria de Relações Institucionais, mas os acordos não foram cumpridos. "Eu comecei a perceber que o PT não estava satisfeito com a nossa presença dentro do Palácio do Planalto".

 

"Se ela faz gestos como 'essa "Ponte para o Futuro" é formidável, nós vamos adotar vários temas aqui e tal' seria um chamamento", disse Temer a interlocutores que estiveram na terça-feira, antevéspera da reunião do Conselhão, para uma conversa na VPR. No primeiro encontro que teve com Dilma em 2016, a presidente disse a Temer que recebeu, leu e pediu para a equipe econômica examinar o programa do PMDB.

 

O gesto, se houver, será surpresa para o PMDB e para o vice Michel Temer. A reação esperada no arraial pemedebista é outra. Alguma coisa assim como "não, olha aí o PMDB contra o país, o impeachment". O que é mais grave, na visão do vice, é a concepção que os outros não podem pensar. "Quem tem que pensar é só o PT". Numa conversa, o vice-presidente foi questionado diretamente se estaria disposto a ajudar. Sua resposta foi essa: "Ela precisa chegar e dizer 'Temer, você é vice-presidente e nós vamos governar juntos. Vou fazer uma declaração de que nós vamos governar juntos. Nós vamos fazer as coisas juntos. Eu, você e o nosso ministério. Veja aí o que você acha disso ou daquilo".

 

Temer acha que Dilma deveria envolver o Congresso, inclusive a oposição, que pode sim colaborar, apesar de fazer beicinho sempre que a presidente ou seus auxiliares falam de diálogo. "Quando nós aprovamos a primeira medida provisória (do ajuste fiscal) eu trouxe oito votos do DEM, seis votos do PSB, três votos do PV, com o Zequinha [Sarney]. Aquilo nos permitiu ganhar. Nós ganhamos por 22 votos. Conversar com a oposição não faz mal". Atento aos "gestos" na política, Temer registra que "Mendoncinha [o deputado Mendonça Filho, líder do DEM] falou que se for uma coisa estruturadora do Estado...".


A exemplo de Delfim, o vice acha que a presidente deve ir ao Congresso apresentar as reformas necessárias para estabilizar a economia, mas prefere a solução do governador do Espírito Santo, Paulo Hartung: a presidente iria, mas só depois de votado o pedido de impeachment. "Você vai resolver o impeachment quando? Meados de abril. Então, se ela for depois..."

 

Outros interlocutores de Temer chamam a atenção também que se Dilma for na reabertura do Congresso, será fotografada na sessão ao lado do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros - um contra e outro a favor do impeachment. Os dois envolvidos nas investigações da Lava-Jato. Constitucionalista, Temer está atento a demandas como aquelas relacionadas ao direito de defesa, mas no geral acha que a Lava-Jato "vai promover uma certa modificação nos costumes do país".

 

Hoje, enquanto o Conselhão estiver reunido em Brasília, Temer estará no Paraná, pela manhã, e em Santa Catarina, à tarde, em campanha pela presidência do PMDB. Amanhã o giro será pelo Nordeste - Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco. "Estou empenhado no PMDB, fui instado a isso", costuma dizer, referindo-se à tentativa dos senadores de colocar alguém em seu lugar. Desde 2001 na presidência do PMDB, diz que essa será sua última disputa. Temer aposta numa chapa única ao comando pemedebista, provavelmente com um senador de vice.

 

 


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